Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Outubro, 2012

Dicas para um mau humorado

Ao abrir os olhos pela manhã e perceber que o humor está pesado, feche os olhos imediatamente e só acorde no dia seguinte. Se acordar, no entanto, for inevitável, reflita se há algo realmente importante a ser feito ou vivido no dia. Se a conclusão for negativa, volte a dormir.

Se a vida continuar apesar do seu mau humor, acorde, mas não abra a janela. Não abra jamais a janela em dia de mau humor. O dia claro lá fora só faz piorar seu estado de espírito, o vento que sopra se transforma em ventania e quebra tudo à sua frente. Não abra a janela.

Se puder, não saia de casa. É melhor não se encontrar com os vizinhos recém mudados para a casa nova, é bem provável que eles não pressitam seu mau humor e te convidem para conhecer a nova churrasqueira. Irão te pedir, inclusive, para fazer o churrasquinho no domingo, você sabe, meus sogros estarão aqui e eu não tenho muita familiaridade com o feitio das carnes. Não saia de casa.

Se o mau humor se der no meio da semana, invente uma doença, conjuntivite, dor de garganta, enxaqueca, qualquer coisa, e não vá trabalhar. Trabalhar só irá pesar ainda mais o seu espírito improdutivo. Melhor perder o dia de trabalho que perder a vida se jogando pela janela em pleno meio dia. Não vá trabalhar.

Evite também a televisão. Você sabe que não há nada de interessante nos canais abertos e lembrar que há pouco você cancelou o seu pacote de TV paga só vai piorar seu estado.

Não tente fazer trabalhos manuais neste dia. Nem mesmo cortar a hera. Nem aguar as plantas. Nem lavar louça. Nem arrumar o armário. O veneno que corrói seu espírito facilmente se transferiria para as coisas e tudo se transformaria, rapidamente, em cacos. Não faça nada.

Se, ao final do dia, você ainda estiver são, pense que foi um dia de vitória, em que foi possível vencer o próprio espírito, segurando pelos chifres o bicho medonho que se aloja dentro de você pelo menos uma vez por mês. Durma, ao final, tranquilo. Agora ele só voltará no mês que vem.

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Pretérito perfeito ou mais que perfeito

É sempre em assaltos que ela se apresenta. Dirigindo na mesma estrada de sempre, sem mais nem menos, nos lembramos de um olhar amado que pedia para a gente ficar, e, simplesmente não ficamos. Sem explicação. Sem porquê. Anos depois, diante de nossa antiga recusa, olhando a mesma paisagem de sempre, a culpa nos golpeia, nos faz esquecer o destino, nos aperta contra o volante, sufoca, nos faz implorar para voltar àquele momento e mudar o que foi feito. Não dá. Não dá mais. A culpa não nos permite nenhuma mudança.

Às vezes ela insiste em nos acordar no meio do noite. Um sonho estranho, um susto, uma sede e lá está ela, sentada na poltrona em frente à cama, pernas cruzadas, cigarrilha na mão, discorrendo sobre o passado. “Por que mesmo você deixou de viajar com seus pais naquele inverno de 2001?”, ela pergunta. Você, então, ainda sonolento, pensa no pai, pensa na mãe, já idosos, desejosos da sua presença, e você, sei lá, pensava numa garota, pensava no trabalho, pensava em qualquer coisa. Agora os pais não podem mais viajar. Você acordado, quer ligar para a mãe, será que ela também está acordada? Talvez, ela também tem insônia, ela é como eu. E a culpa te observando, fumando seu longo cigarro enquanto você revira na cama, e nada muda, não dá para mudar.

Lendo um livro, um livro banal, ou quase banal, a culpa vem, senta do nosso lado, sussura algo que não compreendemos. Lemos mais um parágrafo, as palavras clareiam, e então percebemos a sua presença. O personagem mau humorado e rude do romance nos lembra quantas e quantas vezes tratamos mal aqueles que estavam do nosso lado. Por quanto tempo essas pessoas permaneceram por perto? Não lembramos. Um dia, simplesmente, elas se foram, e a gente fez que não percebeu. Dá para voltar? Dá para ser mais gentil agora? “Não, meu caro, não dá”, sussura mais uma vez a senhora sentada ao nosso lado. Não dá.

A culpa se apresenta sempre no passado, passado mais que perfeito, em que nada, nenhum um milímetro de nossa história pode ser modificado. Não dá mais para oferecer o beijo que recusamos, não dá mais para ser gentil quando deixamos de ser. Não dá para apagar as palavras rudes que ficaram no ar. Não dá para fazer de novo. E a culpa sabe disso, e ri, às gargalhadas, de nosso esforço infantil em prometer fazer tudo diferente. De manhã, quando acordamos, tudo não passa de um sonho ruim, esquecemos da senhora sentada na poltrona e tocamos a vida. O relógio já despertou atrasado, o jornal avisa que o dólar vai subir, é preciso pagar o colégio das crianças, não se esqueça da consulta hoje no meio da tarde etc, etc, etc.

María Dueñas, O tempo entre costuras

María Dueñas, O tempo entre costuras, Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2010, 477 páginas.

