Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Maio, 2012

Enquanto te espero

Prefiro não olhar o relógio. Fico antes com o presságio. Só mais uns instantes e você vai dobrar a esquina, fazer soar a buzina, baixar o vidro do carro e sorrir para mim, um sorriso inteiro só para mim. Não é preciso olhar o relógio, eu posso adivinhar os minutos.

A esquina permanece. A mão adivinha o feixe da bolsa, tateia, separa caixa de óculos, carteira, batom, chaves, analgésico, chicletes e então agarra o celular no mesmo instante que um carro prata dobra a esquina. A mão larga o celular. Apesar da cor, o modelo não confere. A esquina permanece e a mão volta a tatear até encontrar novamente o celular. Eu não iria te ligar, queria apenas ver as horas. Desisto. Prefiro o presságio.

Devolvo o telefone na bolsa e libero minhas mãos da procura. O dedão da mão direita começa a esmagar as falanges dos outros dedos. Estalam. A mão esquerda copia. Estalam todos os dedos. Olho para o fim da rua só para poder olhar de novo a esquina e me surpreender com a sua chegada. Você não chega.

Reparo nos meus sapatos. Um pouco arranhados. Esfrego a planta do pé na panturrilha. Melhora um pouco. Me dobro sobre as minhas pernas e esfrego com as mãos o bico do sapato. Agora sim, agora tá novo. Olho para a esquina e nada. Volto para o bico do sapato e percebo uma moeda caída na calçada. Não gosto de me baixar para pegar moedas. É constrangedor. Mas a moeda é graúda, dá para comprar um café. Olho para a esquina, olho para a moeda. Olho para os lados, não vem ninguém. Abaixo e agarro a moeda.

Você não chega. Não quero olhar o relógio, mas, pelo meu presságio, você está bem atrasado. Quanto? Dez minutos? Quinze? Não tem problema. Eu sei esperar, não sou ansiosa. Não sou ansiosa. Será que você entendeu errado o lugar que a gente combinou? Melhor ligar. Não vou ligar. Não sou ansiosa. Eu sei esperar. E se aconteceu algum acidente? Será? Melhor ligar. De novo a mão, o feixe da bolsa, a caixa de óculos, a carteira, o batom, as chaves, o chicletes e por fim, o celular. Espera só mais um pouco, lembra? Você não é ansiosa. Você não é ansiosa.

Do outro lado da rua vem vindo uma senhora acompanhada de uma menina pequena, segurando uma boneca numa mão e um saco de pão na outra. As duas conversam. A menina faz perguntas para a senhora, a senhora responde, as duas sorriem sem diminuir o passo. A menina usa sapatos vermelhos, parecidos com o meu. A senhora usa chinelo de couro. Elas passam por mim, a senhora sorri e por um instante eu me esqueço da sua espera.

Quando me volto para a rua, lá está você, o vidro aberto, um sorriso inteiro só pra mim. Entro no carro e ouço você me perguntar se eu não tinha te visto. Não, não vi. Esperou muito? Não, acho que não, nem sei. Você acelera e me leva para algum lugar onde não importam mais nem os minutos nem os presságios.

Anúncios

Grão de mostarda

Eu fui uma criança religiosa. Acreditava em Deus-Todo-Poderoso, ia à igreja, dava o dízimo de tudo o que recebia. Ainda assim, cometia um grande pecado: me faltava a fé. Eu acreditava com toda força de criança naquilo que a Bíblia dizia, confiava no amor generoso de Deus-Pai, repetia que Jesus era o Deus-Filho mas não era capaz de ter a fé que esperavam que eu tivesse. E quanto mais entendia que me faltava fé, mais me entranhava na igreja: fazia orações, pedia perdão por tudo, prometia a cada dia ser uma criança melhor, mesmo assim, minha fé parecia não aumentar.

Vez ou outra eu a testava: me colocava num lugar em que pudesse avistar uma montanha, qualquer que fosse. Fechava os olhos, dizia ao Deus-Todo-Poderoso que eu acreditava que ele era sim, Todo-Poderoso, e que por isso, poderia fazer aquela montanha mudar de lugar. Ainda de olhos fechados eu pedia perdão a Ele por minha fé tão miúda e repetia seguidas vezes que sabia que Ele compreenderia a minha carência, afinal, seria preciso tão pouco desta fé, era certo que Ele faria o que Lhe cabia – quem mudaria a montanha de lugar era Ele, e não a minha fé.

