Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de morte

Um corpo que abraça

Foi há alguns dias que perdi, pela primeira vez, uma pessoa importante para mim. Depois que ela se foi ficamos eu e minha família, por dois dias, velando seu corpo. Com 30 anos eu ainda não consigo entender bem do que é feita a morte. Talvez pela minha pouca experiência. Talvez porque não haja muito o que compreender. Eu olhava para minha avó e não entendia que, apesar de seu corpo estar ali, deitado à minha frente, ela já não estava. Ela já não estava.

Para se despedir deste corpo que era mas já não era alguns vieram de longe, de muito longe. E para que fosse possível dizer adeus a este corpo, foi preciso garantir que ele continuasse corpo até o momento da despedida. A funerária fez magias, e lá estava o corpo de minha avó, firme até o último minuto, esperando a família toda reunida para podermos, então, com os nossos corpos nos desperdirmos de seu corpo.

Porque foi assim a vida inteira: é o corpo que abraça, é ele quem beija, é ele quem ama e dá aconchego. E é ele, também, quem se despede. A alma já voa para longe, perdida em mistérios que nem a vida toda nos permite compreender. Mas o corpo está ali, para ser abraçado, acariciado, e por fim, despedido.

É o corpo também que gera outro corpo. Não há outro meio. É o encontro dos corpos que permite o milagre da vida. Podem me dizer dos métodos artificiais de reprodução, de bebês de proveta, de clônes e o que seja. Só o corpo, pelo meio que for, pode gerar outro corpo. E só o corpo pode carregar uma alma que comunica. Depois, bom, depois é mistério. Depois restamos nós, chorosos, abraçados, pedindo aos deuses que nos confortem pela nossa perda, que nos ajudem a viver sem a presença daqueles corpos que amamos por toda a vida e que não existem mais.

Diante do corpo já sem vida de minha avó me pus a lembrar da última vez que a vi. Ela estava sentada no sofá de sua casa, assistindo uma missa pela televisão, e sorria pela minha visita. Eu peguei sua mão e contei a ela que o bebê que estou esperando é uma menina, e que se chamará Maria Eduarda. Ela sorriu de novo, apertou minha mão e disse que aquele era um lindo nome.

Me lembrei também que uns dias depois foi Natal, e pela primeira vez ela não esteve presente, porque já estava cansada e não aguentava acompanhar as festividades de minha família. Eu não liguei e nem lhe desejei Feliz Natal. Eu estive ausente. E não posso, por isso, saber se ela sorria, se ela assistia à missa, se ela dormia. Eu não sei. Eu não estava ali. Nossos corpos estavam distantes e não se abraçaram por ocasião do Natal.

Não, eu não sinto culpa por isso. Há tanto que podíamos ter feito e não fizemos. E se formos contabilizar a vida vira um inferno. Mas aprendi, diante do corpo inerte de minha vó, aquele que eu acariciava enquanto lágrimas gordas escorriam de meus olhos, que é o corpo que abraça, é ele quem cuida, é ele quem ama, e que não vale pedir aos deuses que cuidem de nós. Essa tarefa é nossa, é nosso dever abraçar quem amamos, pegar na sua mão e lhes contar as novidades. O resto é silêncio e vaidade.

Receita de felicidade

Da noite para o dia ele perdeu todo o seu dinheiro. Parece que houve um incêndio que tomou as plantações de um lado da fazenda, no outro, uma peste atacou a criação de galinhas, os peixes apareceram mortos e os funcionários todos fugiram por medo da represália. Devia de ser mau olhado. Lá se foi trator, estaleiro, caminhonetes, gado, os chalés da fazenda, tudo. Tudo. Só podia ser mau olhado.

João, sereno, se entristeceu, pensou no trinta anos de trabalho para construir o patrimônio, pensou depois que ainda era jovem e poderia, com esforço, resconstruir, não tudo, mas alguma coisa. Já na cama, se agitava preocupado, mas caiu no sono na esperança de tudo se acertar. Amanhã ele veria o que fazer.

A manhã, no entanto, acordou cinza. O telefone da fazenda toca e ele descobre que o filho, em intercâmbio lá do outro lado do mundo, sofreu um acidente e está em coma. Não é nem possível falar com ele. A mulher se desespera. Eles procuram às pressas uma passagem aérea. Quando voltam a ligar no hospital, uma enfermeira, em língua estrangeira, diz que não adianta mais. Os procedimentos já estão sendo tomados para o envio do corpo de volta à terra natal.

