Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Pessoas que a gente encontra por aí

Chaves e portões

Eu já havia colocado as sacolas do supermercado todas no chão. Todas porque eram em número de cinco. Com elas em meu braço não conseguia mexer na bolsa e encontrar a chave. O portão na minha frente. Fechado. Parado. Foi quando comecei a deitar no chão, ao lado das sacolas, um por um, os itens de minha bolsa. O portão fechado. O portão parado. Alguém se aproxima, com uma chave abre o portão, me ajuda com as sacolas, e volta para o seu carro, ali, estacionado do lado de fora da garagem, carro já pronto para ir para a rua, enquanto a porta se abria para eu entrar para dentro. Olho para meu vizinho agradecida, ele diz que não é nada, corre para seu carro e se vai. E ontem mesmo eu o odiava, porque é meu vizinho e porque pensa diferente de mim.

Festa de aniversário

Numa roda de amigos, uma mulher que não estava presente foi elogiada por ter, no seu rol de conhecidos, pessoas muito importantes. Se semelhante atrai semelhante, a conta, então, fechava exata: tal mulher só poderia ser ela também alguém capaz de influenciar nas decisões que afetam a vida de milhares de pessoas. Digna, portanto, dos elogios que recebia sem saber.

Enquanto discursavam sobre os conhecidos desta mulher, lembrei que no meu último aniversário ninguém importante escreveu para me dar os parabéns. Ninguém com influência na política, nenhum líder de instituição importante, nem a gerente do banco, que não guarda informações pessoais de clientes tão sem importância como eu.

Lembrei de um tempo em que sim, em que era comum eu conhecer pessoas de renome, que saíam nos jornais, assinavam colunas, escreviam livros e discursavam sobre a realidade do país com autoridade reconhecida por todos que os ouviam. Não me lembro bem, talvez eles me desejassem felicidades. Não me lembro.

Agora, as felicidades vêm de pessoas tão sem importância quanto eu. Alunos que não sei filhos de quem são. Gente que colhe morangos enquanto o sol está no alto e colhe leituras quando é preciso acender a luz. Gente que erra nas palavras. Gente que crê em Deus. Gente que se desespera com as contas no final do mês. Gente que sonha com dias melhores. Gente que planeja ter um bom emprego quando chegar aos 40. Gente sem nenhum influência.

Às vezes me pego com um ponta de inveja dos elogios oferecidos àquela mulher: quisera eu ter importância, conhecer gente influente, ter algum poder. Ser reconhecida por muitos, discursar verdades, não temer jamais a solidão. Não, aquela mulher não é fútil. Nem posso dizer que suas amizades não são verdadeiras. Só posso admitir que a distância entre aquela mulher, as suas amizades e a minha realidade me mostram que deve haver espaço, nas nossas agendas pessoais, para todo tipo de gente, mesmo que nos falte recursos, financeiros e sociais,  para comemorações com inúmeros convidados.

Me alegro, então, com todos os desejos de feliz aniversário. Gente como eu, que deseja felicidades. Gente que comemora. Gente que se alegra e sofre. Gente que sonha. Gente que faz aniversário.

Uma lição de generosidade

Era um almoço de família, me lembro bem: todos os primos e tios e avós disputavam lugares à mesa. A mesa, apesar de grande, não abrigava a todos, nem o avarandado cobria todo mundo. Cada mãe, então, aninhava seus filhos ao redor, garantindo a eles lugar e comida. Minha mãe não. Ela chamou a mim e a meu irmão no canto, abaixou-se para nos falar olhando nos olhos e nos disse que nós – ela, meu irmão, meu pai e eu – iríamos comer na cozinha.

Enquanto meus primos se divertiam na varanda, sentados à mesa grande, protegidos pelas asas largas de suas mães, meu irmão e eu comíamos na cozinha, escondidos, separados, muito mais perto dos empregados. Meu coração de criança não entendia, se enraivecia – afinal, por que também eu não merecia um lugar à mesa da família?

Olho para minha filha que ainda nem fala angu, dadá, papá, e me vejo rodeando seus lugares, sonhando sonhos grandiosos para ela, desejando que ela seja isso ou aquilo, isso ou aquilo outro. Me percebo ajuntando dinheiro, fazendo poupança para garantir seus estudos lá na frente. E de soslaio me vem, então, a lembrança daquele almoço, da minha família na cozinha, dos meus primos na varanda, do meu coração de criança. Minha mãe, apesar da minha revolta, nos ensinando, a mim e a meu irmão, a sairmos do centro das atenções, nos convidando para viver, um pouco que seja, à sombra. Nos ensinando a ceder, a esperar, a nos afastar.

