Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Dezembro, 2012

Álbum de fotografias

Foi aos dezoito anos que comecei a contar a minha história. No lugar da antiga agenda de menina, cheia de clips coloridos, tickets de cinema, canetas fosforescentes, dei início à escrita de um diário. Com certo receio de ser tida como menina ainda, a dizer as coisas bobas e boas de menina, contando ao diário sobre o menino que lhe ofereceu uma flor.

Dia desses ouvi que pessoas tiram fotos para se lembrarem, um dia, do que foram. Medo do tempo. As fotografias seriam um bálsamo a nos lembrar que nem sempre fomos velhos, que nem sempre fomos cansados, que nem sempre fomos sozinhos. Medo do tempo. Medo daquilo que a vida vai nos tirar, medo do que seremos quando restarmos sem beleza, sem energia, sem coragem. Tiramos fotos de tanto e de tudo para nos convencer que fomos felizes e que a vida foi, sim, muito boa.

Eu não sei de fotografias mas sei do medo do tempo. Me faltam álbuns de foto mas minhas estantes estão cheias de meus diários a me contar o que um dia eu fui. São meus diários que me contam. E me contam de um jeito diferente. No lugar da foto da menina um pouco ingênua e sonhadora, leio sobre alguém que foi aos poucos perdendo a fé e encontrando as certezas que de certa forma procurava. No lugar do linha do tempo que conta os amigos que tive, as festas, as comemorações, leio aqui e ali sobre as dores de ter ao longe as pessoas que amei e que não me amaram, não do jeito que eu gostaria então.

Ao ver fotografias minhas de dez anos atrás sinto um pontada de tristeza, um medo do que virá, e acredito às vezes que o tempo é mesmo cruel. Mas meus diários me dizem coisa diversa. Eles me lembram que eu amadureci e que hoje, essa que escreve hoje, é sem dúvidas melhor e mais forte e mais Adriana do que aquela que escrevia no início do presente século. É a voz da Adélia ressoando que vinte anos a menos só fariam dela uma mulher mais jovem, nunca mais amorável. Nunca mais amorável.

Pelas fotos eu não sou capaz de reconhecer quem eu era, nunca sei bem quais tristezas o sorriso para a objetiva escondia. São meus diários que me relembram os meus segredos, são eles que me dizem quem eu fui e indicam, às vezes, caminhos para entender quem eu sou hoje, essa de hoje, mais amorável, sem dúvida.

Dez anos a mais certamente me farão ainda mais bem do que esses já vividos.  Poderei escrever melhor, sem dúvida. Poderei estudar mais aquilo que me intessa tanto. Terei conhecido ainda mais lugares e possivelmente serei um pouco mais generosa comigo e com os que me rondam. Porque tudo isso é movimento, e para haver movimento é preciso tempo. E é isso que a fotografia não permite. E é por isso que continuo pedindo câmeras fotográficas emprestadas, já que prefiro desenhar com as palavras aquilo que a imagem na frente dos meus olhos me reserva. E os meus diários continuam sendo, para mim, como um precioso álbum de fotografias a contar os dias e as belezas da minha vida, a contar sobre o menino que um dia me ofereceu uma flor.

Sete e trinta

Aquele era um grande dia. Há quanto tempo não lhe chamavam para bancas mais? Não se lembrava. Havia se preparado por dias para falar naquela ocasião. Ansiosamente. Ali era diferente, ele não havia se inscrito para um congresso, como sempre se faz no mundo acadêmico. Ele não havia proposto uma mesa, um debate. Não. Ele havia sido convidado a avaliar o trabalho de um colega, um colega que ele admirava, um colega que havia dito coisas que ele mesmo gostaria de ter dito. Lembraram dele.

Era ele o mais velho da mesa. Seus colegas, mais jovens, falavam ainda com vigor, ainda com certezas, citavam autores, mexiam com as mãos. As mãos. Suas mãos ficavam sempre debaixo da mesa, sobre os joelhos. Ali estava bom, a mesa estilo colonial escondia as pernas e escondia suas mãos apoiada sobre suas pernas. Os colegas gesticulavam. Ele olhava para suas anotações, olhava para o colega sentado à frente, sendo avaliado. O que diria a ele? Suas anotações, ao final, faziam algum sentido?

As mãos sobre as pernas, o colega dizendo que estaria encerrando, estava chegando sua vez. Ele passaria, então, a falar sobre coisas que falou por toda a vida, os autores que estudou, as descobertas, as conexões entre diversas teorias, aquilo que se leu, aquilo que se viveu, aquilo que se percebeu do que os outros viveram, leram e perceberam. Fazia sentido? Foi preciso trazer as mãos para cima da mesa, virar os papéis onde havia feito anotações. As mãos trêmulas. Ele podia mudar o tom da voz, falar algo quase esbravejante, tirar o foco das mãos, levando a plateia a perceber apenas o timbre, o som. Talvez ninguém percebesse sua dificuldade em virar o papel. Mas ele não sabia esbravejar. A vida toda, o mesmo tom de voz. Feliz, triste, com raiva, com doçura. O mesmo tom. E agora, já velho, as mesmas mãos tremulantes.

