Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de entardecer

Entardecer

São cinco da tarde e ainda sinto sua presença. Não me importa que em meia hora tudo desapareça, que você suma, que o céu se torne escuro, que apenas o silêncio me seja companhia. Importa a sua presença, amarelando o final da tarde, me abrançando e tornando o mundo à minha volta amarelo, todo amarelo.

São cinco e meia da tarde e ainda sinto a sua presença. Mesmo que a luz vá enfraquecendo, ainda sinto sua presença. Tudo em minha volta é banhado de toda paz que tenho quando você ainda está por perto, me aquecendo, me envolvendo, me trazendo o silêncio e o desejo de que você fique um pouco, só um pouco mais, um pouquinho mais.

São seis da tarde e quase não percebo mais sua companhia. É no final do horizonte que vejo seu rastro, sua despedida. Você acena, cantarola, faz charme. Diz que volta amanhã e eu duvido. No escuro eu sempre duvido. No escuro eu sinto frio, sinto medo. Peço que você fique, mas você não fica. Você vai embora todos os dias. Você me deixa. Você me deixa mesmo sabendo que me desespero na sua ausência, que perco o sono, que perco o rumo. Você acena e diz que volta.

E amanhã você volta, para de novo às cinco da tarde eu sentir um soluço no coração. De novo, cinco e meia, a hora mais sublime em sua companhia. Cinco e meia e você ali, segurando minha mão, me convidando para seu banho – banho amarelo, cheio de luz. Cinco e meia e eu já pressentindo sua partida, sua despedida, seu aceno, seu espetáculo. Às seis e você já se foi. Às seis e não tenho mais nada de sua companhia. E de novo sinto medo, e de novo sinto frio.

E desejo com desejo ardente que chegue logo o verão, e você atrase seu relógio, e me abandone só as oito da noite. Hora do jantar, hora em que o mundo noturno precisa ser organizado, as visitas daqui a pouco estão chegando e eu nem mesmo percebi que você me abandonou. E eu nem preciso implorar por mais cinco minutos, cinco minutinhos da sua companhia. E é quando eu acredito mesmo que é você quem gosta de mim, e fica mais um pouco, fica mais um pouquinho. E sou eu quem te aqueço, quem te revelo toda a beleza do mundo escondida por traz do amarelo que trago dentro de mim.

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Final feliz

Eu quero um texto triste, que funcione como whisky puro e acalme um soluço, um texto que embriague e desobrigue a encher o copo uma, mais uma, mais uma vez. Quero que as palavras escorram pela página borrando as ideias, turvando os sentidos, fazendo latejar a cabeça. Quero que no fim do texto seja preciso beber um gole d’água, acalmando o que ficou desolado.

Um texto que desperte um soluço em quem estava distraído, que fale do amor e da perda como quem reza um terço. Um texto que lembre um mundo povoado de saudade e ausência, que escureça junto com a espera de um telefonema.

Um texto que se pareça com dois olhos que olham e fitam e não são percebidos, que insiste, não desiste e ainda assim não funciona. Um texto que luta e perde. Um texto mal compreendido. Um texto sozinho.

Um texto que grita, esperneia, que chora baixinho com os braços enrolados nas pernas. Um texto que seja repleto de insônia, que toque no músculo que dói nas costas, que arrepie a pele desacostumada ao toque, que lembre o perfume do amor escondido.

A intensidade seria sua marca mais visível: ele fala como quem abraça um abraço forte, e assim, sufoca. Mas é cheio de enganos e desencontros, e ninguém compreenderia que o texto triste apenas pede, apenas suplica. O texto falaria da distância e da ausência como um desejo que aponta para o aconchego, para o carinho. O texto triste é um pedido para que fique.

E como um texto triste que é, termina sem esperanças. Olha ao longe e acredita em algo, mas não sente forças para desejar nada além das próprias palavras e da própria tristeza. Um texto triste não consegue acreditar em um final feliz.

Café com leite

Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não sinto cheiro de café coado vindo da cozinha. Em São Paulo nem mesmo existe um coador. Sinto saudades de Minas porque a cama em São Paulo é baixa – mentira dizer que tem cama: o colchão fica colado ao chão. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não existe um canto de silêncio: mesmo à noite sou acordada com buzinas e alarmes de carros. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não há cozinha grande que me acolha: não há como fazer bolos, risotos, omeletes.

Em Minas, sinto saudades de São Paulo. Em Minas, depois das seis da tarde, a cidade se encolhe, se recolhe, se refugia em um lugar qualquer que me escapa. Ninguém passeia pela Vila, pela avenida, pelo entardecer. Em Minas falta a padaria aberta, o armazém vinte e quatro horas, a possibilidade de ir a um bar sozinha e poucas pessoas, talvez, repararem na minha falta de companhia.

Em Minas me falta a livraria enorme, com uma infinitude de livros e o sonho de um dia ver meu nome num canto qualquer de uma estante. Em Minas me falta o chopp no final da tarde, o cinema quase no término da noite, o show que eu poderia ter ido na sexta à noite se não tivesse esticado até tão tarde aquela reunião.

Em São Paulo me falta a grama que eu piso todas as vezes que o trabalho me enfastia. Me falta a primavera no fundo do quintal, que insiste em forrar meu jardim de flores vermelhas que eu insisto em limpar com o meu rastelo. Em São Paulo me falta o espaço, apesar de toda sua amplitude. Em Minas me falta amplitude, com seus espaços sem fim.

Em Minas, minha voz sai anasalada. Em São Paulo, falo como quem canta e entoa cantigas da roça. Procuro em São Paulo o cheiro do café coado. Em Minas, procuro um chopp na calçada e uma conversa regada a sereno. E vivo, assim, semana após semana, dividida pela saudade, desejando o outro estado assim que atravesso a linha que separa o trabalho daquele lugar dominado pelo meu coração.