Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Junho, 2011

Uma medida para o amor

As mudas eram muito pequenininhas, eram delicadas. Assim que cheguei em casa corri para o quintal. Arranquei tudo quanto era trevo de três folhas – os de quatro nunca aparecem na minha horta – preparei a terra, afofei, coloquei esterco, peguei um punhado de folhas secas que tinha rastelado do jardim outro dia, misturei na terra e deixei tudo prontinho para receber as novas mudinhas. Com um cuidado milimétrico tirei cada uma delas da sementeira e coloquei no seu novo pedaço de terra, terra boa e toda rica em minerais.

Dava gosto de ver, elas ali, quase viçosas ainda, esperando o dia de amanhã: mais esterco, mais água, mais vida para a suas vidinhas tão miúdas. Restava agora aguar um pouco, e aguar seria o início de uma caminhada ao lado daquelas mudinhas: eu faria isso por dias e dias seguidos, até que elas se tornassem fortes, tivessem folhas crescidas, dessem flores e depois seus pequenos frutos. Só depois de todo esse processo é que talvez elas se cansassem e se encolhessem de novo, pedindo então para voltar para a terra, se tornando adubo para outras flores e frutos que viriam. Até lá, eu iria aguar aquelas plantas todos os dias, até a o fim dos seus séculos.

Restava então aguar. E foi então que se deu a sequência de erros. Tudo o que elas precisavam era água, mas eu não soube dar a elas a quantidade necessária. Com o meu regador enorme eu era um elefante pisando folhas miúdas. A água escorria como uma tempestade, caía aos cântaros sobre as minhas mudinhas, subjugava cada uma delas, e elas se curvavam, rastejavam, imploravam pelo fim daquele ritual autoritário e cruel.

Passei a aguar as plantas dia-sim-dia-não. Quando aguava, evitava despejar aquela torrente sobre as mudas, preferia agoar a terra, deixar seu entorno todo molhado, para que assim, quando quisessem, elas desfrutassem da saciedade que precisavam. Percebi que as plantas são meninas ainda assustadas com a possibilidade do amor, e que ele não deve ser despejado como uma tempestade, mas sim sorvido aos poucos, para que possa ser absorvido por cada partezinha do seu ser, sem desperdiçar uma única gota. Assim talvez elas cresçam, bonitas como eu gostaria que fossem.

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Caminhão de mudança

Lembro-me da primeira vez que me mudei para esta casa: mal descemos do caminhão de mudança, meu irmão olhou para mim com os olhos grandes, brilhando naquele dia já quase noite, e propôs um acordo – não comigo que eu não tinha poderes para decidir sobre aquilo – mas com o próprio destino: iríamos escrever qualquer coisa na porta de entrada da casa – ainda meio construção – com uma lasca de tijolo: se no dia seguinte o escrito ainda estivesse ali, teríamos certeza de que não estávamos sonhando.

Eu já tinha completado dez anos e era a primeira vez que eu morava em uma casa. Meu irmão, com um ano a mais, certamente com mais experiência que eu nessa vida de apartamento, bem sabia que era melhor negociar com o destino para garantir nossa estadia naquele sonho. O escrito foi feito na parte da casa que ainda não estava pronta e que levou anos para terminar. Durante muito tempo passávamos por aquele umbral marcado pelo acordo que fizemos naquela noite de mudança.

Não me lembro exatamente quando foi que colocaram o batente na entrada e finalmente instalaram a porta, encobrindo o nosso trato. Certamente eu e meu irmão já andávamos esquecidos do sonho e não sabíamos mais dos olhos grandes e brilhantes um do outro. E provavelmente, logo depois disso, partimos para outros lugares, passando diariamente por portas que não estavam mais marcadas pelo nosso acordo com o destino.

