Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Setembro, 2013

Satanás, de Mário Mendoza

Satanás, Mário Mendoza

MENDOZA, Mário. Satanás. Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2009. 279 páginas.

Quando terminei de ler o livro Satanás, de Mário Mendoza, achei que a vida não prestava. Fiquei desanimada, abatida. Tive que sair de casa, tomar um ar. Mas ao sair,encontrava com gente, e a gente toda me desanimava ainda mais. Voltei pra casa. Me fechei. Melhor ficar sozinha, tentando pensar que o mundo não existe, que não há maldade, não há violência, não há medo. Há apenas a segurança do meu lar, aqueles que amo, o cheiro do aconchego, a vida sem conflitos, sem dores, sem doenças.

O livro de Mendoza é diferente de outros colombianos que já li. É diferente, ainda, de outros livros que tratam a temática da violência, tanto colombianos quanto não colombianos. Primeiro, porque trata não da violência, mas da existência do mal. Por isso o nome, Satanás. O que rege a trama do livro são as histórias em que cotidianamente o mal trinfa, e triunfa em todas as esferas: na vida cotidiana de um padre caridoso, nas relações confusas de um pintor jovem e talentoso com sua ex namorada, nos sonhos de uma moça órfã que procura sobreviver na selva da sociedade colombiana. O mal triunfa na vingança, na culpa, na luxúria, nos ciúmes. O livro é uma falta completa de qualquer esperança.

Ler o livro de Mendoza me ajudou, no entanto, a compreender um pouco mais a natureza humana, ao tratar da ambiguidade do mal que existe em cada um. A vítima que se torna agressor, e que noutro momento se torna vítima novamente. Ninguém está a salvo. Nem de um lado, nem de outro. O agressor que implora para não ser torturado. A vítima que ri da covardia de seu agressor.

Todas essas questões se encontram mescladas nas diversas tramas presentes no livro Satanás. São três histórias aparentemente diferentes que culminam num único desastre: o livro de Mendoza se reporta a um acontecimento real na Bogotá dos anos 1980. Campo Elías, um reformado da Guerra do Vietnã, numa noite sai de seu apartamento, onde assassinou a mãe e pôs fogo no cadáver e se dirige a um restaurante de alto luxo num bairro de Bogotá. Lá, depois de jantar, ele saca seu revólver já armado e dispara contra os demais clientes. Quase 30 pessoas morreram neste massacre e quando a polícia chegou, o atirador supostamente se matou.

Essa história pode ser encontrada nos jornais da época. Mendoza conheceu o atirador, foi seu colega na faculdade. Ele afirmou em entrevistas que Campo Elías era um homem estranho, como todos eram na faculdade naquele tempo. Um pouco solitário demais, apenas isso. Mendoza levou mais de quinze anos para escrever o livro e conseguir resolver a história que ficou dentro de si. A narrativa, portanto, é o resultado de um esforço de Mendoza por contar a história que lhe coube, da maneira como a imaginou. Mendoza recriou as vítimas do massacre a partir de diversas personagens.

O incrível do livro de Mendoza, no entanto, é exatamente as personagens que ele recria e que transitam ao largo de Campo Elías, aparentemente a personagem principal do livro. Campo Elías seria um psicopata, um agressor definitivo. Não há nada de ambíguo nele, não se duvida do que ele seria capaz, ainda que o final do livro surpreenda pela capacidade do mal. As demais personagens, no entanto, vivem um cotidiano trespassado pela violência, transitando entre o bem e o mal, a certeza e a culpa, o amor e o ódio. Uma moça que foi violentada e que manda executar seus agressores, sente alívio com a morte deles e em seguida vai se confessar com um padre católico. Um pai de família que se encontra frente à mais vil miséria e executa suas filhas e esposa por não suportar mais vê-las em total sofrimento. Um padre caridoso que se encontra em constante conflito com sua sexualidade.

Apesar do final desastroso, do massacre no restaurante Pozzetto, são as personagens e seu cotidiano no decorrer da trama que experimentam o mal que ronda, que sussurra, que se apodera das pessoas. São essas personagens que vivenciam a falta de esperança, que lutam para sobreviver e para resistir ao mal.

Não é possível ler Satanás sem se sentir desanimado com a raça humana, sem se questionar sobre esse mal que ronda, que espreita. E depois, bom, aí é melhor tomar uma boa dose de cachaça, procurar ouvir uma música do Tom, ler Vinícius, pedir proteção a qualquer santo, acender uma vela, tomar um banho demorado e tentar pensar que a vida, pelo menos por alguns instantes, pode sim ser boa, e desejar, de coração, que ela o seja para o maior número de pessoas possível. 