E hoje, ao olhar para minha filha, percebo que o que mais desejo a ela é um coração cheio de generosidade. Generosidade consigo e com os outros. Desejo que ela seja paciente com a distância que vai, sem dúvida vai, separar a realidade de seus sonhos. Desejo que ela seja generosa com os que erram muito e com os que erram pouco. Desejo que ela seja grande para aceitar a pequenez que lhe assombra diariamente. E em meio a esse desejo ridiculamente ambicioso, me lembro de minha mãe, me lembro da cozinha e de meus primos na varanda à mesa grande. Só uma pessoa com a grandeza de caráter de minha mãe é capaz de esconder seus filhos e, à sombra, lhes contar os segredos mais preciosos da existência humana. Só alguém que sabe, sem titubear, que seu amor é suficiente, é capaz de oferecer menos aos filhos, na certeza de que o menos é mais. Só alguém com profundo conhecimento do valor de si e do valor do outro é capaz de pedir aos filhos que sejam generosos, e cedam seus lugares de domingo, e amem aos outros, fazendo a eles o que se faria a si mesmo.

Esse almoço de domingo em família grudou na alma muito mais que as máximas ouvidas na escola e na igreja. Porque generosidade não se aprende nos livros, nas rezas, nos presentes. Generosidade não se cria ao simplesmente recebê-la. A generosidade se aprende ao sermos desafiados a doar aos outros aquilo que amamos com a nossa alma. E percebemos, depois do vazio inicial, que estamos ainda mais completos, ainda mais aquecidos que antes. E se a lição não se transmite, mas se vivencia, desejo então que, como minha mãe, seja eu capaz de oferecer a mão a minha filha, e vivermos juntas o desafio de dar aos outros mais ainda que aquilo que desejamos à nós mesmas.

À porta do céu

Geraldo nasceu numa família humilde, era mais um no meio de um tanto de irmãos. Os pais lavradores, a mãe insistiu para que todos frequentassem escola. Geraldo foi o único que se formou no ensino superior. Lutou muito, mostrou valentia frente aos tapas que levava na vida. Conseguiu bom emprego, aprendeu a lidar com o dinheiro que ganhava, poupava, investia, crescia. Comprou casa, comprou carro, trocou de carro, casou, teve filhos, viajou pro estrangeiro.

Os filhos de Geraldo não viveram a mesma sina do pai. Nasceram em lar com fartura. Frequentavam restaurantes todos os finais de semana. Tomavam sorvete. Iam à praia duas vezes por ano. Estudaram em colégios caros, receberam ótima educação. Ganharam carro, ganharam casa.

De Geraldo dizem que foi batalhador, que tudo o que tinha foi construído pelo suor de seu rosto. De seus filhos não dizem o mesmo. Com desdém, ouve-se à boca miúda que tudo o que têm foi o pai que deu. Se não fosse o pai não teriam casa, não teriam carro, não teriam estudo. Os mais maldosos afirmam que se estes, os filhos, tivessem vivido a sorte do pai, certamente não teriam construído nada, e seriam como seus tios, um bando de zé ninguém.

O que não se sabe, no entanto, é que todas noites Geraldo faz suas orações ao seu Deus, e pede a Ele que abençõe seus filhos, que esse Deus conceda a eles tudo o que concedeu a ele próprio, que retribua a fidelidade que ele, Geraldo, tem lhe devotado, garantindo aos filhos fartura e saúde. Pede ainda que Deus tenha paciência com o espírito fraco dos filhos, que os ajude a serem mais firmes na bondade e no amor. E o Deus de Geraldo, que não olha para as pessoas como nós olhamos, responde a ele, dá aos filhos o dobro do que Geraldo lhe pede, e abençoa toda a família, já que a espera, de braços abertos, num céu em que São Pedro não cobra carteira de identidade nem certidão de débito na entrada do Paraíso. É a família de Geraldo, inteirinha, que será recebida com gozo e festa num céu marcado por um espírito coletivo. Enquanto isso aqueles que diziam coisas pequenas à boca pequena, lutam sozinhos por dinheiro, felicidade e salvação.

De presentes e parábolas

Há muitos e muitos anos, viveu um homem que dizia coisas enigmáticas. Um, porque no lugar de falar claramente, ele contava estórias. Dois, porque a moral da estória que contava era tão enigmática quanto à própria estória. De tão enigmático o que dizia, aquilo ficava na mente. E a gente ficava matutando, matutando. E às vezes, assim, andando na rua, chutando uma pedra, eis que uma ou outra coisa faziam sentido.