João pensou no filho, ele sempre foi melhor que eu, sempre viveu melhor que eu. De tudo o que João trabalhou, foi o filho quem melhor aproveitou. Viveu, viajou, conheceu gente e o mundo. Era um rapaz alegre, corajoso, confiante na vida. João sentia que, de tudo, era o filho o seu maior tesouro, e que este também tinha se ido.

Sem dinheiro e sem o filho, João só tinha a esposa e a vontade de continuar vivendo. E viveu. Triste, mas viveu. Até que descobriu um câncer de próstata já avançado. Sem recursos, foi internado no SUS e lá passou a conviver com 3 outros senhores que também estavam em tratamento de câncer.

De todos, a história de João era a mais triste. Seus companheiros, também sofrendo, buscavam animá-lo. Um deles pensou que aquilo poderia ser uma prova divina, um teste de fé. João já não queria mais ter fé, acreditar num Deus que lhe roubou os bens, a família e agora a saúde. Para ele, não fazia mais sentido lutar por uma vida tão ausente de qualquer alegria. Outro falava de bênçãos futuras, dizia que a vida talvez pudesse ainda melhorar, e João lembrava dos lugares longíquos que o filho conheceu, e ele sempre sem poder estar perto, sem poder apertar a sua mão. O terceiro, ao ouvir as histórias do filho de João, disse que ele era um homem abençoado, que ele tinha algo que ninguém lhe roubaria jamais, que era essa saudade que lhe enchia o peito, trazia lágrimas aos olhos, o homem dizia que era ela, era essa saudade o que lhe traria a saúde, a riqueza e a alegria que um dia lhe roubaram.

O primeiro disse que aquilo tudo era uma bobagem, que saudade não curava ninguém. O segundo pensou, ficou quieto por um tempo, lembrou dos netos que não via há anos, e acenou com a cabeça. O terceiro já estava com o olhar lá fora, longe, sorrindo. João fechou os olhos, amaldiçou uma divindade qualquer e fez uma promessa de que nunca ninguém jamais lhe roubaria sua saudade. Em quatro meses todos morreram, o primeiro infeliz, o segundo com alguma esperança, o terceiro com alegria. João morreu carregado de saudades de tudo o que teve e tudo o que viveu.

Correnteza

Havia chovido muito e a rua detrás de casa estava inundada: a água que corria entre o meio fio e o asfalto se parecia com um rio ao meus olhos de menina. Aos meus olhos e aos do meu irmão. Não nos arriscávamos naquele rio, ficávamos na beira, olhando, olhando. Tudo parecia grande e profundo, e o medo de enviar o pé num caco de vidro – as palavras de minha mãe ressoando em nossas mentes – nos impedia de adentrar a corrente.

Até que avistamos um pardal, pequeno, pequenino, lutando contra a correnteza. Frente a uma criatura tão frágil lutando tão bravamente para sobreviver, esquecemos, meu irmão e eu, dos dizeres de minha mãe, adentramos a enxurrada e andamos na direção do pobre pardal. Eu o peguei nas mãos, ou talvez meu irmão o tenha pegado, ele ainda se debatia, encharcado, tentando se livrar do nosso cuidado. Trouxemos o pequeno pássaro para dentro de casa. Não me lembro ao certo, mas tenho quase certeza de que minha mãe olhou repreensiva a princípio, mas aos poucos se deixou amolecer pelo nosso cuidado com o pequeno bichinho. Ela mesma foi até o quarto, trouxe o secador de cabelo, uma caixa de sapato e uns pedaços de jornal. Ela não nos mandou direto pro banho, mas deixou que a gente cuidasse do nosso mais novo amor.

E cuidamos. Cuidamos com cuidado, cuidamos com amor. Amor de criança que ainda não sabe como cuidar, que exagera, que estraga. Secamos o bicho, acariciamos o bicho, lhe preparamos uma cama e uma casa, talvez tenhamos deixado até um pouco de comida para ele. Mas criança não sabe o que pássaro come, e não me lembro exatamente como tentamos matar a fome do nosso novo animalzinho de estimação.

Fomos, então, dormir, felizes, satisfeitos da nossa missão. Meu irmão e eu dormíramos heroicos, havíamos salvado uma vida, por mais pequenina que fosse. Cuidamos de um ser pequeno que precisava da gente, antes de qualquer coisa, ele precisava da gente.