Da segunda vez que me mudei para esta casa eu completava dez anos moradora de apartamento. (Lembro-me de tantas vezes que fechei a porta de um apartamento pela última vez, com um olhar derradeiro sobre o lugar que me acolheu por certo tempo para no instante seguinte chegar a um outro ponto, outro lar). E foi no meio da arrumação das caixas, toca a correr trazendo a geladeira para não descongelar as coisas do freezer, desocupa o quarto para caber mais uma cama, ajeita essa montoeira de livros da menina – foi como um estalo, eu passei por aquela porta e me lembrei do trato que fizemos, meu irmão e eu, com o destino.

Quando acordei, no dia seguinte, percebi que ainda estava ali, na mesma casa de 18 anos atrás, agora diferentes, a casa e eu, mas ainda apegadas uma à outra. Assim que acordei abri a porta do quarto que dá para a varanda, e a varanda que dá para o jardim. O mesmo jardim onde eu e meu irmão brincávamos na piscina de plástico nos dias quentes de verão, ou nos escondíamos de nossos primos nas noites de mia-gato. O jardim é outro hoje, não carrega mais as marcas da molecada que viveu ali, mas eu ainda posso ouvir os nossos gritos e brigas de criança.

Para me certificar que isso tudo não é sonho, sempre que passo pelo umbral de entrada toco de leve no batente, lembrando do acordo que fizemos com o destino, que está cravado ali, em algum lugar, debaixo daquela madeira, daquela tintura. E sim, ele cumpriu a sua parte do trato, e sempre tenho a certeza de que não estou sonhando, quando chego ou quando saio partindo.

Os quitutes de Dona Flora

Para Juliana Vinuto

Já era a quinta vez que chamava a mocinha em sua mesa: não conseguia se lembrar o que tinha mesmo que fazer para as letrinhas mudarem de cor. Ela até já tinha se acostumado com aquele jeito de escrever – afinal o teclado do computador lembrava um pouco as máquinas de escrever que usava quando foi secretária do Dr. Borges, lá em Santa Cecília. Mas o estranho mesmo era mexer com aqueles botõezinhos de uma peça que ficava separada do computador, com um nome em inglês que ela também não conseguia guardar, e mais se parecia com uma bolinha achatada que ela levava de um lado para o outro.

A mocinha que dava as aulas de informática lembrava a neta de sua vizinha. Aqueles cachinhos cor de fogo na verdade lhe enchiam de tristeza: ela, que nunca teve filhos, vivia a se afeiçoar pelos filhos dos outros, e se envergonhava, bem dentro de si, pelo afeto maternal que devotava por parentes que nem eram seus. E nessa mistura de afeto e vergonha, às vezes era rude com a mocinha, ralhava com ela, dizendo que não, ela não tinha explicado isso assim não, na verdade, você nunca me disse que é preciso marcar primeiro a palavra com o mauze para depois ir no pincelzinho lá em cima para mudar a cor. Mauze! Era isso! Era esse o nome da bolinha achatada! Como eu pude me esquecer?

E num esforço enorme para não esquecer o nome da tal bolinha já se esquecia da receita toda. Como é mesmo? Ai, céus! Será que eu devo chamar a mocinha de novo? Na certa ela já está com raiva de mim… mas também, quem mandou ela vir dar aulas para esse bando de velhos? Ouvi dizer ontem que ela arrumou um novo emprego, lá no centro de São Paulo, que sai daqui e mal almoça, para chegar lá e trabalhar com coisas que ninguém entende o que é. Suspirou. Se não a chamasse, não conseguiria fazer a tarefa do dia, voltaria para casa triste, sem ter aprendido nada novo, ela, que a vida toda se orgulhou em aprender uma coisa diferente a cada dia.

Precisa de alguma coisa, Dona Flora? Era a voz da mocinha sobre seus ombros. Antes de perguntar à professora pela terceira vez o que ela deveria fazer para colorir a letra, quis saber onde era mesmo o outro lugar que ela estava trabalhando? O nome do lugar era cumprido, Dona Flora mal conseguiu entender a primeira palavra, mas sorriu satisfeita, afinal, qualquer coisa parecia melhor do que ficar ensinando informática para aqueles velhinhos cheios de dificuldade. Mas… você não vai abandonar a gente, vai? A mocinha sorriu, deu um beijo na testa da Dona Flora, e disse apenas que não, por enquanto não.

