Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de primavera

Despedida

Amanhã quando eu acordar você não estará mais conosco. Nos últimos dias já era possível pressentir a sua partida: seus olhos baixos, seu silêncio, sua fraqueza. Os dias estavam quentes, os pernilongos voltaram as nos perturbar o sono. O céu já não reluzia do azul frio e brilhante dos seus melhores dias. Mas amanhã, definitivamente amanhã, você não estará mais conosco.

E antes de sua partida já pressentimos a chegada de uma senhora gloriosa. Senhora que de tão velha não envelhece nunca. Senhora perfumada de perfume da terra e colorida de cores inomináveis. Senhora que não se esconde, que não aceita tristezas, que fala da vida e cobra da vida que lhe sirva de espelho. E na presença desta senhora tão garbosa nos esqueceremos completamente de você.

Nesta nova presença tudo é fala, é dança, é diálogo. O que era cinza se torna chumbo, chão, terra, flor, fruta, vitamina, alegria. O que era silêncio na sua presença se transforma em nada, nem mesmo em lembrança. Tão logo você se vai e nos esquecemos de você.

Mas hoje, ainda, você está aqui. Trazendo chuva, trazendo umidade, refrescando meus olhos secos, me saciando de melancolia, me aquecendo com o crepitar da madeira no fogo. E é só nesses dias que me alimento de silêncio, que relembro que também sou terra, que me transformo a cada estação e que me reencontro contigo sempre a cada ano, no mesmo silêncio, na mesma reconstrução, no mesmo esconderijo da terra quando fujo do frio e me protejo, silenciosamente, no calor da solidão. Vá, meu amigo. Estarei te esperando no próximo ano, na próxima temporada, com um cobertor nos ombros, uma taça de vinho na mão, e um nó apertado no coração.

Fim de inverno

Passarinho, passarinho, que notícias você tem pra mim? Por que pia tão alto bem ao lado da minha janela? Por acaso algum político já foi condenado? Ou você já sabe quem será o próximo presidente dos Estados Unidos? A primavera já chegou, passarinho? As flores já voltaram a florir no meu quintal? É por falta de água, por falta de sol?

Passarinho, passarinho, que notícias você tem pra mim? Descobriu um novo rio? Arrumou namorada, passarinho? Por que tanto pia, o que tem pra me contar? Ainda não é tempo de ovos, passarinho, os filhotes ainda não vieram. Mas por que tanto pia, passarinho? A chuva não veio? O vento não veio? O amor não veio?

Passarinho, por que tanto pia? Assim você atrapalha meu sono, atrapalha meu sonho. Você veio trazer esperança, passarinho? Veio me contar que o mundo anda mais calmo, que o homem anda mais calmo, que a vida ainda pode ser vivida?

Passarinho, passarinho. Não pie, passarinho. Assim você me acorda, assim você me irrita, assim você me lembra que veio um novo dia, que é preciso trabalhar, ler, estudar, correr, melhorar, crescer. Passarinho, passarinho. Fique quieto, passarinho. Não quero saber do mundo lá fora, não quero saber do homem, não quero saber de solidão. Se a primavera ainda não veio, não me atazane, passarinho.

Passarinho, não vou abrir a janela. Volte depois. Quem sabe o inverno termine ainda essa semana. Volte depois.

Antes da primavera

Eu ainda trazia os restos de uma conversa difícil quando entrei na garagem. E foi enquanto opiniões severas sobre meus últimos escritos ainda ressoavam em minha cabeça que percebi os rastros de meu pai em minha casa: as flores do jardim foram todas podadas, e só restaram restos de tocos de caules sem nenhuma beleza, sem nenhuma novidade. A desolação dentro do peito parecia refletida em meu jardim.

Desolação que logo virou revolta: passo a mão no telefone e disco depressa o número de meu pai. Ele não tinha o direito de podar todas as flores de uma só vez, deixando meu jardim deserto. E ainda me restava a dúvida se ele havia feito correto, se não tinha passado do ponto, cortando muito mais do que deveria, comprometendo assim toda a vida das minhas plantas.

O telefone chamou, chamou. Não atendeu. Volto para o jardim, me sento ao lado dos caules carecas e choro com eles nosso espaço desolado. Meu pai com o tesourão. Meus textos rabiscados de vermelho por um especialista. O jardim quase deserto. Meu coração quase vazio. A revolta se desfazendo em choro, os rasbiscos em meus textos se desfazendo no jardim, o choro se desfazendo no vento.

De súbito me levanto, busco o velho regador e me coloco a aguar todas as plantas, saciando a sede que era delas, que era minha. Nada se altera, apesar da água. As flores não estão mais ali, tudo é deserto, tudo é ausência de esperança.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito perto de mim. Enquanto me quedo esquecida de meu pai, esquecida dos rabiscos vermelhos, esquecida dos meus escritos, algo acontece no jardim. Dias depois percebo uma haste – tenra, pequenina – se arriscando para além do caule que ficou seco. Em todas as plantas que foram violentamente podadas era possível perceber um anúnico de vida. Vida que renascia, apesar da insegurança, apesar da fragilidade, apesar da incerteza.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito dentro de mim. Enquanto me quedo esquecida no meu jardim, esquecida em meio a tantas novidades e hastes novas e folhas hesitantes e perfumes ainda frágeis, percebo uma fisga de esperança. Não penso mais em brigar com meu pai. Não julgo mais aqueles que rabiscaram meus escritos. A primavera se aproxima, as flores começam a brotar mais uma vez. Meu coração, imagem refletida do jardim, começa a palpitar forte novamente. É hora de voltar a escrever.