Mal amanheceu, meu irmão me chamou na cama e fomos juntos velar pelo nosso animalzinho. Chegamos silenciosos e afoitos ao mesmo tempo, numa ansiedade daquele que erra ao tentar fazer tudo da forma mais perfeita. Nosso cuidado, no entanto, não fazia mais sentido. O bicho já estava morto na caixa, quase endurecido. Eu não vi nos olhos do meu irmão a mais leve tristeza. Ele, por sua vez, não pôde perceber a minha profunda frustração. Pedimos à nossa mãe a enxadinha de meu pai, fomos até o quintal, cavamos um buraco e ali fizemos o enterro do pequeno animal.

O quintal, hoje, não é mais o mesmo. Eu não seria capaz de adivinhar onde está enterrado o nosso primeiro pássaro. Mas sei que ali, atrás da minha casa, foi velado, pelos meus olhos de criança, o meu primeiro amor, o meu primeiro cuidado. E a cruz de gravetos que durou apenas um dia sobre o pequeno túmulo improvisado me faz lembrar que não basta apenas cuidado, sendo preciso muito mais desejo para encontrar as respostas para tanto enigma que a vida carrega em si.

Fernando Vallejo, A virgem dos sicários

Fernando Vallejo, A virgem dos sicários. São Paulo, Companhia das Letras, 2006. 111 páginas.

Nada mais atual que este livro de Fernando Vallejo. Se de noite eu lia algumas páginas do livro, em que o narrador vai contando os mortos na cidade de Medellin, pela manhã, ao abrir os jornais, eu lia os mortos da noite anterior na cidade de São Paulo. A Medellin contada pelo narrador me lembrava a cada instante o horror que se tem vivido nos últimos dias na cidade que já foi louvada pela queda brusca dos homicídios em poucos anos. Mas não estou aqui para falar de São Paulo. Estou para falar de Medellín, não a Medellín atual, que não conheço, mas essa que Fernando, o narrador do livro de Fernando Vallejo, nos conta.

Fernando é um gramático que voltou para a cidade de Medellín depois de muitos anos morando no exterior. A cidade que deixou na infância se apresenta agora como um lugar em que o ódio é sentido até mesmo na chuva que cai raivosa e faz transbordar o lixo do esgoto. Em meio a esse cenário, Fernando, já velho, conhece Alexis, um adolescente que trabalha como sicário, o nome dado para os matadores de aluguel. É Fernando, no entanto, que passa a nos contar os assassinatos cometidos por Alexis. Enquanto os dois caminham a via sacra em que Fernando busca conhecer as mais de cem igrejas católicas de Medellín, muitos vão sendo os mortos no meio do caminho, todos pelas mãos alvas e inocentes de Alexis, o menino anjo de Fernando.

As mortes causadas por Alexis são banais, como todas as mortes em Medellín. Um taxista que não abaixa o volume do rádio, um mendigo folgado, um menininho que desafia o guarda local, uma garçonete que se recusa a servir um café. Todos morrem pelas balas do revólver de Alexis enquanto eles caminham em direção às igrejas. E não há nada a fazer. Ninguém reclama seus mortos, nenhuma polícia aparece para investigá-los. E se segue, então, a caminho da igreja.

É Fernando, no entanto, quem conta os mortos e tenta justificá-los. Alexis não precisa justificar nada, é sua profissão, matar é a única coisa que sabe fazer, não é preciso pensar sobre isso. Mas as justificativas para tanta morte ou tão pouca vida não valem a pena. Morreu porque merecia. Melhor morrer do que viver reclamando. Pelo menos agora o primeiro inferno passou, agora só lhe resta o segundo. E assim Fernando vai nos dizendo que a vida, essa vida humana, vale mesmo muito pouco, e o melhor que se faz a um ser humano é lhe oferecer a morte.

Esse cenário de violência nos é apresentado juntamente com uma miséria completa que ronda Medellín. As comunas, algo como as favelas brasileiras, rodeiam a cidade e a vigiam com seus olhos de morte. Ali a vida vale nada, a morte é o que se espera, a vingança é o que movimenta o cotidiano, e os mortos vão sendo jogados em terrenos baldios em que urubus se encarregam de levar a alma para outro lugar.

