Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de crescimento

Lições para uma leonina

Entro em uma floricultura à procura de cerejeiras. A mocinha que me atende me oferece a maior muda da loja. Não, ela não cabe no carro. Quando explico a ela que preciso de uma muda menor, a mais pequenininha que tiver, ela retruca, generosa, me dizendo que as cerejeiras são flexíveis, elas entortam muito sem quebrar. Enquanto falava fazia peripécias com a sua maior muda, entortando os caules, as folhas, torcendo a plantinha, que não quebrava.

Assim que a mocinha soltava a planta ela voltava ao seu lugar, bonita, vistosa, sem indícios de ter sofrido qualquer tortura. Saí da loja subjugada. Até uma muda de cerejeira é mais flexível que eu. Não que eu não saiba abrir mão das coisas em favor dos outros, não que eu não saiba mudar de opinião quando o argumento contrário me convence. Longe de mim. A flexibilidade das cerejeiras é de outra natureza.

As cerejeiras suportam bem o vento: mesmo com uma estrutura frágil, com troncos finos, não quebram. Quando ainda mudas, seus galhos crescem mais do que o tronco, e ficam então curvados aguardando um outro amadurecimento. Enquanto esperam, eles abraçam o tronco que resiste ao crescimento.

Enquanto minha personalidade difícil muitas vezes aponta para a capacidade de mudar de opinião como algo desejável, as cerejeiras me mostram a possibilidade de me curvar e abraçar aquilo que ainda é fraco e frágil em mim mesma, em um esforço de acolher aquilo que ainda não está maduro, apesar das diversas conquistas parecerem apontar o contrário.

Ao olhar para as cerejeiras percebo que mais do que abrir mão do que penso ou desejo em favor dos outros, é preciso suportar a dor, permanecer presente mesmo quando o outro me machuca. O problema é que ainda tenho o coração muito duro e não sei lidar com as mágoas. Diferente das cerejeiras, meus galhos quebram facilmente quando são forçados.

A flexibilidade das cerejeiras é um dom de ser generosa consigo mesma, e para aprender a lição preciso acompanhar o seu crescimento desde o primeiro envergar das folhas. Volto então à loja e peço à vendedora a menor muda que ela tiver. Quando chegarem outras mudas, me avise, preciso de mais.

Conselhos para menina

Abre o peito, menina! Abre bem o peito que é com o peito aberto que se lida com a vida! Esconde esse seu medo de menina, essa sua timidez. Levanta esses seus olhos baixos, e acima de tudo, ama. Ama sem medo.

Você ainda se lembra de quando o mocinho mais bonito da escola paquerava a sua melhor amiga. Ainda se lembra de quando esperava uma carta e ela não chegava. Você ainda se lembra da alegria que passava ao largo, da festa no interior da vitrine, dos seus passos solitários na calçada. Você ainda se lembra do segredo que sua melhor amiga não te contou. Ainda se lembra do resultado daquele concurso, em que você fazia parte do pequeno grupo não selecionado.

Abre o peito, menina! Não pense que essas lembranças são suficientes, que outras mais não virão. Pessoas queridas irão embora. Você perderá dinheiro e sentirá, talvez, a dignidade te escapando. Perderá ainda a beleza. Um dia já não será jovem mais. Não desanime, não se entristeça. Mesmo que a dor não te faça em nada melhor.

Abre o peito. Espera. Ama. Ama com o coração simples aqueles que te agradam. Ama. Mesmo que eles não te respondam, mesmo que eles não se interessem. Ama e espera. Porque é com o peito aberto que se reconhece a beleza do mundo, e só com paciência será possível perceber a pequena folha crescendo naquela haste seca – quase morta. Seus cuidados não foram em vão. Espera.

Por isso, menina, abre o peito! Não tenha medo da dor, não tenha medo da espera, ama com o coração aberto. O mundo há de perceber o seu amor, e há de te recompensar. Não se envergonhe da sua tristeza, nem do seu amor. E principalmente, não se envergonhe da sua alegria. Ela é folha que cresce enquanto você cuida de hastes aparentemente estéreis. Abre o peito, menina, e ama. Ama sempre.

Uma medida para o amor

As mudas eram muito pequenininhas, eram delicadas. Assim que cheguei em casa corri para o quintal. Arranquei tudo quanto era trevo de três folhas – os de quatro nunca aparecem na minha horta – preparei a terra, afofei, coloquei esterco, peguei um punhado de folhas secas que tinha rastelado do jardim outro dia, misturei na terra e deixei tudo prontinho para receber as novas mudinhas. Com um cuidado milimétrico tirei cada uma delas da sementeira e coloquei no seu novo pedaço de terra, terra boa e toda rica em minerais.

Dava gosto de ver, elas ali, quase viçosas ainda, esperando o dia de amanhã: mais esterco, mais água, mais vida para a suas vidinhas tão miúdas. Restava agora aguar um pouco, e aguar seria o início de uma caminhada ao lado daquelas mudinhas: eu faria isso por dias e dias seguidos, até que elas se tornassem fortes, tivessem folhas crescidas, dessem flores e depois seus pequenos frutos. Só depois de todo esse processo é que talvez elas se cansassem e se encolhessem de novo, pedindo então para voltar para a terra, se tornando adubo para outras flores e frutos que viriam. Até lá, eu iria aguar aquelas plantas todos os dias, até a o fim dos seus séculos.

Restava então aguar. E foi então que se deu a sequência de erros. Tudo o que elas precisavam era água, mas eu não soube dar a elas a quantidade necessária. Com o meu regador enorme eu era um elefante pisando folhas miúdas. A água escorria como uma tempestade, caía aos cântaros sobre as minhas mudinhas, subjugava cada uma delas, e elas se curvavam, rastejavam, imploravam pelo fim daquele ritual autoritário e cruel.

Passei a aguar as plantas dia-sim-dia-não. Quando aguava, evitava despejar aquela torrente sobre as mudas, preferia agoar a terra, deixar seu entorno todo molhado, para que assim, quando quisessem, elas desfrutassem da saciedade que precisavam. Percebi que as plantas são meninas ainda assustadas com a possibilidade do amor, e que ele não deve ser despejado como uma tempestade, mas sim sorvido aos poucos, para que possa ser absorvido por cada partezinha do seu ser, sem desperdiçar uma única gota. Assim talvez elas cresçam, bonitas como eu gostaria que fossem.