Eu ainda permanecia com os olhos fechados por um tempo. Titubeava. E se a montanha ainda estivesse lá? Se nada ao meu redor tivesse mudado? O que eu faria? Eu estaria derrotada, mais uma vez derrotada, apesar da leitura bíblica diária, das orações antes da sete da manhã, do dízimo, do perdão que pedi à coleguinha (mesmo que fosse ela a errada). Nada teria ajudado a aumentar a minha fé se a montanha ainda estivesse lá.

E estava. Intacta. Eu, mais uma vez, humilhada dentro de mim, envergonhada frente ao Todo-Poderoso. Ele me testava, pedia mais fé. Eu não sabia o que fazer. Fui então crescendo e passei a entender o que era dito na Bíblia como boas metáforas e não como verdades absolutas. Não era preciso, afinal, mover uma montanha para ser uma pessoa boa, amada, com bons sonhos e bons amigos. A questão das montanhas não me incomodou mais. Até semana passada, quando um novo fato veio derrotar de vez o que restava de minha fé.

Todas as semanas pego a estrada que me leva de Minas a São Paulo. Bem no meio do caminho há um lago enorme à direita, que só pode ser visto por cinco segundos a uma velocidade de 90km por hora. É quando piso no freio, dou seta para a direita, abro a janela e observo o meu lago predileto. Quando ele desaparece atrás de uma montanha eu sinto que estou sorrindo. Subo o vidro da janela e sigo viagem.

Nesta semana, no entanto, quando diminuí a velocidade ao me aproximar do lago, percebi que não era mais possível enxergá-lo: havia uma montanha na frente da paisagem. Uma montanha que não estava ali na semana anterior. Uma montanha que se moveu, me tirando a possibilidade de ver o lago e de acreditar que a fé seria apenas uma metáfora. Alguém muito mais fervoso que eu havia conseguido, afinal, mover uma montanha.

O que me derrotou foi perceber que essa pessoa fervorosa ainda estava em plena ação de fé: caminhões e mais caminhões de terra encontravam-se parados na pista, jogando toneladas de montanha na frente do meu lago. É certo que essa pessoa não fez uma oração, não fechou os olhos e pediu a Deus que Ele movesse aquela montanha. Não, ele chamou o engenheiro subchefe ao seu escritório, no vigésimo andar de um edifício na Avenida Berrini e lhe disse: “Por favor, construa um viaduto na altura do quilômetro 68 da Fernão Dias, preciso ter acesso fácil à fazenda de pedras e calcário que temos do outro lado do lago”. Ao que o subchefe, cauteloso, responde: “Seria mais fácil construir uma ponte, mais barato, seria preciso pouca estrutura”, ao que o homem cheio de fé responde não, prefere um viaduto, ele quer espaço e boa estrutura para transitar caminhões pesados. O subchefe, insiste, dizendo que seria preciso fazer uma elevação com um volume muito grande de terra para suportar a estrutura de um viaduto. Ao que o homem simplesmente diz: “Faça”.

E assim a montanha foi movida, e o nome do Todo-Poderoso nem mesmo foi citado. E assim ando à procura de algum religioso a quem possa confessar a minha falta crônica e irrecuperável de fé, e ter alívio para os dias de culpa que se seguiram ao ocorrido.

Dos perigos de um bife à parmegiana

Aninha me ligou aos prantos, soluçava tanto que eu não era capaz de entender meia frase. Perguntei onde ela estava e entendi num grunhido que ela tinha se mudado para a casa da mãe. Fui visitar Aninha.

Quando entrei na casa encontrei Aninha desfigurada, descabelada, desconsolada. Aos poucos foi me contando que o marido tinha ido ontem almoçar em casa, e entre a salada e o bife à parmegiana, disse que havia se apaixonado. Aninha perguntou quem era ela. Ele disse que era a estagiária.

Com as palavras ainda soltas, Aninha me dava detalhes da estagiária: cabelo alisado, escova progressiva, decotes horrorosos, uma tal faculdade de caçar marido, abusadinha, se insinua pra qualquer um, usa a desculpa do pai alcólatra para se fazer de coitadinha. E eu ainda sem saber o principal: estavam juntos? Estavam tendo um caso?

Aos poucos fui entendendo que o almoço tinha ficado pela metade. Tão logo o marido confessou sua paixão, levantou e saiu. O bife quase intacto no prato. Nem mesmo a Aninha sabia se ele apenas se apaixonara, se se encontravam cotidianamente, se estavam juntos agora, nesse exato momento. Nada.