Fernando, no entanto, é quem nos conta a história e por meio dele sabemos que poucos sobrevivem e chegam à velhice. Ele é um deles, velho que caminha sobre os mortos de sua cidade. A morte não lhe enlaça e ele vai também contando seus próprios mortos. Morre Alexis, morre Wílmar, morre outro. Sua sina é viver e pensar e tentar justificar aquilo que não ocupa a cabeça dos jovens de Medellín, que trocam a vida por um par de tênis, por um café mal servido.

A narrativa ácida de Fernando nos atinge em cheio. Ao mesmo tempo em que a ironia fina com que justifica as mortes nos prende na narrativa, as mortes contadas aos quilos em cada página nos fazem fechar o livro. O livro é um sufoco, uma falta de ar, uma raiva que contagia, ao mesmo tempo em que clareia um tanto da miséria cotidiana do dia a dia. Ainda bem que o livro é curto e nos livra rapidamente de olhar de frente para a culatra estampada em sua capa.

Resta agora voltar ao noticiário e pensar na nossa realidade cotidiana, na São Paulo contando seus mortos, na culatra que nos assombra e afirma que a vida, também por aqui, vale pouco, muito pouco.

Banana split

Agora parecia definitivo. Há cinco anos havia encontrado um tufo de cabelos brancos no alto da cabeça. Olhou bem, chamou o namorado. Ele confirmou. Desgraçado. Ligou pra mãe, ela disse que quando encontrou seu primeiro fio já tinha 29 anos. Cinco anos de antecedência. Não pode ser. Pensou que aos 24 já tinha começado a se deteriorar. Depois disso a morte sempre lhe acompanharia, de perto, à espreita.

Foi ao cabelereiro e nada. A mocinha, simpática, não encontrou um único fio. Olha bem, vai. Estou olhando, você não tem cabelos brancos. Certeza? Certeza. Melhor assim. Voltou pra casa, procurou, procurou, e nada. Chamou de novo o namorado. Que estranho, semana passada eles estavam aqui, agora não estão mais. Bendito. Deu-lhe um beijo e se esqueceu da morte.

No último ano passou a procurar novamente. Pressentia. Todos os dias de manhã olhava no espelho, revirava o cabelo. Sabia que o primeiro fio viria bem perto da testa, com a mamãe é assim, aquele branco que vem vindo pertinho da pele. Às vezes encontrava algo suspeito, olhava, analisava e por fim se sentia vencida: era apenas mais um fio louro nascendo fraquinho no início da testa.

Até que o dia chegou. Não foi preciso procurar. O fio despontava, sorridente, no mesmo lugar que ela procurava todos os dias, no canto direito da testa, bem início do cabelo. Não, dessa vez não era louro, era um pedaço branco num fio marrom. Era um fio já sem cor, já sem vida. Um fio sem esperanças.

Ela ficou calada o dia todo. Só contou ao marido na manhã seguinte. Ele quis ver, ela mostrou, ele não conseguiu enxergar. Maldito, agora você não enxerga. Olha bem, ele está aqui! E nada. Ela voltou-se ao espelho e de longe via o fio. O marido não via. Não lhe importava. A ela importava. Estava envelhecendo. O corpo já começava a dar sinais de rebeldia. A morte agora a acompanharia.

Ligou pra mãe, ela lhe lembrou que só encontrou o primeiro fio aos 29. Ela suspirou. Tenho apenas 28. Tenho apenas 28 e já estou envelhecendo. Desligou o telefone, se arrumou e foi à cidade tomar um sorvete. Já que se há de envelhecer e morrer, que pelo se aproveite a vida. Pediu uma banana split com calda dupla de caramelo. Depois disso ficou sorridente o resto do dia.

 

Conto publicado no site Mundo Mundano.

Fico à espera, de Davide Cali

CALI, Davide. Fico à espera. Ilus. Serge Bloch. Tradução Marcos Siscar. São Paulo, Cosac Naify, 2007. 56 páginas. Colorido.

Na Livraria Cultura é bem capaz que você só encontre este livro na seção de infantis. Se você é daqueles que passa ao largo desta seção, sinto dizer, vai perder a chance de conhecer um dos livros mais delicados que já li em toda minha vida. “Fico à espera” fala sobre o tempo e a vida – sobre o fio da vida. O novelo de lã sendo desenrolado é a metáfora presente em todas as páginas do livro e é a partir dela que o autor trabalha cada uma das fases da vida: desde a infância, passando pela adolescência e juventude até a velhice.

