Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de envelhecer

Redemoinho

Não, não. É mentira que o tempo voa. Não para quem tem saudades. Não para quem tece, diariamente, fios de espera. Há anos observo minha cerejeira, nos fundo de casa, sozinha no jardim. Levou tempos para fazer brotar uma flor. Uma única flor, pequenina. Nada passa depressa demais. O que envelhece é o seu celular, o modelo do seu carro novo. Minha vida não envelhece.

Encontro velhos conhecidos e ouço que eles me conheceram quando eu era assim, desse tamaninho. Sussuram então, no meu ouvido, que estão ficando velhos. Eu respondo que não. Eu respondo que somos todos, ainda, desse tamaninho. E a vida é tão lenta, e a vida é tão boa. E eu me contorço de saudades, e eu me preencho de espera.

Encontro, também, aqueles que sempre foram menores que eu. Eles eram os pequeninos. Estão hoje maiores, no tamanho e na coragem. Nos abraçamos e lembramos de quando eles eram apenas meus alunos. Agora não são mais. Estamos todos no meio do furacão, carregando sonhos e saudades. Tecendo a espera por aqueles que sempre serão mais pequeninos que a gente.

Não. O tempo não voa. O tempo, mesmo, ele nem existe. O que existe somos nós, corajosos e valentes frente à velocidade com que o mundo se movimenta, frente aos desejos imperiosos de estar aqui e estar lá, de ser um e ser mil. O que existe são pequeninos que crescem e nos ultrapassam, sorriem para nós, nos acenam de longe. E nos fazem lembrar que a vida, essa vida que nos cabe, é assim mesmo, cheia de movimento, cheia de alegria. Cheia de desejos de presença e carregada desses buracos da ausência. E a ausência é essa saudade. Não, o tempo não voa. É só o seu celular que envelhece depressa demais.

Canção para moça envergonhada

O que você esconde por trás destes seus óculos, menina? Vergonha de moça? Impressão de cansaço? Por que em todas as fotos que vejo não encontro seus olhos, menina? Há sempre uma lente escura que te escurece, um vidro temperado a te colocar bem depois do infinito.

Tira esses seus óculos, menina. Me deixa entrar em seus olhos, me deixa ver suas mágoas, o olhar triste, a ruga que desde já te acompanha. Me deixa perseguir seu olhar, menina, perceber onde seus olhos pousam, saber o que, no fundo, te chama atenção.

É sempre assim, menina, eu te olho e não sei para onde vão seus olhos. Nem sei se você ri, se chora. Não sei nada de você, menina. Seria melhor se esconder na maquiagem, no perfume, na dança de qualquer movimento. Mas não, menina, são sempre os mesmos óculos, óculos escuros, pretos, duros.

Tira esses óculos, menina. Me deixa entrar na sua vida, descobrir o seu sorriso, fincar em seu rosto mais uma história. Tira esses óculos, menina. Vem ver a vida sem instrumento. Vem ficar do meu lado e deixa eu pegar sua mão e perceber o que brilha no seu olhar. Deixa eu te ver, menina. Deixa eu te ver.

Banana split

Agora parecia definitivo. Há cinco anos havia encontrado um tufo de cabelos brancos no alto da cabeça. Olhou bem, chamou o namorado. Ele confirmou. Desgraçado. Ligou pra mãe, ela disse que quando encontrou seu primeiro fio já tinha 29 anos. Cinco anos de antecedência. Não pode ser. Pensou que aos 24 já tinha começado a se deteriorar. Depois disso a morte sempre lhe acompanharia, de perto, à espreita.

Foi ao cabelereiro e nada. A mocinha, simpática, não encontrou um único fio. Olha bem, vai. Estou olhando, você não tem cabelos brancos. Certeza? Certeza. Melhor assim. Voltou pra casa, procurou, procurou, e nada. Chamou de novo o namorado. Que estranho, semana passada eles estavam aqui, agora não estão mais. Bendito. Deu-lhe um beijo e se esqueceu da morte.

No último ano passou a procurar novamente. Pressentia. Todos os dias de manhã olhava no espelho, revirava o cabelo. Sabia que o primeiro fio viria bem perto da testa, com a mamãe é assim, aquele branco que vem vindo pertinho da pele. Às vezes encontrava algo suspeito, olhava, analisava e por fim se sentia vencida: era apenas mais um fio louro nascendo fraquinho no início da testa.

Até que o dia chegou. Não foi preciso procurar. O fio despontava, sorridente, no mesmo lugar que ela procurava todos os dias, no canto direito da testa, bem início do cabelo. Não, dessa vez não era louro, era um pedaço branco num fio marrom. Era um fio já sem cor, já sem vida. Um fio sem esperanças.

Ela ficou calada o dia todo. Só contou ao marido na manhã seguinte. Ele quis ver, ela mostrou, ele não conseguiu enxergar. Maldito, agora você não enxerga. Olha bem, ele está aqui! E nada. Ela voltou-se ao espelho e de longe via o fio. O marido não via. Não lhe importava. A ela importava. Estava envelhecendo. O corpo já começava a dar sinais de rebeldia. A morte agora a acompanharia.

Ligou pra mãe, ela lhe lembrou que só encontrou o primeiro fio aos 29. Ela suspirou. Tenho apenas 28. Tenho apenas 28 e já estou envelhecendo. Desligou o telefone, se arrumou e foi à cidade tomar um sorvete. Já que se há de envelhecer e morrer, que pelo se aproveite a vida. Pediu uma banana split com calda dupla de caramelo. Depois disso ficou sorridente o resto do dia.

 

Conto publicado no site Mundo Mundano.