 

São muitas as histórias em “O tempo entre costuras”. Não se trata de um livro de contos, e sim de um romance, mas neste romance, em que conhecemos a história de Sira Quiroga, conhecemos, também, a de personagens históricos que tiveram papel importante na Espanha durante a Guerra Civil e também na Segunda Guerra Mundial. Nas últimas páginas do livro entendemos que ele se trata, de fato, da Espanha entre guerras, se trata de saber quem está a favor ou contra a Alemanha no período anterior à Segunda Guerra.

 

Entre agentes secretos, negociações escusas de políticos do alto governo, informações sigilosas sendo enviadas de um país a outro, conhecemos Sira Quiroga, uma jovem humilde que foi jogada, pelos reveses do destino, para dentro do Serviço Secreto Britânico, e trabalhava como espiã enquanto mantinha um ateliê de alta costura na Madri devastada pela Guerra Civil.

 

A história do livro nos é contada pelos olhos de Sira. É da sua história que se trata, é do seu olhar sobre o mundo. O que carrega o livro de uma sensibilidade delicada: a frieza da guerra e das negociações de armamento pesado são nos contadas pela voz de uma mulher doce, que não apenas percebe o que acontece à sua volta, mas sente o universo ao seu redor.

 

Sira foge da Espanha pouco antes da Guerra Civil e se estabelece em Marrocos. Ali, sozinha, abandonada por aquele que ela acreditava que era o seu grande amor, sem nenhum dinheiro e com uma dívida enorme deixada pelo homem que amava, ela precisa se restabelecer. E para isso, Sira inventa uma nova mulher: uma mulher independente, elegante, decida, firme nos seus propósitos de dona de um ateliê de alta costura. Quando as portas de seu ateliê se fecham, o que sobra é uma Sira solitária, fragilizada, ainda despedeçada pelos sustos que tomou na vida.

 

A vida de Sira se trata, no final das contas, de uma grande mentira que ela aprendeu a contar sobre si mesma para os outros. Uma costureira que ela não é, uma elegância que ela não tem, uma certeza que lhe falta, uma independência carregada de solidão. Nesta mentira, no etanto, Sira coloca todas as forças que tem para não voltar a ser o que era, para se desvencilhar do passado cheio de abandono que viveu. O que nos apaixona na história de Sira é exatamente essa mentira, e a forma como ela nos conta, a todo momento, os esforços brutais para fazer com que ela se torne verdade. Somos seus cúmplices, no final de tudo, já que é a nós que ela conta a sua história, e nos revela todos os segredos que foram só seus por tanto tempo, enquanto costureira e enquanto espiã nos anos anteriores à Segunda Guerra. Só nós sabemos que Sira é uma farsa, e mesmo assim, nos apaixonamos por ela.

 

“O tempo entre costuras” é, sem dúvida, um livro magnífico, não apenas pela trama de Sira Quiroga, mas pela capacidade do romance em contar a história da Espanha no período entre guerras a partir de um olhar comum, de uma pessoa comum, que pode ter existido como pode não ter existido, mas que esteve próxima das grandes personagens que marcaram este momento tão importante da vida de um país, e que, estes sim, foram registrados pela história. Sira Quiroga e outras pessoas, outras personagens, certamente ficaram esquecidas entre as costuras.

 

Questionário

– Quantas árvores plantadas?

– Até agora, cinco.

– Livros escritos?

– Sim, dois.

– Filhos?

– Três.

– E o que você ainda espera da vida?

– Tudo.

Velhas, caducas e amantes

Sim, é preciso ser mais feliz. Não é de bom tom ficar triste demais por longo tempo. É preciso ser feliz. É preciso fazer algo, sair do lugar, tomar novos ares, espantar a tristeza. É preciso ir à praia, comprar uma câmera fotográfica, beber um licor bem colorido, ver o pôr do sol. É preciso ser feliz.

E para isso é preciso, talvez, fazer novos amigos, reencontrar os antigos, experimentar novos cafés, ler um livro com cheiro de novo, ser o último a sair da festa. É preciso esquecer os velhos problemas, que de tão velhos já ficaram caducos.

E no meio de tanta alegria a tristeza ainda espreita. Fica na esquina olhando o vento nos bater ao rosto e ri do cabelo em alvoroço. Sabe bem, a senhora tristeza, que os problemas continuam ali, velhos, caducos, mas companheiros. Sabe ainda que a festa não trouxe os velhos amigos de volta e o coração ainda soluça em meio à multidão.

É a tristeza quem nos aguarda em casa, sozinhos à noite, e nos faz companhia. Paciente, ela espera o fim da festa, o fim dos brindes, e nos acolhe no silêncio que resta depois do último gole. E quando nos enganamos, acreditando mesmo que estamos sendo felizes, ela se cala, nos deixa acreditar na felicidade por uns instantes, uns instantes apenas.

E só quando paramos de buscar a alegria a todo custo é que a senhora tristeza nos sussura ao ouvido que é ela quem dá a mão para a felicidade, e que só saberemos ser felizes se aprendermos a conviver com essas duas senhoras, velhas, caducas e amantes.