Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Janeiro, 2012

Pelo direito a um vasinho de manjericão

Ouvi dizer que o mundo anda meio esquisito. Parece que alguns governantes governam em causa própria, que a TV divulga em causa própria, que a polícia, bem, que a polícia também policia em causa própria. E as notícias de descalabros povoam os meios de comunicação, a internet, as conversas. Eu sigo em silêncio.

No entardecer, esse mundo estranho banha meu quintal de um amarelo dourado, a água que joguei agorinha sobre as flores faz subir cheiro de terra, o apito da panela de pressão traz perfume de feijão que me lembra momentos de infância. Com o coração ainda amarelado procuro por notícias deste mundo e fico desanimada.

É preciso dizer que me importo muito pouco com as últimas decisões tomadas pela presidenta. Ouvi dizer que ela anda fazendo uma limpa, demitindo ministros, fazendo inimigos. Não sei. Sei que ouvi o seu discurso de ano novo na TV e fiquei emocionada. Eu só posso admirar alguém que faz do cuidado da nação a sua vida, que seja por quatro anos, e mesmo que os ganhos sejam enormes. Não sei. Eu admiro.

Ao contrário do que penso sobre as decisões da presidenta, eu me importo com os desabrigados pelas chuvas ou pela polícia. Meu coração não bate leve quando ouço sobre aqueles que perderam suas casas. É preciso ter uma casa e é preciso poder viver em paz. É preciso ter um cadinho de terra, plantar qualquer coisinha, mesmo que seja um vaso de manjericão.

O cuidado com a terra nos ajuda a perceber o quanto precisamos cuidar dos outros, para que esse outro possa florecer, crescer, dar frutos  ou flores, ser quem ele deve ser. É necessário perceber que o outro precisa da gente, que se esquecermos de dar água e atenção bem que ele pode morrer.

Frente aos descalabros deste mundo estranho, meu coração pede que eu levante uma única bandeira: pelo direito de que todos possam ter um vaso de terra em casa, e que se plante nele alguma coisa, e que se cuide do que plantou, para que assim todos possam entender que o mundo só sobrevive se cuidarmos dele, e se cuidarmos, ele pode sim ser muito bonito.

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O que não merece ser contado

Eu estava numa sala com meus escritos à mão. O professor a minha frente olhava para o texto, indicava suas observações, quando, repentino, olha para mim e indaga, feroz: “O que você costuma ler?”. Diante do meu silêncio, ele reformula: “Quais são os autores que você gosta de ler?”. A Mafalda foi o primeiro nome que me veio à mente. Ainda não terminei a Mafalda da Primeira à Última Tira porque não quero chegar à última tira. Leio aos poucos. Leio aos goles. Ela está sempre no alto da estante, lugar de difícil acesso, para dificultar o vício. Mas seria, no mínimo, subversivo dizer que o que costumo ler é história em quadrinhos.

O segundo nome que me veio à mente foi Lya Luft. Primeiro livro publicado com mais de 40 anos. Ela me ajuda a não ter muita pressa, a valorizar o cuidado, a paciência, a observar o cotidiano e perceber nele algumas relações, pequenas, mas relações. Porém ela também traz uma marca negra: assina uma coluna na Revista Veja, tão mal vista nos meios por onde transito. E fala de banalidades, que às vezes eu desgosto, sugere algumas lições que eu não concordo. Leio. Melhor não citar, no entanto.

Rubem Alves foi o terceiro nome. Nesse momento mapeei furtivamente o rosto do professor à minha frente – docente de Letras Vernáculas – à procura de alguma pista se ele consideraria Rubem Alves como um exemplo de literatura. Se nem passasse pela sua cabeça considerar o tão amável Rubem como escritor, era melhor não citá-lo se eu ainda almejasse futuras consultas ao professor.

Com a ajuda do Rubem Alves me lembrei do outro Rubem, o Braga. Agora sim, pelo Rubem Braga dá para levantar estandarte. Essa figura emblemática que conquistou o que tantos hoje almejam: foi considerado escritor, no sentido literário do termo, sem nunca ter escrito um único romance. Contos e crônicas. Apenas. O Rubem. Disse em voz confiante: gosto de ler o Rubem Braga.

Assim que enuncio meu prazer de leitura, descanso na cadeira. O professor, no entanto, ainda me olha com o mesmo olhar feroz. Não diz nada. Eu entendo que preciso aumentar a lista. Ele espera. Eu hesito. Ninguém mais me vem à cabeça. Que raios eu estive lendo nos últimos anos que não reconheço um único nome de escritor na minha lista imaginária? Passei anos lendo, aos quilos, livros e livros sobre a sociedade. Da mais próxima à mais estranha. Povos africanos, melanésios, nordestinos, suburbanos. Histórias de bandidos, assassinos. Métodos de pesquisa e fórmulas mágicas de como lidar com os números. Números. Nenhum escritor.

Os olhos do professor, no entanto, não pediam explicações. Pediam nomes. Ele queria uma lista, ainda que pequena, mas capaz de traçar os caminhos trilhados para eu chegar no meu estilo, no meu jeito de escrever. A lista era o que daria a ele as explicações que ele gostaria de ter. Mas eu não tinha a lista.

Adélia Prado foi o segundo nome que citei. Não que a tenha lido, mas sei que gosto do seu jeito. Não sei que jeito é, mas me identifico. Escritora também depois dos 40. Mineira. Talvez seja isso. O professor sorriu e eu dei por encerrada a minha lista. Ao unir em um mesmo raciocínio Rubem Braga e Adélia Prado ele pôde traçar o meu perfil literário. Lembrei, por fim, rapidamente, a Clarice. Disse a ele, mas não sei se ela se encaixava na linha lógica Adélia-Rubem.

