Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de silêncio

Despedida

Amanhã quando eu acordar você não estará mais conosco. Nos últimos dias já era possível pressentir a sua partida: seus olhos baixos, seu silêncio, sua fraqueza. Os dias estavam quentes, os pernilongos voltaram as nos perturbar o sono. O céu já não reluzia do azul frio e brilhante dos seus melhores dias. Mas amanhã, definitivamente amanhã, você não estará mais conosco.

E antes de sua partida já pressentimos a chegada de uma senhora gloriosa. Senhora que de tão velha não envelhece nunca. Senhora perfumada de perfume da terra e colorida de cores inomináveis. Senhora que não se esconde, que não aceita tristezas, que fala da vida e cobra da vida que lhe sirva de espelho. E na presença desta senhora tão garbosa nos esqueceremos completamente de você.

Nesta nova presença tudo é fala, é dança, é diálogo. O que era cinza se torna chumbo, chão, terra, flor, fruta, vitamina, alegria. O que era silêncio na sua presença se transforma em nada, nem mesmo em lembrança. Tão logo você se vai e nos esquecemos de você.

Mas hoje, ainda, você está aqui. Trazendo chuva, trazendo umidade, refrescando meus olhos secos, me saciando de melancolia, me aquecendo com o crepitar da madeira no fogo. E é só nesses dias que me alimento de silêncio, que relembro que também sou terra, que me transformo a cada estação e que me reencontro contigo sempre a cada ano, no mesmo silêncio, na mesma reconstrução, no mesmo esconderijo da terra quando fujo do frio e me protejo, silenciosamente, no calor da solidão. Vá, meu amigo. Estarei te esperando no próximo ano, na próxima temporada, com um cobertor nos ombros, uma taça de vinho na mão, e um nó apertado no coração.

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Antes mesmo de me sentar para escrever, já tenho tudo desenhado na mente: é preciso falar sobre o direito de não haver desejo da escrita, louvar a força do silêncio, dizer que hoje não, não quero escrever. Cínica, puramente cínica, sentada à frente da tela branca, do cursor que pisca. Se não quero escrever, não entendo porque minhas mãos estão tão limpas, tão ausentes de barro ou massa de pão de queijo ou tinta para pintar sapatos ou calda de chocolate. Cínica.

O desejo é, na verdade, uma vontade de burlar o dever, de recusar a escrita como tarefa, como necessidade de dizer algo a alguém, quem quer que seja. A necessidade desgastada de suprir o leitor, de mantê-lo cativo, de oferecer a ele, como quem oferece doces frescos, uma pitada de carinho, e fazê-lo retornar na semana seguinte, ávido por novos sonhos, micromomentos de alegria.

É frente a esse leitor que me sinto paralisada. E se o doce não agradar? E se ele perceber que o texto é velho, apenas uma versão meio melhorada daquilo que se disse há um ano? E se o que eu disser não tiver nada, nadinha de nada de interessante? E se depois do texto lido o leitor simplesmente mudar a página, indiferente, sem nenhuma lembrança do que foi dito, do que foi lido, do que foi construído assim, de jeito tão difícil?

Melhor dizer que não há texto. Ponto. Não há. Não há ideias, não há o que dividir, não há o que dizer. Sinto muito. Volte semana que vem, quem sabe. Quem sabe. Eu espero muito que semana que vem tudo volte a funcionar, por ora, sem previsão.

O problema com o leitor fica assim resolvido. Mas continuo frente à tela, branca, piscando. Não há o que dizer, não há para quem dizer. Nenhuma espera, nenhum desejo. Nem mesmo há cinismo. Há apenas eu mesma, parada, quase extática frente à tela, algo pulsando, pedindo, implorando para que seja escrito.

Alguns roteiros se colocam, possibilidades de alguma intriga, uma mensagem bonita, talvez. Nada. Só há o que pulsa por dentro e não diz o que é, nem como se chama, nada. Penso no meu dia, penso nos últimos dias. Chuvas eternas, leituras eternas, falta de sono, saudades sem contornos. Escrevo, então, para mim mesma. Sem verdades nem mistérios. E encontro, ali, na escrita, a calma dos meus desejos. Não importa o que seja. Importante é o que pulsa. Importante é que se escreva.

Cerejeiras pela rua

Enquanto as pessoas na mesa conversavam com vigor sobre suas vidas, Carolina sentia medo. Calada ao canto, ouvindo histórias magníficas, ela se sentia pequena diante de um arsenal de proezas e falas e vitórias e derrotas e tristezas tristíssimas de pessoas que ela pouco conhecia. Buscando na memória algum resto de acontecimento, alguma máxima popular, Carolina se acabrunhava: podia contribuir muito pouco com aquele cenário em que as pessoas narravam feitos e se engradeciam diante dela, que se apequenava, que se amedrontava, que se emudecia a cada minuto.

Pagou a conta do restaurante e pôs-se a correr pela cidade. Sozinha. Ainda ouvia restos de conversa, de histórias, vozes cheias de certezas afirmando que ela era covarde, que ela era pior, que era feia, que ela era quase imperceptível. Lembrava-se de vozes antigas que diziam fortemente que ela era indefinível: nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra, nem loira, nem morena. Indefinível.

Em meio a caminhada as vozes foram silenciando e Carolina passou a perceber árvores rosadas colorindo a rua de uma cidade que ela pouco conhecia. Ela sabia o nome da árvore e ignorava o nome da rua. E num estalo lembrou-se de tantas flores que cultivava no seu quintal – pensou no nome de cada uma delas. Tentou lembrar os nomes das ruas de sua cidade e percebeu que entende mais de flores e plantas do que da situação política e econômica de seu país. Sorriu. Flores e plantas e árvores e frutos ainda lhe interessam mais que as notícias cotidianas, cotidianamente repetidas sobre economia repetida e a vida pessoal repetida dos políticos e celebridades.

É na solidão que Carolina se sente segura. A indefinição que marca sua presença entre as pessoas se transforma em certeza, em doçura, em coragem. Ao estar sozinha Carolina sabe bem o que é que ela é. Entre as pessoas Carolina se perde, e é só quando encontra um lugar vazio que possa ocupar é que ela volta a ser Carolina de novo. Sem adjetivos, apenas Carolina.