Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de alegria

Sinto saudades de você

Sinto saudades dos apelidos que você inventava para todos os nossos amigos, principalmente, sinto saudades do apelido que você inventou para mim.

Sinto saudades do seu sorriso em boca larga dizendo que não acreditava na novidade que eu acabava de trazer da rua. Ainda hoje consigo lembrar da melodia da sua frase, que era e foi sempre só sua. Ainda te ouço dizer “não acredito!” do jeito mais lindo que se pode fazer.

Sinto saudades de quando lágrimas gordas caíam de seus olhos e eu me sentia numa intimidade que jamais imaginara, ali, num cinema qualquer na Avenida Paulista. Cada lágrima me fazia acreditar que eu podia ser sua amiga.

Sinto saudades de quando eu imitava o seu jeito de falar porque assim eu me sentia mais próxima de você. Sinto saudades de quando tudo o que eu desejava era estar sempre e um pouco mais mais próxima de você.

Sinto saudades de me sentir a Marilyn Monroe, simplesmente por estar ao seu lado, simplesmente porque você me dizia isso a todo instante. Sinto saudades quando eu, simples, era capaz de acreditar nisso.

Sinto saudades da forma inocente de quando desejávamos mal ao nosso chefe.

Sinto saudades de ouvir você contar de namorados como se contam os dedos da mão.

Sinto saudades de você chegando descabelada em casa, como se o mundo tivesse te recusado a vida naquele dia, e você tivesse lutado bravamente para sobreviver a ele e merecesse, antes de mais nada e acima de tudo, o nosso elogio.

Sinto saudades das cidades que planejamos ir juntos e nunca fomos.

Sinto saudades do seu olhar atento e sério quando eu brotava em choro e não continha minha tristeza. Sinto saudades da paciência com que você me tratava mesmo quando eu te atacava, desconfiada da sua lealdade.

Sinto saudades da alegria que eu sentia quando você vinha de outra cidade só para me ver. Sinto saudades do cheiro da rodoviária, que nunca mais se repetiu.

Sinto saudades de tanto, e o que é possível é fazer com que você saiba que sinto saudades. Sinto saudades de você.

Velhas, caducas e amantes

Sim, é preciso ser mais feliz. Não é de bom tom ficar triste demais por longo tempo. É preciso ser feliz. É preciso fazer algo, sair do lugar, tomar novos ares, espantar a tristeza. É preciso ir à praia, comprar uma câmera fotográfica, beber um licor bem colorido, ver o pôr do sol. É preciso ser feliz.

E para isso é preciso, talvez, fazer novos amigos, reencontrar os antigos, experimentar novos cafés, ler um livro com cheiro de novo, ser o último a sair da festa. É preciso esquecer os velhos problemas, que de tão velhos já ficaram caducos.

E no meio de tanta alegria a tristeza ainda espreita. Fica na esquina olhando o vento nos bater ao rosto e ri do cabelo em alvoroço. Sabe bem, a senhora tristeza, que os problemas continuam ali, velhos, caducos, mas companheiros. Sabe ainda que a festa não trouxe os velhos amigos de volta e o coração ainda soluça em meio à multidão.

É a tristeza quem nos aguarda em casa, sozinhos à noite, e nos faz companhia. Paciente, ela espera o fim da festa, o fim dos brindes, e nos acolhe no silêncio que resta depois do último gole. E quando nos enganamos, acreditando mesmo que estamos sendo felizes, ela se cala, nos deixa acreditar na felicidade por uns instantes, uns instantes apenas.

E só quando paramos de buscar a alegria a todo custo é que a senhora tristeza nos sussura ao ouvido que é ela quem dá a mão para a felicidade, e que só saberemos ser felizes se aprendermos a conviver com essas duas senhoras, velhas, caducas e amantes.

Despedida

Amanhã quando eu acordar você não estará mais conosco. Nos últimos dias já era possível pressentir a sua partida: seus olhos baixos, seu silêncio, sua fraqueza. Os dias estavam quentes, os pernilongos voltaram as nos perturbar o sono. O céu já não reluzia do azul frio e brilhante dos seus melhores dias. Mas amanhã, definitivamente amanhã, você não estará mais conosco.

