Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Algumas receitas de Minas

Canção para moça envergonhada

O que você esconde por trás destes seus óculos, menina? Vergonha de moça? Impressão de cansaço? Por que em todas as fotos que vejo não encontro seus olhos, menina? Há sempre uma lente escura que te escurece, um vidro temperado a te colocar bem depois do infinito.

Tira esses seus óculos, menina. Me deixa entrar em seus olhos, me deixa ver suas mágoas, o olhar triste, a ruga que desde já te acompanha. Me deixa perseguir seu olhar, menina, perceber onde seus olhos pousam, saber o que, no fundo, te chama atenção.

É sempre assim, menina, eu te olho e não sei para onde vão seus olhos. Nem sei se você ri, se chora. Não sei nada de você, menina. Seria melhor se esconder na maquiagem, no perfume, na dança de qualquer movimento. Mas não, menina, são sempre os mesmos óculos, óculos escuros, pretos, duros.

Tira esses óculos, menina. Me deixa entrar na sua vida, descobrir o seu sorriso, fincar em seu rosto mais uma história. Tira esses óculos, menina. Vem ver a vida sem instrumento. Vem ficar do meu lado e deixa eu pegar sua mão e perceber o que brilha no seu olhar. Deixa eu te ver, menina. Deixa eu te ver.

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Um livro de receitas

Há dias em que se deve prestar bastante atenção aos sinais que nos avisam de é que perigoso se aproximar da cozinha. Certamente esses são os dias em que é mais difícil abrir a alma, se doar para alguma coisa. E cozinhar sem entrega é errar a receita, sempre. Para cozinhar é preciso desejar alimentar a si e a alguém. É preciso, antes de mais nada, desejar servir.

Às vezes, no entanto, é tempo de sentar à mesa à espera de que nos sirvam, como moça mimada, que em seus paparicos ainda assim reclama do detalhe que não saiu bem ao gosto. Nesses dias não adianta tentar. A mesma panela de sempre sobre o mesmo fogão de sempre vai, sem dúvida, queimar o arroz cotidiano. E depois do arroz vem o omelete grudado no fundo da frigideira – o omelete de sempre, no fogão de sempre. É tempo de sentar e apenas esperar. Esperar o amor do outro. Esperar a entrega do outro.

E talvez o olhar do outro possa, de alguma maneira, nos salvar dessa sede de receber, no lugar de oferecer algo. Há dias em que nossa alma resiste a entregar qualquer amor, qualquer que seja. E a cozinha escancara essa recusa, revela esse cenário que amanheceu árido, seco, duvidoso: ela tem alma feminina, pressente ao longe o interesse vil, a vontade feroz de apenas matar a fome no lugar de um desejo singelo de entrega e serviço.

Não adianta continuar tentando. Todos os utensílios parecem se voltar contra este que se tornou um intruso em lugar sagrado. Nem mesmo o livro de receitas com capa de couro vai ser capaz de desfazer o feitiço. É preciso saber perder. É preciso saber esperar.

E se ninguém aparecer, e se o outro não vier, se uma outra entrega não acontecer, não é de bom tom viver à mingua e passar fome. Mas é preciso olhar para si e reconhecer que este não é dia de entrega, que existe antes uma carência, uma ausência, e é grave o sentimento daquele que respeita, em silêncio, este vazio. Talvez amanhã o dia amanheça mais claro, e os sinais sugiram que é dia de entrega, e que não apenas a cozinha, mas um pedaço maior do universo espera com doçura todas as suas gentilezas.