Aninha não teve tempo de perguntar se ele voltaria para o jantar, se voltaria para o aniversário de seus pais no final de semana, se voltaria, enfim. Com medo da resposta para a pergunta que ficou calada, Aninha juntou suas coisas e se mudou para a casa da mãe, não teria assim que enfrentar o vazio do apartamento no final do dia. Tampouco teria que encarar o marido chegando no entardecer, aquele cretino, apaixonado, cara de bobo, voltando para casa, para dormir comigo? Nem morta!

Como ainda não tinha planos, Aninha ficaria na casa da mãe por uns dias, iria até o apartamento no meio da tarde para buscar o resto das roupas, não queria encontrar o marido. E depois? Depois veria o que fazer.

Quando deixei a casa de Aninha eu tinha o peito repleto de raiva. Como o marido da Aninha foi capaz de uma cachorrada dessa? Como ele pode dizer para ela, assim, impunemente, entre um alface e um pedaço de bife, que se apaixonara pela estagiária? O que essa ordinária tem de tão especial, afinal? O que nela fez com que ele saísse daquele mundinho confortável de casamento, Aninha, trabalho e casa bem arrumada?

Enquanto dirigia para a casa, só trazia na mente a imagem da tal estagiária: cabelo alisado, decotes insinuantes, pai alcólatra, chorando as dores do mundo no cólo do marido da Aninha. Faculdade mediana, belas pernas, talvez. Mas no que essa tal estagiária seria melhor do que eu? Por que por mim ele não foi capaz de abandonar a Aninha? Por que por ela e não por mim? Ah, se eu encontro aquele ordinário do marido da Aninha, ah eu mato! Mato os dois, ele e a estagiária dele. Mato.

 

Conto publicado no site Mundo Mundano.

Depois dos 90

– E esse, pra que serve?

– Esse é para suavizar as linhas de expressão.

– Aqui não diz que é para mulheres com mais de trinta?

Dizia. Mas ela já usava. Faltava pouco para os trinta, já tinha deixado para trás os vinte e cinco. Preferia, ainda assim, os cosméticos mais fortes, acreditava que eles teriam mais efeito. Olhava para ele de soslaio.

– Esses dois são para suavizar linhas de expressão, mas um é para o dia, outro é para a noite. Eu nunca soube porquê. Por que será? Você faz ideia?

– Não sei. Será que o da noite não fixa mais, não pode ser?

– Como assim?

– Bem, de noite, você fica com a cara no travesseiro, vai se esfregando, o creme da noite deve ser mais gosmento, não é não?

– É, acho que é. Você deve ter razão.

Era a primeira vez que ele a via passando cremes noturnos. Sempre se encontravam em restaurantes, bares. Às vezes iam caminhar, fugiam até à praia. Ela sempre linda. Maquiada ou não. De salto, havaiana, cabelo marcado de tanto deixar preso, cabelo liso ou ondulado, de escova, bobs, coque.

E naquele momento, em que ele confabulava para ela sobre as diferenças entre o creme diurno e noturno, sentia dentro de si uma alegria amarelada, todo o ambiente se amarelava, e aquela intimidade, pela primeira vez. Aquela intimidade pela primeira vez. E ele nem mesmo se sentia mais ridículo ao dizer tantas coisas ridículas sobre os cremes que ela usava. Ele falava, falava qualquer coisa, perguntava os detalhes de um, de outro, por que esse? E esse? Mas por que tantos? O dos olhos é diferente do que você usa para o pescoço?

Ela achava engraçado. Nunca imaginou que ele se interessaria tanto por cosméticos. Será que ele acredita que eu não sou mesmo bonita, e que realmente preciso de tudo isso? Jesus. Ele acredita. Eu estou sendo ridícula. Ou será que ele é gay? Se calou.

Em silêncio, ele ainda olhava para ela. Amarelada. Tudo amarelado. Era a primeira vez que ele a via, assim, amarelada. Usando seus cremes cotidianos, se preparando para ir dormir. Dormir com ele, que estava ali, do seu lado. Nunca dormira antes ao seu lado. E ela se preparava.

Ela duvidava. Ele a amava. Ela guardou os cremes, apertou o laço do roupão. Entimideceu. Ele, confiante, disse que ela era a mulher mais linda do mundo. Ela disse que logo faria trinta. Ele disse que a amaria até os 90. Depois disso, iria embora, ah, iria embora. Ela sorriu. Ele a beijou.

 

Conto publicado em Mundo Mundano.