Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de flores

À espera

É preciso arrumar a casa. Por isso ontem comprei cravos e coloquei num vaso no centro da sala. Por isso arranquei os matos e ervas daninhas que empesteam a horta, separei as hastes ainda fortes da cebolinha, cortei as flores do manjericão. Por isso voltei a jogar quantidades de água generosas sobre todos os vasos da casa. Por isso vieram técnicos, pintores, eletricistas, jardineiros. Por isso joguei fora coisas antigas, coisas velhas, coisas inúteis. Tudo isso porque é preciso arrumar a casa.

E é preciso arrumá-la porque esperamos visitas. Para ser mais exata com as palavras, esperamos uma visita em especial, dessas que chegam com ares de boas vindas e vão ficando, ficando, se tornam moradoras e se alojam nos quartos e nas entranhas da casa e de seus antigos moradores. Dessas que trazem consigo uma ventania, mudam a rotina, impõem silêncios, exigem atenção.

É por ela que é preciso arrumar a casa. É por ela os cravos no centro da sala. É por ela os armários agora vazios, cheios de espaços para serem preenchidos por uma nova vida, por uma nova história. É por ela que ampliamos os nossos horizontes antes estreitos, é por ela que renovamos uma esperança no presente. É por ela que relembramos os mortos e celebramos uma vida prenha de promessas.

E como toda visita, essa também chega em momento inoportuno, sem aviso exato, nem data nem hora marcada. Talvez se tenha que deixar o copo sujo no meio da pia, um texto por terminar, uma lembrança por cerzir. Há tanto o que fazer que é certo que não dará tempo. Provas a serem corrigidas, artigos elaborados, projetos definidos. A espera por essa visita se faz presente. A qualquer momento. E vamos entendendo que é assim que esse tipo de visita chega. A qualquer momento. E vamos entendendo que o copo envolto de sabão e não ensaboado se tornará a tônica da vida daqui para frente, que sempre restará uma prova não corrigida no final do pacote sobre a mesa, que esqueceremos a consulta médica marcada para às três da tarde.

E aprenderemos, então, que a água é mais importante que o copo que a recolhe, que o ensinamento vale mais que a correção, que a vida é o que sobrevive na memória, e que as flores nos ensinam a esperar com alegria por aqueles que estão por chegar. Por isso a casa arrumada, quase toda arrumada. Por isso os cravos. Por isso os espaços abertos. Tudo isso para encher de alegria os momentos de espera. A espera pela visita que está para chegar.

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Pelo direito a um vasinho de manjericão

Ouvi dizer que o mundo anda meio esquisito. Parece que alguns governantes governam em causa própria, que a TV divulga em causa própria, que a polícia, bem, que a polícia também policia em causa própria. E as notícias de descalabros povoam os meios de comunicação, a internet, as conversas. Eu sigo em silêncio.

No entardecer, esse mundo estranho banha meu quintal de um amarelo dourado, a água que joguei agorinha sobre as flores faz subir cheiro de terra, o apito da panela de pressão traz perfume de feijão que me lembra momentos de infância. Com o coração ainda amarelado procuro por notícias deste mundo e fico desanimada.

É preciso dizer que me importo muito pouco com as últimas decisões tomadas pela presidenta. Ouvi dizer que ela anda fazendo uma limpa, demitindo ministros, fazendo inimigos. Não sei. Sei que ouvi o seu discurso de ano novo na TV e fiquei emocionada. Eu só posso admirar alguém que faz do cuidado da nação a sua vida, que seja por quatro anos, e mesmo que os ganhos sejam enormes. Não sei. Eu admiro.

Ao contrário do que penso sobre as decisões da presidenta, eu me importo com os desabrigados pelas chuvas ou pela polícia. Meu coração não bate leve quando ouço sobre aqueles que perderam suas casas. É preciso ter uma casa e é preciso poder viver em paz. É preciso ter um cadinho de terra, plantar qualquer coisinha, mesmo que seja um vaso de manjericão.

O cuidado com a terra nos ajuda a perceber o quanto precisamos cuidar dos outros, para que esse outro possa florecer, crescer, dar frutos  ou flores, ser quem ele deve ser. É necessário perceber que o outro precisa da gente, que se esquecermos de dar água e atenção bem que ele pode morrer.

Frente aos descalabros deste mundo estranho, meu coração pede que eu levante uma única bandeira: pelo direito de que todos possam ter um vaso de terra em casa, e que se plante nele alguma coisa, e que se cuide do que plantou, para que assim todos possam entender que o mundo só sobrevive se cuidarmos dele, e se cuidarmos, ele pode sim ser muito bonito.

Antes da primavera

Eu ainda trazia os restos de uma conversa difícil quando entrei na garagem. E foi enquanto opiniões severas sobre meus últimos escritos ainda ressoavam em minha cabeça que percebi os rastros de meu pai em minha casa: as flores do jardim foram todas podadas, e só restaram restos de tocos de caules sem nenhuma beleza, sem nenhuma novidade. A desolação dentro do peito parecia refletida em meu jardim.

