Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de dor

Vestido cor de rosa

Te vestiram de rosa, menina, te presentearam com bonecas com ares de princesa, preparam sua festa de cinco anos, de dez anos, de quinze anos, pentearam seus cabelos, trabalharam cada cacho, sem deixar um fio fora do lugar. Te ofereceram viagens, te prometeram felicidade, te esconderam da dor. Te deram remédios, te livraram de encrencas, compraram para você tudo o que você queria e pouco precisava.

Mas esqueceram, menina, de te avisar que a luz apaga, que alguém precisa limpar os restos da festa, que o telefone às vezes chama, chama e não atende. Esqueceram, menina, de te expor aos gritos esbravejantes daqueles que têm poder, de te avisar que comida velha cheira mal, de dizer que louça suja não se lava sozinha.

E hoje, menina, você chora, abraçada na velha boneca, que também envelheceu e perdeu seu perfume de princesa francesa. Chora porque não te avisaram que o mundo não se veste de cor de rosa, chora porque desta vez ninguém pôde comprar a vaga que você tanto queria. Chora porque seus amigos se foram e ainda não apareceram novos para preencher o lugar daqueles.

Você se sente sozinha, menina, eu sei. Não desista. O mundo te decepciona uma vez, mais uma vez, mais outra. Vão rir da sua cara ainda, vão te negar oportunidades, vão roubar o seu dinheiro, vão te causar mais e mais dores. Mas olha, menina, não perca esse seu olhar de doçura, esse seu coração de criança. O mundo também é bem colorido às vezes, e você vai aprender que pode usar as cores que quiser, basta aprender a lidar com aquelas mais sombrias desse pantone misterioso.

Mas não desista, menina. Ainda há tempo de descobrir que o mundo é melhor, bem melhor do que te fizeram acreditar quando você era apenas uma menininha.

Anúncios

Aviso

Em cada caixa de lembranças deveria de haver um aviso: CUIDADO! PRODUTO ALTAMENTE TÓXICO.

Memórias de um sobrevivente – Luiz Alberto Mendes

MENDES, Luiz Alberto. Memórias de um sobrevivente. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, 417 páginas.

Memórias de um sobrevivente é uma autobiografia de Luiz Alberto Mendes. Digo autobiografia num duplo sentido: porque foi escrita pelo próprio autor e também porque se difere das biografias baseadas em documentos e registros. Como o próprio título diz, é uma biografia baseada em “memórias”. E as memórias de Luis Alberto voltam-se para uma experiência em que ele se considera um sobrevivente: sobrevivente de uma história permeada por dores extremas.

No momento em que escreve suas memórias, Luiz Alberto se encontra preso já há 20 anos. A narrativa se mostra, assim, como uma visitação do autor aos momentos críticos de sua vida, não num desejo de argumentar os motivos que o levaram a trilhar aquela vida que ele trilhou até ser preso, mas sim, num esforço de compreender, ele mesmo, o que o levou até ali.

O livro tem início na infância de Luizinho – antes até – ele conta como nasceu sem ter sido muito desejado pelos seus pais e avós. Mesmo assim, Luis demonstra uma relação de afeto e carinho profundo pela mãe, ao contrário do pai, sempre bêbado e sempre violento. Suas primeiras experiências com a violência começam ali, dentro de casa, na relação tensa que tem com o pai e as nas disputas pelo carinho, cuidado e atenção da mãe.

A história de Luiz não parece ser assim tão diferente dos demais que um dia conviveram com ele em quadrilhas de assalto a banco ou rodas de maconha pelo centro de São Paulo. O que diferencia a história de Luis é a própria narrativa, seu desejo de visitar os lugares da memórias e contá-las a um leitor – por mais impossível que esse leitor lhe pareça.

O autor narra de forma detalhada a experiência que teve em instituições de controle quando adolescente, os diversos desentendimentos com a polícia, a tortura corporal sofrida, o desejo de vingança, o sadismo presente nas celas escuras das delegacias às vesperas do golpe militar. Narra suas experiências com drogas, a adrenalina do ronco do motor na saída de um assalto, as conquistas sexuais, as saudades sempre eternas da mãe, o desejo de se reconciliar com o pai.

A crueldade sempre presente na vida desses adolescentes – dele e de seus amigos – permeia o texto: em certos momentos, a crueldade dos policiais é criticada de forma radical, por vezes, no entanto, o narrador parece se esquecer desta mesma crueldade e parte ele próprio para a violência. Violência sempre presente, a todo momento presente, no corpo, no texto, na história.

A maior violência, no entanto, parece ser a solidão. E não num sentido romântico – ficar por seis meses numa cela-forte sem luz nem companhia não tem nada de romântico. O frio, a fome e a ausência de qualquer cuidado se sobrepõe aos maltratos físicos extremos que o narrador sofreu em outros momentos de sua vida.

