Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Putas assassinas, de Roberto Bolaño

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BOLAÑO, Roberto. Putas assassinas. São Paulo, Companhia das Letras, 2008, 219 páginas.

Pode parecer grosseiro para alguns, mas para mim, este livro de Bolaño me fez lembrar Doze Contos Peregrinos, de Gabriel García Marquez. Pode ser grosseiro para o Bolaño. Pode ser grosseiro para García Marquez. Talvez se sentissem ofendidos. Não sei. Nada mais distinto que a matéria sobre a qual escrevem. A questão é que a abertura do livro de García Marquez, quando ele explica os motivos de serem doze, de serem contos e de serem peregrinos me parece que caberia também aqui neste livro de contos de Bolaño. Me explico. Não são doze, mas treze contos. Todos eles, no entanto, apontam para paisagens diferentes mas parecidas: o narrador se vê entre o Chile, o México e Barcelona. Poderiam, talvez, ser peregrinos. Cabe ao leitor agora verificar se as explicações de García Marquez para a opção de serem contos caberia também no caso de Bolaño. Fica a critério.

O olhar do narrador – e claro, sempre o narrador personagem B., que nos faz indagar se seria ele mesmo o autor, Bolaño, se seria esse seu alter ego, seu personagem preferido etc – difere em quase tudo dos olhares de García Marquez. As paisagens de Bolaño são marcadas pela desesperança, pelo assombro, pelo susto de se contemplar a natureza humana, a vida humana, o mundo, ao final. Os personagens dos contos de Bolaño transitam por cidades perdidas na poeira do deserto mexicano, por bares duvidosos no DF ou em Barcelona, por povoados miseráveis na Índia, por trens em trânsito pela Europa. Mas não há nada, absolutamente nada de vulgar nos contos de Bolaño. As putas que assassinam ou os filhos de atrizes pornô não estão presentes para montar um cenário carregado de sexualidade ou sensualidade. Não. Os personagens de Bolaño jamais são sorridentes. São personagens assombrados e que desvelam o assombro da existência. Apesar de transitar por lugares tão chulos, tão marginais, nenhum dos personagens do livro pode receber o mesmo adjetivo.

De todas as paisagens do livro, o Chile aparece como o lugar privilegiado de estupefação. O livro se parece como uma evocação dos lugares chilenos, dos eventos passados, da ditadura, da tortura vivida por tantos dali, da história irracional deste país. O narrador dos contos não parece sentir saudades do Chile. Sua casa já não é mais ali. Por isso, talvez, o trânsito contínuo, o assombro do que no México é o Chile, do que em Barcelona é o Chile, do que na Bélgica é Chile. Talvez por isso a recusa a compreender o Chile a partir de Pablo Neruda. Pablo Neruda jamais representou ou representará o Chile, é o que nos diz o narrador do conto Carnê de Baile. Enquanto o nome de Neruda brilhar sobre a rubrica de literatura chilena, todos os poetas, entre eles ele mesmo, o narrador, B., estarão encarcerados em prisões ou manicômios.

Não. Pensando bem, em nada Bolaño se aproxima de García Marquez. E essa pode ser uma das lições de Putas Assassinas.

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