O personagem principal não tem nome. E não tem porque poderia se chamar Adriana, Gustavo, Regina ou Carolina. Podia ser eu, podia ser você. E podia ser você porque desde pequeno você espera: espera para nascer, espera a chuva passar, espera o bolo assar no forno, espera as férias, espera crescer, espera encontrar a pessoa que você ama. Bom, e depois que encontra a pessoa que ama, meu amigo, a espera só piora. É hora então de esperar o outro pedir desculpas, voltar de viagem, crochetar a roupinha do bebê. Depois do bebê, aí sim,  a vida vira uma odisseia. E a espera continua: pelas férias, pelas conquistas dos filhos, pelos netos.

É então que se percebe que a vida passou de tanta espera, e já se está velho, e de tão velho resta pouco o que esperar: o fim da doença, a visita dos filhos, o funeral. E nesse momento, em que descrevo essa cena, me vejo de olhos marejados de novo. Nem estou lendo o livro, só estou me lembrando dele, e me emociono. Fico à espera é assim, de fazer chorar, chorar por nada, chorar de lembrar. Sem dúvida alguma é um livro essencial. Não se deixe enganar pelo catálogo, ele deve ser lido por qualquer um, indepedente da idade.

O amor perdido na cidade

Enquanto a sirene da ambulância ressoava três ruas abaixo, os transeuntes levaram tudo que era dela. Sem vida, ela não era mais capaz de proteger seus pertences e ia se despredendo a cada momento. Não podia mais se agarrar ao ventilador que carregava quando um velho veio pegá-lo. Fazia muito calor naquele verão em São Paulo e ele faria melhor proveito que ela do eletrodoméstico. Ela já não tinha o que refrescar.

Levaram também seus colares. Nem eram joias, mas foram presente de uma amiga. Vieram do Pará, diz-se que eram capazes de proteger. Não havia mais o que proteger, talvez nem mesmo tivessem serventia, talvez não funcionassem. Levaram.

Passou por ali uma moça jovem, da idade dela, quase. Vendo o corpo, pensou que aquela seria a pessoa ideal para uma nova identidade. Era um pouco como ela, magra, cabelos castanhos lisos, rosto arredondado. Tão parecida poderia, ainda, ser bastante diferente. Talvez não tivesse o nome sujo, talvez trouxesse bons antecedentes criminais. Levou os documentos. Serviriam para alguma coisa.

Um malandro olhou para a moça estirada, num segundo notou a aliança na mão esquerda, lamentou a viuvez alheia, com um beijo sincero levou o anel e o resto de dinheiro que a moça trazia na carteira.

Quando já soava a sirene da ambulância, passou pela moça uma senhora, percebendo que ainda trazia os olhos abertos, se aproximou, olhou fundo seu olhar e tomou para si o resto de amor e felicidade da expressão ainda viva da moça morta. Passou a mão pelo seu rosto, fechou-lhe os olhos e se foi, levando sua alegria. Ela não precisa mais dela.

Já no IML o viúvo tentava reconhecer o corpo da mulher. Não reconhecia. Não via nada nela que lhe lembrasse aquela que tanto amava. Nada lhe lembrava o que tinham vivido, todo o amor, toda a alegria. As lembranças. Nada. Levaram tudo. Tudo.

Ele continuava procurando. Procurava por ela nas ruas, nos bares, nas escolas. Seguia sua vida procurando. Não sabia bem o que procurava. Não sabia mais como era seu rosto, seu cheiro, o sabor de seu corpo, sua risada. Não sabia mais. Ainda assim procurava.

Certo dia, num ponto de ônibus, pediu informações a uma senhora. Se assustou com a familiaridade de sua voz. Olhou em seus olhos e reconheceu toda a alegria que uma dia tinha vivido. Se apaixonou, em apenas um minuto ele se apaixonou. Era ela. Era ela a única mulher que ele amou e amaria na vida. Ainda ali, no ponto de ônibus, pediu em casamento a velha senhora. Ela sorriu, nervosa. Ele disse que tinha pressa, que não poderiam perder muito tempo mais.

A senhora, desacostumada ao amor, aceitou. Ele, ainda jovem, cuidou da senhora e a fez feliz por muito tempo. Morreram os dois, depois de muitos anos, velhos e felizes, agarrados na alegria que era a vida deles, que desde sempre havia sido a alegria dos dois.

Texto publicado em Mundo Mundano.