Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Fevereiro, 2014

Acerto de contas

Não, meu amor, eu não tenho culpa. Você sabe que foi você quem entendeu errado. Você sempre entende tudo errado, e eu, bem, eu sempre tenho que explicar tudo de novo. Às vezes eu consigo exercitar de forma magnânima minha paciência, mas às vezes eu estouro mesmo, e então, se você ouve mais do que deveria por um simples deslize, você sabe, a culpa, no fundo, no fundo, foi sua.

Eu não tenho culpa de ser disciplicente às vezes, aliás, eu jamais sou displicente, mais uma vez foi você quem entendeu errado. Eu estava ocupada, ocupada com os nossos sonhos, os nossos compromissos, eu tive que me ausentar, meu amor. Era para o nosso bem. Você sabe disso e ainda assim me cobra. E outra vez eu exercito minha paciência para te explicar que você entendeu errado, que na verdade tudo o que parece ausência é pura demonstração de amor da minha parte.

Mas você cobra. Você cobra amor, atenção, carinho. Quando é que deixei de ser carinhosa com você? Ah, mas naquele dia você provocou, não lembra? Você não lembra que eu fiquei irritada porque você começou a criticar, sem o menor argumento, aquele diretor de cinema que eu adoro? Você provocou! Você provocou tudo e depois ficou reclamando que eu não sou carinhosa com você. Percebe como você se engana nas avaliações que faz ao meu respeito?

Sem contar o tanto, o tanto que você erra e eu relevo. Eu relevo as roupas jogadas, os telefonemas não atendidos, as noites silenciosas, eu relevo seus esquecimentos, as datas importantes que você ignora, relevo suas piadas sem graça, seu comportamento às vezes inadequado, relevo suas opiniões rasas, relevo, acima de tudo, o quanto eu gostaria que você fosse e simplesmente você não é. Eu relevo.

Por isso, meu amor, eu não tenho culpa. Eu te amo e é você quem não entende nada. Sei que você às vezes procura remendar o tanto que me falta: você tenta me agradar exatamente por saber que eu, meu amor, não tenho culpa. Nessas horas só há um remédio: assuma que sou eu quem tem razão, sou eu quem segura as pontas dessa nossa relação, sou eu que sei o rumo. E por fim, assuma que foi você quem errou, me abrace e deixe que as coisas voltem ao seu lugar. Assim, meu amor, continuaremos felizes, como sempre fomos.

Música para tempos sombrios

A vida anda mesmo miserável. E não é só pelo calor insuportável que nos ronda há semanas, mas também por essas notícias terríveis da humanidade que os jornais televisivos e as redes sociais jogam aos baldes na nossa parca consciência de cidadãos. O homem anda mesmo terrível. É bomba pra lá, assassinato pra cá, preconceitos descarados, pai traindo filho por pedaço de pão, gente prendendo gente como se fosse bicho, gente prendendo bicho como se fosse algo razoável, gente torturando gente porque prende bicho como se fosse algo razoável.

Isso sem falar no preço das coisas. Alguém anda ganhando muito dinheiro às nossas custas. E a gente reclama da política e vai lá e paga tudo. O que se há de fazer? Quebrar tudo? Isso não. A vida anda mesmo muito miserável. É de se abrir os olhos de manhã e fechar de novo. Dá para esperar mais um pouco? Dá para voltar só amanhã, quando, quem sabe, o mundo estiver mais calmo?

Certa vez ouvi de uma senhora que ela gostaria, um dia, de pedir perdão aos filhos por tê-los colocado neste mundo tão sombrio. Aquilo me pareceu uma declaração profundamente triste. Verdadeira, mas triste. Me lembrei então de algumas feministas radicais que, em luta contra uma sociedade que objetifica o corpo da mulher e o controla para a reprodução, se recusam a ter filhos. É um tipo de luta, uma luta contra um mundo sombrio. Se tudo está tão ruim, é melhor não dar continuidade a tudo isso.

Se, por um lado, podemos estancar essa escuridão do mundo, corremos o risco, também, de dar fim à toda beleza que nos cerca e nos salva dessa miséria que nos ronda. É cortar na carne, e perder tudo. Tudo. Quem, então, escreveria os novos poemas de Carlos Drummond de Andrade? Quem subiria no palco com tamanha leveza e sussurraria uma voz grave e melodiosa tal qual Maria Bethânia? Quem herdaria as pinceladas exóticas e os traços exatos que fizeram de Pablo aquele que conhecemos como Picasso?

