Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Fevereiro, 2012

A chuva molhou meu queijo

Chovia muito durante a tarde. Corri para fechar as janelas e vi que tinha esquecido um queijo descoberto na pia da cozinha. O vitral sobre a pia também estava aberto. A chuva molhou o meu queijo. Olhei para o queijo molhado, e enquanto tentava secá-lo e guardá-lo rapidamente, pensei na frase “a chuva molhou o meu queijo” e me lembrei de um certo livro que me parece que vendeu horrores, com o nome parecido “Quem mexeu no meu queijo?”.

Sucesso de vendas. Vi uma tia comprando o livro para seus sobrinhos adolescentes. Ouvi alguém dizendo que se tratava de um livro de autoajuda para negócios. De tudo, só não ouvi rumores de que era uma peça de teatro. Eu não sei dizer. Não li o livro. Não peguei o livro na mão, não folhei suas páginas. Não faço ideia do que se trate.

Mas minha recusa não termina por aí. Também não assisti à Paixão de Cristo, não sei qual é a trama do Harry Porter, não conheço o Avatar e desconheço seu significado. Na minha lista de não-lidos e não-assistidos o pior dos crimes parece ter sido não assistir à trilogia do Matrix. Pronto, falei.

Não. Não termina por aí. Há anos atrás eu assistia a uma aula na Escola de Comunicação e Artes da USP, junto com a turma de comunicação, e o assunto era a repercussão internacional sobre os hábitos etílicos do presidente Lula. Eu virei para a minha colega do lado, discretamente, e perguntei: “o que aconteceu com o Lula?”. É evidente que ela se ofendeu, e antes de me contar, indignada, o caso do jornalista que havia dito que o Lula era um pinguço, me repreendeu seriamente por ser tão desligada.

Para terminar, na última feira do livro que aconteceu na USP, onde havia um número incrível de editoras vendendo tudo pela metade do preço, com um número mais incrível de pessoas ávidas comprando e comprando e comprando todos os tipos de livro, eu parei na banca da Biruta. E parei porque a ilustração de um livro infantil, com uma menina com um nariz enorme e as bochechas completamente vermelhas, me chamou a atenção. Evidente que a ilustração me chamou atenção porque a banca estava vazia, e era possível ver tranquilamente todos os livros em exposição. Parei e ali fiquei. Enquanto folheava alguns dos livros, seus vendedores me contavam estórias e estórias infantis, seus olhos brilhavam, e eu no intuito de possuir aquele brilho no olhar, comprei quase a banca inteira.

Não passei na banca que vendia livros de antropologia – minha área de pesquisa. Nem quis visitar o espaço onde se encontrava a Companhia das Letras: tudo estava muito cheio. Corri para casa para devorar meus livros novos e a cada livro eu ia descobrindo um novo segredo. Quando me viram saindo com a sacola da Biruta, perguntaram se eu estava planejando ter filhos e por isso já estava equipando sua pequena biblioteca. Talvez.

As notícias cotidianas não me contam segredos, apenas me dão repertório para conversar com os adultos. Sem dúvida alguma Avatar, 300, Matrix e outras grandes produções falam muito sobre a nossa época e podem até ensinar alguma coisa a alguém. Assim como ler o jornal. Mas ainda prefiro os segredos dos livros infantis, seus castelos cheios de mistérios, a conversa entre a dona baratinha e o seu baratão. E quando penso de novo na frase “a chuva molhou o meu queijo” já me embrenho por possíveis estórias de ratinhos bêbados, terras distantes onde a chuva lava a louça e tudo o que há perto dela, queijos milagrosos que curam dor de barriga, dor de cotovelo e dor de amor. E nisso, sem dúvidas, há muito pouco espaço para o que acontece com o presidente da república. Sinto muito.

Crônica premiada no concurso Literacidade.

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Abraços grátis

Tenho inveja das pessoas que sorriem com facilidade. Tenho inveja também daquelas que são generosas por si mesmas. No tumulto de uma praça no centro da cidade avisto um menino gordinho, quase não adolescente mais, com uma placa no pescoço. Ele não oferecia vagas por uma hora em algum subsolo. Nem comprava ouro, nem vendia atestado médico. Ele oferecia abraços grátis. E sorria.