Findada a conversa, deixei a sala desanimada. Que tipo de escritora eu desejo ser se nem mesmo sou capaz de citar dois ou três escritores importantes? Onde coloquei aquela velha lista de livros a serem lidos nos próximos três anos? Quais são mesmo esses livros? Onde eu estava quando escritores renomados ganhavam prêmios por seus últimos romances publicados?

Com a cabeça zonza de tantas perguntas, cheguei em casa e corri para o quintal. Enquanto procurava por novas mudas no meu pé de azeitonas me lembrei do bosque encantado do Amós Oz. As crianças brincando naquele lugar bonito e perigoso. Quando percebi a terra da horta ressecada, lembrei também de Macondo e seus quatro anos debaixo de chuva. García Marquez me rondava. Uma enxurrada de escritores que amava foram passando por minha mente enquanto eu caminhava pelo meu jardim.

Não desejei voltar à sala do professor e lhe dizer todos os escritores que amo. O que amo não precisa ser contado. O que amo é um segredo meu. Mesmo que nunca se possa compreender o que me faz escrever do jeito que escrevo. É o jardim. É o jardim que me faz assim.

Data de validade

Só mais um minutinho, por favor. A responsável pelo fechamento da biblioteca arquea os cantos externos de suas sombrancelhas grossas e eu entendo que não tenho nem mais um segundo. Deixo uma frase pela metade, um pensamento qualquer interrompido, desligo às pressas o computador, fecho o livro que lia sem nem mesmo marcar a página onde estava. O prazo tinha se esgotado.

Se a mocinha tivesse sido um pouco mais generosa, um pouco mais compreensiva, um pouco mais paciente, talvez eu pudesse ter escrito um pensamento a mais, talvez pudesse ter tido mais alguma ideia, ou ter entendido um cadinho a mais da vida.

Ou não. Minha dificuldade em finalizar as coisas não é um perfeccionismo, desses que me fazem acreditar que uma última revisão fará toda diferença no documento a ser entregue, e é apenas ilusão pensar que é possível criar algo em cinco minutos. Os prazos me atormentam porque eu quero viver tudo até a última gota, e muitas vezes não sei bem qual é a gota derradeira.

E isso me faz querer ficar só mais um pouquinho, conversar só mais um pouquinho, amar só mais um pouquinho. Não porque acredite que o que virá pode ser melhor do que o que já passou, mas porque me apego tanto àquilo que vivi, que quero viver só um pouquinho mais, dividir só um poquinho mais.

E os prazos vencem, as amizades envelhecem, os amores às vezes acabam e eu continuo apaixonada, conversando com um mundo já caduco que não reconhece mais os meus apelos.

Me faltam, na vida, mais mocinhas de sombracelhas grossas arqueadas a me dizer que não, Adriana, não dá mais para ficar nem mais um segundo, e me fazerem, assim, ir embora. Embora para novos lugares, novos projetos, novas alegrias, deixando para trás aqueles pensamentos que ficaram pela metade, ecoando solitários dentro de mim mesma. Quem sabe assim eu fosse mais capaz de cumprir os prazos e tivesse mais coragem para encarar o dia seguinte – o dia exatamente depois do final do projeto – em que o novo se apresenta como uma imensidão de possibilidades.

Lições para uma leonina

Entro em uma floricultura à procura de cerejeiras. A mocinha que me atende me oferece a maior muda da loja. Não, ela não cabe no carro. Quando explico a ela que preciso de uma muda menor, a mais pequenininha que tiver, ela retruca, generosa, me dizendo que as cerejeiras são flexíveis, elas entortam muito sem quebrar. Enquanto falava fazia peripécias com a sua maior muda, entortando os caules, as folhas, torcendo a plantinha, que não quebrava.

Assim que a mocinha soltava a planta ela voltava ao seu lugar, bonita, vistosa, sem indícios de ter sofrido qualquer tortura. Saí da loja subjugada. Até uma muda de cerejeira é mais flexível que eu. Não que eu não saiba abrir mão das coisas em favor dos outros, não que eu não saiba mudar de opinião quando o argumento contrário me convence. Longe de mim. A flexibilidade das cerejeiras é de outra natureza.

As cerejeiras suportam bem o vento: mesmo com uma estrutura frágil, com troncos finos, não quebram. Quando ainda mudas, seus galhos crescem mais do que o tronco, e ficam então curvados aguardando um outro amadurecimento. Enquanto esperam, eles abraçam o tronco que resiste ao crescimento.

Enquanto minha personalidade difícil muitas vezes aponta para a capacidade de mudar de opinião como algo desejável, as cerejeiras me mostram a possibilidade de me curvar e abraçar aquilo que ainda é fraco e frágil em mim mesma, em um esforço de acolher aquilo que ainda não está maduro, apesar das diversas conquistas parecerem apontar o contrário.

Ao olhar para as cerejeiras percebo que mais do que abrir mão do que penso ou desejo em favor dos outros, é preciso suportar a dor, permanecer presente mesmo quando o outro me machuca. O problema é que ainda tenho o coração muito duro e não sei lidar com as mágoas. Diferente das cerejeiras, meus galhos quebram facilmente quando são forçados.

A flexibilidade das cerejeiras é um dom de ser generosa consigo mesma, e para aprender a lição preciso acompanhar o seu crescimento desde o primeiro envergar das folhas. Volto então à loja e peço à vendedora a menor muda que ela tiver. Quando chegarem outras mudas, me avise, preciso de mais.