Dia desses aconteceu isso, isso de uma coisa enigmática que esse senhor dizia fazer sentido. Ele falava para as pessoas que estavam perto dele que quando fizessem o bem a alguém, ninguém deveria ficar sabendo. Mas ele falava assim: “não deixe que sua mão esquerda saiba o bem que sua mão direta fez”. Enigmático por demais. Não deixar que os outros saibam é uma coisa. Mas e as mãos que, certamente, fizeram trabalho conjunto? Só um maneta é capaz de esconder algo de uma das mãos, pelo simples fato de uma delas não existir.

Pois ontem eu ganhei um presente. Presente mesmo: com embrulho, laço de fita e dizeres singelos me desejando felicidades com o bebê que está quase a nascer. Quem me deu o presente foi uma aluna, uma aluna entre setenta de uma sala que acabei de conhecer. Não sei o seu nome. Nunca a cumprimentei. Antes que eu a agradecesse ela escapou, foi embora, não me deixou dizer nada. É claro que irei encontrá-la nas próximas semanas, vou procurar por ela, dizer que gostei muito do presente e que fiquei tocada com o seu cuidado. Perguntarei seu nome, guardarei este nome na gaveta, passarei a cumprimentá-la com um sorriso todas as vezes que trombar com ela pela faculdade.

Mas se por algum motivo ela abandonar o curso hoje, véspera de prova, véspera de desespero para todos os alunos, eu nunca mais saberei quem me ofertou aquele cuidado singelo de quem esconde o próprio fato de cuidar. Não saberei e não terei como agradecer, não poderei lembrar seu nome, sorrir para ela, oferecer algo, pequeno que seja, em troca de seu gesto grandioso.

Por que dar um presente a quem nunca te deu nada? Ou foi ela ou fui eu que ouvimos demais as estórias daquele homem que viveu há muitos e muitos anos e dizia coisas enigmáticas. Ela, ao me oferecer um presente sem me dar a chance de agradecer ou ao menos saber seu nome, eu, no meu desejo de entender o que não se há para entender. Eu, mão esquerda, querendo agradecer o bem que a mão direita fez. Mas a mão direita nem existe, ela já bateu asas, foi embora, me deixou sozinha, pensando numa bondade que só existe na prática, e não no pensamento. Pensamento ao qual me apego e por isso me afasto cada vez mais das estórias simples que contava aquele homem enigmático que viveu há muitos e muitos anos atrás.

O barulho do café

Como invejo aqueles que precisam de tão pouco para falarem de si. Basta encontrá-los num café, de sopetão, perguntar como vão, e quando nos damos conta, a pessoa já nos contou seus segredos mais íntimos: da desavença com o chefe à falta que sente do carinho do marido, da doença degenerativa da mãe aos problemas que o filho vem enfrentando na escola.

De tudo, o que mais me inveja, é a capacidade de falar de si sem se importar se o outro está de fato ouvindo. Enquanto a pessoa fala, fala, fala, nós disfarçamos, procuramos algo na bolsa, encontramos o celular, enviamos uma mensagem dizendo que encontramos uma “amiga” e vamos demorar um pouco. A pessoa não nota. Ela fala. Está tão ocupada em falar de si que não percebe a nossa falta de atenção, a nossa falta de interesse. Aproveitamos o estrondo da máquina de café, pedimos desculpas e saímos, dizendo que estamos atrasados para uma reunião que na verdade nem existe.

Invejo. Invejo porque minha alma, como a da maioria dos mineiros, é de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitento por cento de ferro nas almas. E meu coração se cala. Sim, eu também tenho problemas com o chefe. Sim, meu coração se dilacera pela ausência de carinho de tantos que eu amo e não me amam de volta. Sim, a doença ronda, ronda, mas não ataca. Eu me calo. A quem dizer tudo isso? Oitenta por cento de ferro nas almas. Se seus olhos não estão todos colados em mim, se há barulho, se o telefone toca, se bate um vento de esquina, como falar daquilo que sinto? Como ter certeza de que você me ouve?

Eu invejo quem fala de si sem se importar se existem ouvidos atentos para acolherem um resto de confissão. São pessoas que falam para si, capazes de conversar sozinhas por um longo tempo e ainda assim se sentirem acompanhadas. Eu não. Eu me calo. Eu me desacostumo. Eu desaprendo a linguagem. Eu mudo de assunto. Eu me esqueço quem sou. Muito ferro na alma. Mania de mineiro, de viver acabrunhado, quieto, calado, que de tanto matutar, esquece de dividir e compartilhar os restos de sofrimento.

Por isso invejo a amiga do café, na sua inocência de compartilhamento, no seu desejo sincero e não correspondido de também ser acolhida. Ela finge. Ela sabe fingir um acolhimento. Eu, mineira, ainda preciso aprender.