Dona Flora se voltou mais uma vez para o computador, e ainda sem saber bem como colorir as palavras, pensou que amanhã iria trazer um lanche para a mocinha, afinal, agora ela precisaria ir para São Paulo todos os dias, mais ou menos como ela mesma fazia quando era jovem, aquele caminho todo dentro do trem, o tempo curto para comer qualquer coisa, a ansiedade em conseguir alguma coisa a mais do que o que ganhava com as aulas de informática.

Quando ainda pensava no quitute que traria para a mocinha a aula terminou, e suas palavras ficaram todas sem colorir. Tudo bem, amanhã eu pergunto de novo como faz, e se ela estiver aqui, vai me dizer tudo de novo, com aqueles olhinhos pacientes, que eu não sei mais quem me fazem lembrar.

Flores atrasadas

Tive que sair correndo essa manhã, não consegui dar uma olhadinha nas plantas que crescem no meu jardim, como faço todos os dias assim que acordo. Não foi sempre assim. Por semanas a horta ficou sem água, as folhas amarelando, o pé de rúcula morrendo. Enquanto eu ainda tentava encontrar um lugar para tudo aquilo que tinha vindo encaixotado da mudança, a horta que meu pai deixou no fundo do quintal ia secando, morrendo devagarinho.

Um dia dei por mim, corri atrás da casa e percebi os olhos de meu pai me olhando por entre folhas amareladas, hastes caídas, terra ressecada. Não que seus olhos me recriminassem, mas aquele jardim me lembrava que nada se produz sem cuidado, sem carinho, sem atenção. E eu, que me acostumei a ver aquele quintal sempre limpo, cuidado, viçoso, me dei conta de que ele não era assim simplesmente: ele era assim por conta dos olhos de meu pai.

Foi então que passei a observar diariamente as flores, as folhagens, o pé de café, o pé de pitanga, os pés de rúcula, o pé de tomate cereja, a pimenta dedo-de-moça. Percebi que as flores de maio estão um pouco atrasadas, e vão florescer de vez daqui a pouco, quando entrar junho. Encontrei bananas caídas lá no pé do muro, já bicadas pelos passarinhos.

Nessa manhã, porém, não me lembrei do jardim. Botei meus trecos numa sacola e peguei estrada logo cedo, atrasada para os compromissos na capital. Nem meia hora de viagem, os carros todos parados, longo tempo esperando a liberação da pista por conta de um caminhão de gás que tinha tombado ainda no nascer do dia. Desligo o carro e pego um livro. Sem previsão. Leio uma página e percebo o motorista da frente com uma chave de fenda percorrendo seu caminhão. Aperta um botão aqui, balança as correias ali. Observa. Num minuto está debaixo do caminhão, vistoriando. Vai até a cabine, busca outra chave menor que a outra, aperta outro parafuso, tenta chacoalhar o caminhão. Corre de novo e volta com uma lata de óleo, borrifa com o spray alguma coisa que não consigo ver. Observa. Procura. Sem pressa. Com cuidado.

Com o livro já esquecido no colo, me lembro do meu jardim. Que ficou sem água esta manhã. Ficou sem cuidado. Enquanto o caminhoneiro voltava olhos carinhosos para correias e parafusos, eu pensava que tinha esquecido mais uma vez de dar atenção para aquilo que tinha importância. Penso nos olhos de meu pai, pego minha agenda, organizo os compromissos e procuro voltar pra casa o quanto antes. Liberam a estrada e sigo viagem ainda com a imagem do caminhoneiro na cabeça, misturada às folhas e flores do jardim que tenho em casa.