Se decidirmos parar agora, o que nos restaria? Apenas a imagem de um negro preso a um poste por um bando raivoso? Ou a história completa e já desvendada de um jornalista atingido na cabeça por um explosivo durante uma manifestação? Ou ainda, o ódio e a discórdia que ronda os que trabalham no sistema público de saúde brasileiro?

Não, não pretendo pedir perdão aos filhos que virão. Quero antes que eles sejam arrebatados pelas histórias de García Marquez, que eles se emocionem, como eu, toda vez que ouço as Bachianas, que eles se encantem com o espetáculo das cerejeiras em flor, que aprendam a perceber a ponta da vara beliscando e entendam que o peixe já está ali, fisgado mas lutando, que percebam, algum dia, a surpresa nos olhos de quem aprendeu algo consigo, que se inquietem enquanto esperam alguém tocar a campainha.

E sim, eu tenho medo. Queria oferecer a eles um lugar mais aprazível para se viver. Mas se simplesmente eu recusar a eles a oportunidade de viver tudo isso, só porque o mundo anda sombrio demais, todos sairíamos perdendo. Nós, os que vivemos, já sem esperanças de mudança. Eles, que ainda virão, sem poder vir e experimentar e viver e, talvez, mudar. Por enquanto, o que faço é desligar o noticiário e botar a vitrola para tocar o velho poetinha. Saravá.

Um corpo que abraça

Foi há alguns dias que perdi, pela primeira vez, uma pessoa importante para mim. Depois que ela se foi ficamos eu e minha família, por dois dias, velando seu corpo. Com 30 anos eu ainda não consigo entender bem do que é feita a morte. Talvez pela minha pouca experiência. Talvez porque não haja muito o que compreender. Eu olhava para minha avó e não entendia que, apesar de seu corpo estar ali, deitado à minha frente, ela já não estava. Ela já não estava.

Para se despedir deste corpo que era mas já não era alguns vieram de longe, de muito longe. E para que fosse possível dizer adeus a este corpo, foi preciso garantir que ele continuasse corpo até o momento da despedida. A funerária fez magias, e lá estava o corpo de minha avó, firme até o último minuto, esperando a família toda reunida para podermos, então, com os nossos corpos nos desperdirmos de seu corpo.

Porque foi assim a vida inteira: é o corpo que abraça, é ele quem beija, é ele quem ama e dá aconchego. E é ele, também, quem se despede. A alma já voa para longe, perdida em mistérios que nem a vida toda nos permite compreender. Mas o corpo está ali, para ser abraçado, acariciado, e por fim, despedido.

É o corpo também que gera outro corpo. Não há outro meio. É o encontro dos corpos que permite o milagre da vida. Podem me dizer dos métodos artificiais de reprodução, de bebês de proveta, de clônes e o que seja. Só o corpo, pelo meio que for, pode gerar outro corpo. E só o corpo pode carregar uma alma que comunica. Depois, bom, depois é mistério. Depois restamos nós, chorosos, abraçados, pedindo aos deuses que nos confortem pela nossa perda, que nos ajudem a viver sem a presença daqueles corpos que amamos por toda a vida e que não existem mais.

Diante do corpo já sem vida de minha avó me pus a lembrar da última vez que a vi. Ela estava sentada no sofá de sua casa, assistindo uma missa pela televisão, e sorria pela minha visita. Eu peguei sua mão e contei a ela que o bebê que estou esperando é uma menina, e que se chamará Maria Eduarda. Ela sorriu de novo, apertou minha mão e disse que aquele era um lindo nome.

Me lembrei também que uns dias depois foi Natal, e pela primeira vez ela não esteve presente, porque já estava cansada e não aguentava acompanhar as festividades de minha família. Eu não liguei e nem lhe desejei Feliz Natal. Eu estive ausente. E não posso, por isso, saber se ela sorria, se ela assistia à missa, se ela dormia. Eu não sei. Eu não estava ali. Nossos corpos estavam distantes e não se abraçaram por ocasião do Natal.

Não, eu não sinto culpa por isso. Há tanto que podíamos ter feito e não fizemos. E se formos contabilizar a vida vira um inferno. Mas aprendi, diante do corpo inerte de minha vó, aquele que eu acariciava enquanto lágrimas gordas escorriam de meus olhos, que é o corpo que abraça, é ele quem cuida, é ele quem ama, e que não vale pedir aos deuses que cuidem de nós. Essa tarefa é nossa, é nosso dever abraçar quem amamos, pegar na sua mão e lhes contar as novidades. O resto é silêncio e vaidade.