Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

O barulho do café

Como invejo aqueles que precisam de tão pouco para falarem de si. Basta encontrá-los num café, de sopetão, perguntar como vão, e quando nos damos conta, a pessoa já nos contou seus segredos mais íntimos: da desavença com o chefe à falta que sente do carinho do marido, da doença degenerativa da mãe aos problemas que o filho vem enfrentando na escola.

De tudo, o que mais me inveja, é a capacidade de falar de si sem se importar se o outro está de fato ouvindo. Enquanto a pessoa fala, fala, fala, nós disfarçamos, procuramos algo na bolsa, encontramos o celular, enviamos uma mensagem dizendo que encontramos uma “amiga” e vamos demorar um pouco. A pessoa não nota. Ela fala. Está tão ocupada em falar de si que não percebe a nossa falta de atenção, a nossa falta de interesse. Aproveitamos o estrondo da máquina de café, pedimos desculpas e saímos, dizendo que estamos atrasados para uma reunião que na verdade nem existe.

Invejo. Invejo porque minha alma, como a da maioria dos mineiros, é de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitento por cento de ferro nas almas. E meu coração se cala. Sim, eu também tenho problemas com o chefe. Sim, meu coração se dilacera pela ausência de carinho de tantos que eu amo e não me amam de volta. Sim, a doença ronda, ronda, mas não ataca. Eu me calo. A quem dizer tudo isso? Oitenta por cento de ferro nas almas. Se seus olhos não estão todos colados em mim, se há barulho, se o telefone toca, se bate um vento de esquina, como falar daquilo que sinto? Como ter certeza de que você me ouve?

Eu invejo quem fala de si sem se importar se existem ouvidos atentos para acolherem um resto de confissão. São pessoas que falam para si, capazes de conversar sozinhas por um longo tempo e ainda assim se sentirem acompanhadas. Eu não. Eu me calo. Eu me desacostumo. Eu desaprendo a linguagem. Eu mudo de assunto. Eu me esqueço quem sou. Muito ferro na alma. Mania de mineiro, de viver acabrunhado, quieto, calado, que de tanto matutar, esquece de dividir e compartilhar os restos de sofrimento.

Por isso invejo a amiga do café, na sua inocência de compartilhamento, no seu desejo sincero e não correspondido de também ser acolhida. Ela finge. Ela sabe fingir um acolhimento. Eu, mineira, ainda preciso aprender.

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