Ele parabenizou o colega avaliado, confessou, de maneira sincera como o colega jamais conseguiria acreditar, que ele gostaria de ter descoberto o que o outro descobrira, que ele gostaria de ter escrito o que o outro escrevera. Enquanto confessava o inconfessável, escondia novamente as mãos embaixo da mesa, pensando se tudo aquilo fazia sentido. Aquela sala, aquela mesa, aquela banca, afinal, tinha sido toda sua vida. Aquilo que se estudou, aquilo que se leu, aquilo que se viveu, aquilo que se percebeu.

Terminada a banca, os colegas o convidaram para um confraternização. Ele estava cansado. Ele estava muito cansado. Na confraternização talvez não conseguisse esconder as mãos debaixo da mesa. Talvez não conseguisse falar sobre tudo o que viveu. Talvez só desejasse falar sobre o que não viveu. Fazia sentido? Aquilo fazia sentido?

Ele voltou, então, para o hotel, deixou a mala arrumada e pediu à recepção que o chamassem à cinco da manhã. Seu voo era as sete e trinta, e ele retornaria, então, à sua universidade e aos seus alunos, onde continuaria falando sobre o que se leu, o que se estudou e o que se viveu por tantos e tantos anos de sua vida.

Correnteza

Havia chovido muito e a rua detrás de casa estava inundada: a água que corria entre o meio fio e o asfalto se parecia com um rio ao meus olhos de menina. Aos meus olhos e aos do meu irmão. Não nos arriscávamos naquele rio, ficávamos na beira, olhando, olhando. Tudo parecia grande e profundo, e o medo de enviar o pé num caco de vidro – as palavras de minha mãe ressoando em nossas mentes – nos impedia de adentrar a corrente.

Até que avistamos um pardal, pequeno, pequenino, lutando contra a correnteza. Frente a uma criatura tão frágil lutando tão bravamente para sobreviver, esquecemos, meu irmão e eu, dos dizeres de minha mãe, adentramos a enxurrada e andamos na direção do pobre pardal. Eu o peguei nas mãos, ou talvez meu irmão o tenha pegado, ele ainda se debatia, encharcado, tentando se livrar do nosso cuidado. Trouxemos o pequeno pássaro para dentro de casa. Não me lembro ao certo, mas tenho quase certeza de que minha mãe olhou repreensiva a princípio, mas aos poucos se deixou amolecer pelo nosso cuidado com o pequeno bichinho. Ela mesma foi até o quarto, trouxe o secador de cabelo, uma caixa de sapato e uns pedaços de jornal. Ela não nos mandou direto pro banho, mas deixou que a gente cuidasse do nosso mais novo amor.

E cuidamos. Cuidamos com cuidado, cuidamos com amor. Amor de criança que ainda não sabe como cuidar, que exagera, que estraga. Secamos o bicho, acariciamos o bicho, lhe preparamos uma cama e uma casa, talvez tenhamos deixado até um pouco de comida para ele. Mas criança não sabe o que pássaro come, e não me lembro exatamente como tentamos matar a fome do nosso novo animalzinho de estimação.

Fomos, então, dormir, felizes, satisfeitos da nossa missão. Meu irmão e eu dormíramos heroicos, havíamos salvado uma vida, por mais pequenina que fosse. Cuidamos de um ser pequeno que precisava da gente, antes de qualquer coisa, ele precisava da gente.

Mal amanheceu, meu irmão me chamou na cama e fomos juntos velar pelo nosso animalzinho. Chegamos silenciosos e afoitos ao mesmo tempo, numa ansiedade daquele que erra ao tentar fazer tudo da forma mais perfeita. Nosso cuidado, no entanto, não fazia mais sentido. O bicho já estava morto na caixa, quase endurecido. Eu não vi nos olhos do meu irmão a mais leve tristeza. Ele, por sua vez, não pôde perceber a minha profunda frustração. Pedimos à nossa mãe a enxadinha de meu pai, fomos até o quintal, cavamos um buraco e ali fizemos o enterro do pequeno animal.

O quintal, hoje, não é mais o mesmo. Eu não seria capaz de adivinhar onde está enterrado o nosso primeiro pássaro. Mas sei que ali, atrás da minha casa, foi velado, pelos meus olhos de criança, o meu primeiro amor, o meu primeiro cuidado. E a cruz de gravetos que durou apenas um dia sobre o pequeno túmulo improvisado me faz lembrar que não basta apenas cuidado, sendo preciso muito mais desejo para encontrar as respostas para tanto enigma que a vida carrega em si.