É certo que seria no mínimo duvidoso uma placa no sentido contrário: “Abraços por apenas 1 real!”. Abraço não se vende, pelo menos não explicitamente. Há quem venda carinho com o nome de sexo, há quem ofereça companhia a preço de uma diária, há ainda quem se faça de amigo, parceiro ou sobrinho querido para conseguir algum bem monetário.

Mas é certo que abraços não se vendem. Assim como é certo que não se oferecem abraços a  estranhos. Logo, o gordinho ali, no meio daquela praça, se parecia mais com um engano, um engodo, um erro de interpretação.

O problema é que ele sorria, e assim como os abraços que oferecia, seu sorriso também era gratuito. Poucas pessoas tinham coragem de se apropriar daquela oferta de abraço, desconfiadas, sem dúvida, do seu teor subversivo – quem garante que aquele não era, na verdade, um pivete a se aproveitar do momento derradeiro do abraço para se apropriar da carteira esquecida no bolso de um sujeito carente?

Se poucos se fartavam da oferta singela do rapaz, muitos, ao contrário, sorriam ao perceber no meio da praça oferta tão singela, acompanhada de um sorriso anda mais gratuito do que os abraços da propaganda. Rostos preocupados momentaneamente transformados pela generosidade de um menino que ainda iria conhecer muita cara feia na vida.

Tive inveja do gordinho. Queria eu distribuir sorrisos, andar mais leve pela rua, ter o semblante menos preocupado, perceber mais o dia. Queria eu ter a generosidade de oferecer abraços sem cobrar nada em troca. Simples como um abraço grátis.

A maior surpresa

É preciso tomar cuidado. Se não, a parcela atrasa e os juros são enormes. Se não, o prazo vence e as vagas encerram. Se não, outro vem e toma o seu emprego. Se não, seduzem a sua mulher e a levam embora.

É preciso estar sempre atento. Se não, a balança aponta ganhos no peso. Se não, o frango fica esturricado no forno. Se não, as frutas se perdem na geladeira. Se não, o iogurte vence e te dá caganeira.

É preciso olhar sempre nos olhos. Se não, os sonhos se perdem. Se não, a palavra fica pela metade. Se não, o sorriso deixa de aparecer no rosto. Se não, não se percebe mais o embargo na voz, que faz que chora mas não chora.

É preciso estar sempre por perto. Se não, o cachorro não reconhece o cheiro. Se não, as flores morrem de tanto sol. Se não, os olhares não comunicam mais. Se não, tem-se o início a dança dos erros.

De tanta coisa que é preciso cuidar, o maior cuidado deve ser sempre consigo mesmo. Cuidado com o limite do corpo, limite da alma, limite do coração. Cuidado com os amores, com os desamores, com as ilusões. Cuidado com os sonhos que se tem pra si e os que se tem para os outros. Cuidado com a casa onde se vive, com os espaços por onde transita, com as pessoas com quem se encontra.

E é preciso ter o maior cuidado para não se perder em si mesmo. Levantar os olhos e perceber o mundo ao nosso redor pode ser sempre uma grande surpresa. Lá fora há folhas e flores e árvores e cachorros e o carteiro trazendo notícias e a vizinha recém operada e o concurso de poesia da cidade e um olhar apenas esperando o nosso para sorrir novamente. E é nesse exato momento em que a gente sente o vento quente do verão batendo no nosso rosto. Essa é a maior surpresa.

 

Panela no fogo

Ele entra pela porta da sala, ela não percebe. Ela prepara algum alimento, e não vê quando ele entra pela cozinha. Ela, distraída, não percebe quando ele a abraça por trás. Ele desamarra o laço do seu avental, escorrega a mão pela sua cintura. Ela tem pensamentos longíquos, não percebe o arrepio que sente quando a mão dele encosta na sua pele. Os lábios dele tocam o pescoço dela, ela larga os alimentos e se volta para ele, sem o ver, sem o perceber. Antes de beijá-lo ainda se lembra de desligar o fogo, para que a casa não se encha de chamas. Não percebe o que arde no olhar dele. Ele tira, uma a uma, as suas peças de roupa, e ela não percebe o quanto deseja. Eles se amam em algum canto da cozinha. Ela se veste e volta aos seus alimentos, e não percebe em si os restos do desejo pelo único homem capaz de lhe fazer sorrir quando se encontra sozinha.

 

Mini conto premiado na segunda edição do concurso Literacidade.