Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de infância

A noite lá fora

Dentro, escrevo sobre escravidão, a dura história da violência no Brasil, as torturas, as sevícias, os estupros que ajudaram a reproduzir uma sociedade que tem suas bases na diversidade e na dominação. A Maria do lado de fora, canta com vozes em coro sobre um pudim apaixonado, que andava pela rua. Risadas. Logo imaginam outra cena, uma é um porquinho, outro um leão. Risadas. Meu texto emperrado. Escravos. Violência. Do lado de fora do mundo, para lá do portão, pandemia. Vírus. Pobreza. Do lado de dentro, crianças e risadas. As risadas me lembram de um tempo que começava as seis da tarde, o sol indo embora, e quase nada, já eram dez da noite. Como podia? Eu não podia, eu era criança, mas me lembro do espanto das dez da noite. Não era que me espantava o tempo, me espantava a noite, chegar nessa hora de adultos, sem ver, sem perceber. Era a vida fora do tempo. Os amigos entrando na noite comigo, criança. Éramos nós, suados, loucos de brincadeira, envolvidos pela noite sem dar a mínima para ela. Agora sou eu aqui, analisando a violência, a Maria lá, envolvida na noite, na fala, na brincadeira. Somos nós, vivendo para o lado de dentro do portão, nos refugiando da vida lá fora, cheia de medos, perigos, vírus, violência. A Maria talvez se lembre da noite, mas não da vida lá fora. Eu me lembro, eu vou me lembrar.

Pirata e Capitano

A televisão, na sala, exibe desenhos infantis: uma família de porcos ou uma sala de bebês e robôs músicos ou uma menina pirata e um menino piloto de avião desbravando ilhas desconhecidas. A mãe sentada no sofá, as crianças em volta, uma enrolada num braço, outra no outro. Enquanto a pirata briga com um papagaio caolho, a menina vira para a mãe e pergunta do que ela tem medo. Tenho medo de ficar doente, a mãe responde. A menina então diz que se a mãe ficar doente, ela a leva para o hospital. O menino, no outro braço, não termina ainda muito bem as frases e as palavras, é ele quem diz que tem medo de lobo, de lobo, não, do lobo. A menina, então, concorda. Ela também tem medo do lobo. “Só do lobo?” a mãe pergunta. É, só do lobo. E voltam a ver o desenho, quando o papagaio caolho empurra as crianças pela prancha até quase alcançarem o mar. E ficam em silêncio. A mãe acaricia as cabeças que se aconchegam no seu colo. Pensa no medo que tem. Medo de doença, medo de morte, medo de violência, medo do mal, medo do bem. Medo que esses filhos andem, um dia, por essa prancha que os empurra para a morte. Mas a pirata, quando atinge o mar, se transforma em sereia, em peixe, em pássaro, e nada acontece. A mãe pensa, então, que sim, tudo poderia ser assim. O desenho termina, é hora de dormir. A mãe beija os filhos e pede que seja assim, que de hoje para sempre a prancha não seja, jamais, o fim.

Prece à Chuva

Senhora Chuva,

Eu não sou católica e nem moro na floresta, por isso não vejo outra maneira de me dirigir a você a não ser pelo seu próprio nome e em tom grave. Não posso rogar a São Pedro, nem à deusa da floresta, nem sei mesmo se você é uma deusa, se é espírito, ou se algum santo zela pelas suas atividades.

Por isso me dirijo à senhora e te imploro que se atrase um pouco, que não caia sobre nós agora, nem no fim da tarde, nem ainda essa noite. Se segure, saboreie seus tanques cheios, esse seu quase transbordamento. Se esbalde dessa sua amplitude só um pouco mais, se delicie com a nossa espera, com o nosso anseio.

E se te peço que se atrase não é  porque tenho medo de trovões, nem mesmo porque esqueci meu guarda chuva – eu não me importo em nada de chegar em casa repleta da sua água. Meu pedido também não se deve às roupas no varal, quase sequinhas quando saí de casa, e nem me preocupo agora com as muitas casas com tetos de papel que abarrotoam essa cidade.

Senhora Chuva, o que te peço é que tenha piedade da minha solidão. Estou longe de muito do que amo, e as tempestades de verão só fazem piorar a minha saudade. Saudade daqueles anos em que eu e meu irmão esperávamos impacientes o final do temporal, pegávamos escondidos nossas bicicletas e saíamos às pressas pelo bairro inundado, à procura de alagamentos, correntezas, lamas, e voltávamos para casa orgulhosos, com a camiseta tingida de barro, como um troféu. Minha mãe nem se zangava: nossas almas infantis já purificadas pela alegria de uma jornada encharcada.

Saudades da piscina da fazenda, com sua água gélida que se tornava morna assim que chovia, e minha avó tocava a chamar as crianças para sair da água: um raio podia cair e nos acertar a qualquer momento! Fora da piscina, na varanda da casa, ficávamos meus primos e eu, a boca roxa, os dedos engruvinhados, esperando, olhando para a chuva, olhando para a piscina. Olha ali um sapo! Onde? Ali! Onde? E eu, a criança mais nova, a mais infantil, quando dava por mim, já tinham tomado todo o meu refresco. Refresco sabor de chuva.

Esses tempos, Senhora Chuva, já ficaram longe, mas é no verão que sinto mais saudades. E as sinto também porque geralmente quando chove eu estou dentro de um carro, no meio de uma multidão de carros, e estamos todos sozinhos, e o barulho da chuva é tanto que eu nem mesmo consigo ouvir a rádio, nem mesmo consigo falar ao telefone. E não sei mais ficar ficar em silêncio, me calar frente ao espetáculo de sua tempestade. E isso, Senhora Chuva, porque estou sozinha. Porque estamos todos sozinhos.

Por isso te peço que se atrase, que espere um pouco. Preciso, antes de mais nada, de um remédio para a solidão. Quem sabe amanhã, Senhora Chuva, eu já tenha encontrado uma solução, alguma distração para essa saudade, e talvez eu consiga debruçar meu corpo na janela aberta, observando calmamente cada pingo, contando cada gota que cai da soleira. Por hoje, Dona Chuva, infelizmente, eu não consigo.

Espere, por favor, espere.