Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de paixão

O amor nos torna patéticos

O amor nos torna patéticos. E não pelas frases ditas em idioma infantil. Não pelas cartas ridículas que Pessoa nos ensina a escrever para falar de amor. Não pelo dinheiro gasto com coisas efêmeras que se esfumaçam em segundos. Não pela necessidade obsessiva que toma aqueles amam de ver um sorriso no rosto da pessoa amada.

O amor nos patéticos porque nos permite ver coisas que só os que amam vêem. Aqueles que não amam se perguntam o que aquele rapaz tão inteligente e bonito viu numa moça tão sem atributos. O rapaz vê. Ninguém mais vê. E aí o jogo se torna patético porque essas perguntas são, por natureza, patéticas. O rapaz afinal vê algo que existe na moça ou algo que ele deseja que exista nela? O amor é criatividade ou ilusão? Outra pergunta patética, porque se realidade ou ilusão, o amor faz do rapaz um moço diferente, ele caminha leve na rua, chuta pedrinhas, não reclama do esbarrão que levou de outro moço que passava, moço que não ama, certamente.

E o amor se torna patético porque pode se prolongar por toda uma vida. Sessenta anos vividos ao lado de um crápula, odiado por todos mas amado por alguém que viu nele algo que ninguém via. A viúva, ao lado do caixão, chora lágrimas verdadeiras enquanto outros agradecem o favor dos deuses por levar embora alma tão nebulosa. O segredo da viúva é esse amor que cega e que faz ver algo que só ela vê.

O amor também pode acabar num segundo: momento em que se abre um abismo entre aquilo que víamos ou achávamos que víamos, e uma realidade cinzenta, comum, cotidiana. Não vemos mais. Não conseguimos mais ver o que víamos antes. Os pais deixam de ser nossos superheróis e se tornam pessoas comuns, cheias de vícios, cheias de fraquezas. A mulher amada, tão diferente de todas as outras que já conhecemos, de repente se perde na multidão, não distinguimos mais suas qualidades, a maneira como escondia o cabelo atrás da orelha, como levantava a sobrancelha enquanto tomava sua xícara de café. Seu gestos agora se parecem iguais aos de toda a humanidade. O amor saiu pela porta dos fundos e levou consigo nossa capacidade de ver as coisas de um jeito diferente, de um jeito que só a gente via.

E quando o amor se vai, patético, ficamos nós, perdidos, olhando para o mundo e não o reconhecendo mais. O que fazer agora com esses pais, os únicos que temos, que são comuns, fracos, injustos às vezes, que envelhecem, que recusam os nossos cuidados? O que fazer com essa mulher que ainda está à nossa frente, tomando café da mesma xícara cotidiana, igual a todas as outras xícaras e a todas as outras mulheres cotidianas?

O amor nos torna patéticos. Cria ilusões. Muda a realidade. Constrói abismos. Nos faz ter saudades. Formula idiomas. Inventa países. E nada nos salva. Nada nos salva de sua eternidade e de tudo aquilo que lhe é efêmero.

Bem aventurados todos aqueles que um dia encontraram o amor, e se tornaram, como todos os outros, patéticos. Patéticos e felizes, por instantes ou por toda a eternidade.

Desamor

Uma cidade florida com rosas nos canteiros das praças só pode ser uma cidade doente. Seria preciso investimento maciço em novas unidades de saúde para tratar um povo tão perdidamente convalescente de falta de amor.

Quando os fracos não têm vez

Nada mais perigoso que minutos de felicidade para um coração desacostumado em ser feliz.

Uma pequena estante: Livros que eu leio

Sou daquelas que adoro saber o que cada um está lendo no momento: seja pescoçando no metrô os livros que outros lêem, seja vasculhando as estantes das casas de meus amigos. Por isso, resolvi abrir aqui a minha estante: livros que estou lendo ou que já li. São pequenas resenhas, num esforço de exercitar a leitura, a escrita e o senso crítico. E também, no desejo de compartilhar aquilo que eu gostei ou, que não gostei. Às vezes me pego odiando aquilo que todo mundo achou o máximo. Tudo bem, nunca me achei muito dentro do padrão mesmo. Mas quem sabe aqui eu não consiga compartilhar com vocês e trocar ideias e sensações, entender o porquê se gosta ou não se gosta de tal ou tal livro, de tal ou tal autor.

Essa é a minha estante, sentem-se, fiquem à vontade. Dêem pitaco, me digam se estou enganada. Vamos transgredir!

Depois dos 90

– E esse, pra que serve?

– Esse é para suavizar as linhas de expressão.

– Aqui não diz que é para mulheres com mais de trinta?

Dizia. Mas ela já usava. Faltava pouco para os trinta, já tinha deixado para trás os vinte e cinco. Preferia, ainda assim, os cosméticos mais fortes, acreditava que eles teriam mais efeito. Olhava para ele de soslaio.

– Esses dois são para suavizar linhas de expressão, mas um é para o dia, outro é para a noite. Eu nunca soube porquê. Por que será? Você faz ideia?

– Não sei. Será que o da noite não fixa mais, não pode ser?

– Como assim?

– Bem, de noite, você fica com a cara no travesseiro, vai se esfregando, o creme da noite deve ser mais gosmento, não é não?

– É, acho que é. Você deve ter razão.

Era a primeira vez que ele a via passando cremes noturnos. Sempre se encontravam em restaurantes, bares. Às vezes iam caminhar, fugiam até à praia. Ela sempre linda. Maquiada ou não. De salto, havaiana, cabelo marcado de tanto deixar preso, cabelo liso ou ondulado, de escova, bobs, coque.

E naquele momento, em que ele confabulava para ela sobre as diferenças entre o creme diurno e noturno, sentia dentro de si uma alegria amarelada, todo o ambiente se amarelava, e aquela intimidade, pela primeira vez. Aquela intimidade pela primeira vez. E ele nem mesmo se sentia mais ridículo ao dizer tantas coisas ridículas sobre os cremes que ela usava. Ele falava, falava qualquer coisa, perguntava os detalhes de um, de outro, por que esse? E esse? Mas por que tantos? O dos olhos é diferente do que você usa para o pescoço?

Ela achava engraçado. Nunca imaginou que ele se interessaria tanto por cosméticos. Será que ele acredita que eu não sou mesmo bonita, e que realmente preciso de tudo isso? Jesus. Ele acredita. Eu estou sendo ridícula. Ou será que ele é gay? Se calou.

Em silêncio, ele ainda olhava para ela. Amarelada. Tudo amarelado. Era a primeira vez que ele a via, assim, amarelada. Usando seus cremes cotidianos, se preparando para ir dormir. Dormir com ele, que estava ali, do seu lado. Nunca dormira antes ao seu lado. E ela se preparava.

Ela duvidava. Ele a amava. Ela guardou os cremes, apertou o laço do roupão. Entimideceu. Ele, confiante, disse que ela era a mulher mais linda do mundo. Ela disse que logo faria trinta. Ele disse que a amaria até os 90. Depois disso, iria embora, ah, iria embora. Ela sorriu. Ele a beijou.

 

Conto publicado em Mundo Mundano.