Desolação que logo virou revolta: passo a mão no telefone e disco depressa o número de meu pai. Ele não tinha o direito de podar todas as flores de uma só vez, deixando meu jardim deserto. E ainda me restava a dúvida se ele havia feito correto, se não tinha passado do ponto, cortando muito mais do que deveria, comprometendo assim toda a vida das minhas plantas.

O telefone chamou, chamou. Não atendeu. Volto para o jardim, me sento ao lado dos caules carecas e choro com eles nosso espaço desolado. Meu pai com o tesourão. Meus textos rabiscados de vermelho por um especialista. O jardim quase deserto. Meu coração quase vazio. A revolta se desfazendo em choro, os rasbiscos em meus textos se desfazendo no jardim, o choro se desfazendo no vento.

De súbito me levanto, busco o velho regador e me coloco a aguar todas as plantas, saciando a sede que era delas, que era minha. Nada se altera, apesar da água. As flores não estão mais ali, tudo é deserto, tudo é ausência de esperança.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito perto de mim. Enquanto me quedo esquecida de meu pai, esquecida dos rabiscos vermelhos, esquecida dos meus escritos, algo acontece no jardim. Dias depois percebo uma haste – tenra, pequenina – se arriscando para além do caule que ficou seco. Em todas as plantas que foram violentamente podadas era possível perceber um anúnico de vida. Vida que renascia, apesar da insegurança, apesar da fragilidade, apesar da incerteza.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito dentro de mim. Enquanto me quedo esquecida no meu jardim, esquecida em meio a tantas novidades e hastes novas e folhas hesitantes e perfumes ainda frágeis, percebo uma fisga de esperança. Não penso mais em brigar com meu pai. Não julgo mais aqueles que rabiscaram meus escritos. A primavera se aproxima, as flores começam a brotar mais uma vez. Meu coração, imagem refletida do jardim, começa a palpitar forte novamente. É hora de voltar a escrever.

Flores atrasadas

Tive que sair correndo essa manhã, não consegui dar uma olhadinha nas plantas que crescem no meu jardim, como faço todos os dias assim que acordo. Não foi sempre assim. Por semanas a horta ficou sem água, as folhas amarelando, o pé de rúcula morrendo. Enquanto eu ainda tentava encontrar um lugar para tudo aquilo que tinha vindo encaixotado da mudança, a horta que meu pai deixou no fundo do quintal ia secando, morrendo devagarinho.

Um dia dei por mim, corri atrás da casa e percebi os olhos de meu pai me olhando por entre folhas amareladas, hastes caídas, terra ressecada. Não que seus olhos me recriminassem, mas aquele jardim me lembrava que nada se produz sem cuidado, sem carinho, sem atenção. E eu, que me acostumei a ver aquele quintal sempre limpo, cuidado, viçoso, me dei conta de que ele não era assim simplesmente: ele era assim por conta dos olhos de meu pai.

Foi então que passei a observar diariamente as flores, as folhagens, o pé de café, o pé de pitanga, os pés de rúcula, o pé de tomate cereja, a pimenta dedo-de-moça. Percebi que as flores de maio estão um pouco atrasadas, e vão florescer de vez daqui a pouco, quando entrar junho. Encontrei bananas caídas lá no pé do muro, já bicadas pelos passarinhos.

Nessa manhã, porém, não me lembrei do jardim. Botei meus trecos numa sacola e peguei estrada logo cedo, atrasada para os compromissos na capital. Nem meia hora de viagem, os carros todos parados, longo tempo esperando a liberação da pista por conta de um caminhão de gás que tinha tombado ainda no nascer do dia. Desligo o carro e pego um livro. Sem previsão. Leio uma página e percebo o motorista da frente com uma chave de fenda percorrendo seu caminhão. Aperta um botão aqui, balança as correias ali. Observa. Num minuto está debaixo do caminhão, vistoriando. Vai até a cabine, busca outra chave menor que a outra, aperta outro parafuso, tenta chacoalhar o caminhão. Corre de novo e volta com uma lata de óleo, borrifa com o spray alguma coisa que não consigo ver. Observa. Procura. Sem pressa. Com cuidado.

Com o livro já esquecido no colo, me lembro do meu jardim. Que ficou sem água esta manhã. Ficou sem cuidado. Enquanto o caminhoneiro voltava olhos carinhosos para correias e parafusos, eu pensava que tinha esquecido mais uma vez de dar atenção para aquilo que tinha importância. Penso nos olhos de meu pai, pego minha agenda, organizo os compromissos e procuro voltar pra casa o quanto antes. Liberam a estrada e sigo viagem ainda com a imagem do caminhoneiro na cabeça, misturada às folhas e flores do jardim que tenho em casa.