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Não empreste seus ouvidos

Essa história que vou contar agora se passou com a minha vizinha. Bem que podia ser uma historinha da Mafalda, ou do Calvin, mas não, é uma história da minha vizinha. Pois a história é a seguinte: minha vizinha se encontrava na igreja e ouviu um bonito sermão do padre (ou seria pastor? Não me lembro…) em que ele dizia que devemos prestar mais atenção ao próximo, que só assim poderíamos contribuir para a construção de um mundo mais amoroso. O que chamou a atenção da minha vizinha foi que, em detrimento do que geralmente se ouve por aí, ou seja, é preciso amar o próximo e ponto, o padre, ou pastor, deu continuidade ao sermão e ofereceu algumas dicas de como prestar mais atenção ao próximo. A principal delas era emprestar o seu ouvido ao próximo, ou seja, ouvi-lo, se interessar pelos seus problemas, procurar saber se está bem, se está feliz, se enfrenta alguma dificuldade e por aí vai.

Minha vizinha, empolgada com as novas dicas de amor ao próximo procurou colocá-las em prática já na segunda feira. Assim que chegou ao trabalho não se limitou a dar bom dia à secretária do escritório, mas aproveitou a oportunidade para perguntar se estava tudo bem com ela, se ela havia conseguido fechar o financiamento na Caixa Econômica para comprar a casa própria (minha vizinha se lembrava de que na semana anterior a secretaria havia faltado ao trabalho para tentar resolver algumas pendências no banco). O rosto da secretária se abriu e ela contou à minha vizinha que ainda estava enfrentando sérias dificuldades, que achava que o gerente do banco estava de marcação com o marido dela, que ficou desempregado por apenas dois meses no ano anterior, mas já estava com carteira assinada e tudo mais. E tem mais, sabe que minha mãe está com um nódulo no seio? Ai, menina, estamos todos tão preocupados, e se for câncer, o que a gente faz? Eu sei, eu sei que agora o SUS oferece tratamento, mas a gente não sabe mais se dá continuidade no financiamento, se espera… minha vizinha olhou para o relógio, a reunião com o chefe começaria dali a pouco. Se foi e deixou a secretária ainda falando do provável câncer da mãe.

Apesar da notícia trista da secretária, minha vizinha ainda tentou emprestar o seu ouvido ao próximo. Perguntou à colega de trabalho como ela estava, se estava se adaptando ao novo tratamento que começara contra a gastrite. Também ali ouviu uma ladainha sem fim com nomes de remédios, endereços de consultórios e clínicas médicas, contra indicações de tudo quanto é tipo, a tristeza pela falta de apoio do namorado, que aliás, estava cada dia mais distante, acho que ele não gosta mais de mim, você acha que ele pode estar se interessando por outra pessoa? Minha vizinha não sabia, não sabia nada, na verdade.

Não era nem meio dia do começo da segunda feira, minha vizinha já se encontrava desanimada. Mas lembrava, de relance, das palavras do padre, ou pastor, e ficava mais convicta que emprestar seu ouvido ao próximo seria a melhor maneira de fazer desse mundo um lugar mais alegre, mais aconchegante. E continou. Até que no fim da semana ela já tinha ouvido sobre os problemas mais diversos, falta de dinheiro, dor de barriga, planos frustrados de viajar nas próximas férias, problemas que o filho tem trazido na escola, o irmão presidiário, o outro viciado, pais se separando, amores se desfazendo, carência, desejo, sonhos que se procura alcançar, pós graduação, demissão, até sobre dinheiro ganho na loteria e perdido no jogo minha vizinha ouviu.

Já na sexta feira, exausta de tanto ouvir, minha vizinha se deu conta de que durante toda a semana ninguém perguntou a ela como se sentia, ninguém se lembrou do seu problema com a avó, internada há tempos e quase se indo, ninguém a convidou para um café nem telefonou perguntando se gostaria de ir ao cinema. Ninguém se ofereceu para ir com ela na audiência de conciliação com a antiga faxineira.

Voltou no final de semana à igreja e lá procurou o padre, ou pastor. Disse que precisava de um ouvido emprestado. Ele então pediu a ela que marcasse um encontro para durante a semana, momento em que exercia a dura tarefa de ouvir os fiéis. Se virou e foi realizar suas tarefas urgentes, sabe como é, irmã, uma igreja inteira para cuidar não é coisa simples.

Sem nem ouvir o sermão, minha vizinha voltou para casa, percebeu a minha luz acesa, tocou a campanhia e me perguntou se poderia conversar. Ouvi dela as histórias da secretária, da colega, da mãe, do eletricista, ouvi ainda as histórias sobre sua avó, ela me contou como foi a audiência de conciliação com a ex-faxineira. Disse ainda que se sentia sozinha e que estava feliz por estar ali, conversando comigo, vizinhas e amigas de tanto tempo. Quando eu ia me levantando em busca de uma garrafa de vinho, para tomarmos juntas e assim eu lhe contaria da promoção que recebi no trabalho, minha vizinha se lembrou que aquele dia precisaria passar no hospital para a troca de plantão, chegaria uma nova acompanhante para a avó e ela precisaria lhe explicar tanta coisa… pediu desculpas por ter de sair às pressas e se foi.

E eu fiquei sozinha, eu e a garrafa de vinho. Sem ouvidos, sem carinho. Quem sabe na volta minha vizinha ainda percebe a luz acesa e entra para um resto de conversa, um resto de amizade, um resto de desejo de compartilhar momentos de silêncio, de olhar para o vinho e perceber as lágrimas que escorrem da taça e da alma da gente.