E antes de sua partida já pressentimos a chegada de uma senhora gloriosa. Senhora que de tão velha não envelhece nunca. Senhora perfumada de perfume da terra e colorida de cores inomináveis. Senhora que não se esconde, que não aceita tristezas, que fala da vida e cobra da vida que lhe sirva de espelho. E na presença desta senhora tão garbosa nos esqueceremos completamente de você.

Nesta nova presença tudo é fala, é dança, é diálogo. O que era cinza se torna chumbo, chão, terra, flor, fruta, vitamina, alegria. O que era silêncio na sua presença se transforma em nada, nem mesmo em lembrança. Tão logo você se vai e nos esquecemos de você.

Mas hoje, ainda, você está aqui. Trazendo chuva, trazendo umidade, refrescando meus olhos secos, me saciando de melancolia, me aquecendo com o crepitar da madeira no fogo. E é só nesses dias que me alimento de silêncio, que relembro que também sou terra, que me transformo a cada estação e que me reencontro contigo sempre a cada ano, no mesmo silêncio, na mesma reconstrução, no mesmo esconderijo da terra quando fujo do frio e me protejo, silenciosamente, no calor da solidão. Vá, meu amigo. Estarei te esperando no próximo ano, na próxima temporada, com um cobertor nos ombros, uma taça de vinho na mão, e um nó apertado no coração.

Banana split

Agora parecia definitivo. Há cinco anos havia encontrado um tufo de cabelos brancos no alto da cabeça. Olhou bem, chamou o namorado. Ele confirmou. Desgraçado. Ligou pra mãe, ela disse que quando encontrou seu primeiro fio já tinha 29 anos. Cinco anos de antecedência. Não pode ser. Pensou que aos 24 já tinha começado a se deteriorar. Depois disso a morte sempre lhe acompanharia, de perto, à espreita.

Foi ao cabelereiro e nada. A mocinha, simpática, não encontrou um único fio. Olha bem, vai. Estou olhando, você não tem cabelos brancos. Certeza? Certeza. Melhor assim. Voltou pra casa, procurou, procurou, e nada. Chamou de novo o namorado. Que estranho, semana passada eles estavam aqui, agora não estão mais. Bendito. Deu-lhe um beijo e se esqueceu da morte.

No último ano passou a procurar novamente. Pressentia. Todos os dias de manhã olhava no espelho, revirava o cabelo. Sabia que o primeiro fio viria bem perto da testa, com a mamãe é assim, aquele branco que vem vindo pertinho da pele. Às vezes encontrava algo suspeito, olhava, analisava e por fim se sentia vencida: era apenas mais um fio louro nascendo fraquinho no início da testa.

Até que o dia chegou. Não foi preciso procurar. O fio despontava, sorridente, no mesmo lugar que ela procurava todos os dias, no canto direito da testa, bem início do cabelo. Não, dessa vez não era louro, era um pedaço branco num fio marrom. Era um fio já sem cor, já sem vida. Um fio sem esperanças.

Ela ficou calada o dia todo. Só contou ao marido na manhã seguinte. Ele quis ver, ela mostrou, ele não conseguiu enxergar. Maldito, agora você não enxerga. Olha bem, ele está aqui! E nada. Ela voltou-se ao espelho e de longe via o fio. O marido não via. Não lhe importava. A ela importava. Estava envelhecendo. O corpo já começava a dar sinais de rebeldia. A morte agora a acompanharia.

Ligou pra mãe, ela lhe lembrou que só encontrou o primeiro fio aos 29. Ela suspirou. Tenho apenas 28. Tenho apenas 28 e já estou envelhecendo. Desligou o telefone, se arrumou e foi à cidade tomar um sorvete. Já que se há de envelhecer e morrer, que pelo se aproveite a vida. Pediu uma banana split com calda dupla de caramelo. Depois disso ficou sorridente o resto do dia.

 

Conto publicado no site Mundo Mundano.