É ali, então, quando se encontrava sozinho e bem perto da loucura, que o narrador se encontra com o universo dos livros. Sem muito conhecimento, Luiz se debruça sobre eles e faz deles a sua liberdade. Torna-se um autodidata e é assim, na companhia dos livros e dos amigos que também os amavam, que o autor consegue “pagar” seus anos de pena.

Memórias de um sobrevivente é um livro escrito a partir da prisão e traz consigo todos os desafios que esse tipo de literatura carrega ao colocar o leitor no lugar desconfortável de ter que escolher entre confiar naquilo que está sendo dito por um autor que implora por qualquer migalha de confiança.

Lições para uma leonina

Entro em uma floricultura à procura de cerejeiras. A mocinha que me atende me oferece a maior muda da loja. Não, ela não cabe no carro. Quando explico a ela que preciso de uma muda menor, a mais pequenininha que tiver, ela retruca, generosa, me dizendo que as cerejeiras são flexíveis, elas entortam muito sem quebrar. Enquanto falava fazia peripécias com a sua maior muda, entortando os caules, as folhas, torcendo a plantinha, que não quebrava.

Assim que a mocinha soltava a planta ela voltava ao seu lugar, bonita, vistosa, sem indícios de ter sofrido qualquer tortura. Saí da loja subjugada. Até uma muda de cerejeira é mais flexível que eu. Não que eu não saiba abrir mão das coisas em favor dos outros, não que eu não saiba mudar de opinião quando o argumento contrário me convence. Longe de mim. A flexibilidade das cerejeiras é de outra natureza.

As cerejeiras suportam bem o vento: mesmo com uma estrutura frágil, com troncos finos, não quebram. Quando ainda mudas, seus galhos crescem mais do que o tronco, e ficam então curvados aguardando um outro amadurecimento. Enquanto esperam, eles abraçam o tronco que resiste ao crescimento.

Enquanto minha personalidade difícil muitas vezes aponta para a capacidade de mudar de opinião como algo desejável, as cerejeiras me mostram a possibilidade de me curvar e abraçar aquilo que ainda é fraco e frágil em mim mesma, em um esforço de acolher aquilo que ainda não está maduro, apesar das diversas conquistas parecerem apontar o contrário.

Ao olhar para as cerejeiras percebo que mais do que abrir mão do que penso ou desejo em favor dos outros, é preciso suportar a dor, permanecer presente mesmo quando o outro me machuca. O problema é que ainda tenho o coração muito duro e não sei lidar com as mágoas. Diferente das cerejeiras, meus galhos quebram facilmente quando são forçados.

A flexibilidade das cerejeiras é um dom de ser generosa consigo mesma, e para aprender a lição preciso acompanhar o seu crescimento desde o primeiro envergar das folhas. Volto então à loja e peço à vendedora a menor muda que ela tiver. Quando chegarem outras mudas, me avise, preciso de mais.

Conselhos para menina

Abre o peito, menina! Abre bem o peito que é com o peito aberto que se lida com a vida! Esconde esse seu medo de menina, essa sua timidez. Levanta esses seus olhos baixos, e acima de tudo, ama. Ama sem medo.

Você ainda se lembra de quando o mocinho mais bonito da escola paquerava a sua melhor amiga. Ainda se lembra de quando esperava uma carta e ela não chegava. Você ainda se lembra da alegria que passava ao largo, da festa no interior da vitrine, dos seus passos solitários na calçada. Você ainda se lembra do segredo que sua melhor amiga não te contou. Ainda se lembra do resultado daquele concurso, em que você fazia parte do pequeno grupo não selecionado.

Abre o peito, menina! Não pense que essas lembranças são suficientes, que outras mais não virão. Pessoas queridas irão embora. Você perderá dinheiro e sentirá, talvez, a dignidade te escapando. Perderá ainda a beleza. Um dia já não será jovem mais. Não desanime, não se entristeça. Mesmo que a dor não te faça em nada melhor.

Abre o peito. Espera. Ama. Ama com o coração simples aqueles que te agradam. Ama. Mesmo que eles não te respondam, mesmo que eles não se interessem. Ama e espera. Porque é com o peito aberto que se reconhece a beleza do mundo, e só com paciência será possível perceber a pequena folha crescendo naquela haste seca – quase morta. Seus cuidados não foram em vão. Espera.

Por isso, menina, abre o peito! Não tenha medo da dor, não tenha medo da espera, ama com o coração aberto. O mundo há de perceber o seu amor, e há de te recompensar. Não se envergonhe da sua tristeza, nem do seu amor. E principalmente, não se envergonhe da sua alegria. Ela é folha que cresce enquanto você cuida de hastes aparentemente estéreis. Abre o peito, menina, e ama. Ama sempre.