Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de medo

Não construa sua casa na areia

Na história havia João e José. Ou o Joãozinho, Zezinho e Huguinho. Tanto faz. O que importa é que os personagens da história resolveram construir uma casa. Cada um o fez à sua maneira.

João construiu uma casa na areia. Casa de madeira, com ares de coisa provisória, como ele mesmo. Preparou o terreno meio às pressas, colocou os limites no espaço que desejava, escolheu o cômodo onde seria seu quarto. Teve dúvidas. Seguiu. Escolheu as taipas, material barato, teceu pacientemente um telhado de sapé. Levou uns poucos dias. Quando terminou, afastou-se dez passos da casa, olhou para ela, virou-se, olhou para o mar e achou que aquilo tudo era bom.

José sempre foi mais prudente. Levou dias escolhendo um lugar adequado para construir sua casa. Levou outros para escolher o material adequado. Levou tantos dias que quando escolheu, não lhe assomou nem um pingo de dúvida: sua casa seria de alvenaria, no alto de uma rocha. Nem vento nem tempestade poderiam derrubá-la. Desenhou o projeto com cuidado milimétrico. Gastou dinheiro, investiu em bons materiais. Definiu de antemão onde seria seu quarto. Teve certezas de tudo quanto fez. Depois de muitos e muitos dias de muito trabalho, finalizou a casa: se trancou em seu quarto, sentindo-se seguro, e achou que aquilo tudo era bom.

Num dia de forte tempestade, José não teve medo. João, sim. Enquanto José se encontrava seguro no escuro de seu quarto, João precisou enfrentar a chuva, subir no telhado e reforçá-lo. Enquanto João trabalhava, José dormia. Na tempestade seguinte, abriu-se um buraco na parede da sala de João. Algumas taipas cederam e foi preciso de novo enfrentar a tempestade. Enquanto isso, José de novo dormia, seguro e tranquilo.

Ao longo dos anos, João precisou reinventar sua casa milhares de vezes. Mudou o quarto de lugar, trocou o telhado, inventou novos materiais. E a cada vez que a chuva passava, ele andava dez passos à frente de sua moradia, olhava a casa, olhava o mar e achava que aquilo tudo era bom, muito bom.

Ao longo dos anos, José saía cada vez menos de seu quarto. Ele temia as tempestades, temia o mar. Sua casa lhe era tão segura, tão segura, que o resto do mundo lhe botava cheio de medo. Ao longo dos anos, José se esqueceu de sair de casa, olhar para ela e dizer que aquilo que havia construído era bom, muito bom. Mas isso a história não diz. O que se diz é que José foi prudente, enquanto João foi tolo. Ninguém diz que José terminou sozinho e triste, trancado numa cela, recusando-se a enfrentar o mundo lá fora. Ninguém diz que João, ao contrário, se reinventou a cada tempestade, que sua casa frágil lhe permitiu construir um espírito forte.

Talvez isso tudo importe muito pouco. Melhor ser triste e seguro do que enfrentar a tempestade lá fora. Melhor assim. Deixa a história como está.

Vestido cor de rosa

Te vestiram de rosa, menina, te presentearam com bonecas com ares de princesa, preparam sua festa de cinco anos, de dez anos, de quinze anos, pentearam seus cabelos, trabalharam cada cacho, sem deixar um fio fora do lugar. Te ofereceram viagens, te prometeram felicidade, te esconderam da dor. Te deram remédios, te livraram de encrencas, compraram para você tudo o que você queria e pouco precisava.

Mas esqueceram, menina, de te avisar que a luz apaga, que alguém precisa limpar os restos da festa, que o telefone às vezes chama, chama e não atende. Esqueceram, menina, de te expor aos gritos esbravejantes daqueles que têm poder, de te avisar que comida velha cheira mal, de dizer que louça suja não se lava sozinha.

E hoje, menina, você chora, abraçada na velha boneca, que também envelheceu e perdeu seu perfume de princesa francesa. Chora porque não te avisaram que o mundo não se veste de cor de rosa, chora porque desta vez ninguém pôde comprar a vaga que você tanto queria. Chora porque seus amigos se foram e ainda não apareceram novos para preencher o lugar daqueles.

Você se sente sozinha, menina, eu sei. Não desista. O mundo te decepciona uma vez, mais uma vez, mais outra. Vão rir da sua cara ainda, vão te negar oportunidades, vão roubar o seu dinheiro, vão te causar mais e mais dores. Mas olha, menina, não perca esse seu olhar de doçura, esse seu coração de criança. O mundo também é bem colorido às vezes, e você vai aprender que pode usar as cores que quiser, basta aprender a lidar com aquelas mais sombrias desse pantone misterioso.

Mas não desista, menina. Ainda há tempo de descobrir que o mundo é melhor, bem melhor do que te fizeram acreditar quando você era apenas uma menininha.

Dos riscos da terapia

Foi na terceira ou quarta seção que ele me disse o que faria comigo: seguraria o espelho para que eu pudesse me enxergar melhor. O problema é que era ele quem escolhia o ângulo e aquilo que gostaria de ver refletido. Eu apenas iria observar. Quieta, de preferência. E por anos foi isso que meu terapeuta fez. Segurou o espelho. Vasculhou os cantos que gostaria que eu enxergasse. Apontou para o passado, apontou para o presente. Sorria bastante, o que me incomodava. Ficava sério quando eu esbravejava. Empurrava a caixinha de lenços quando eu chorava.

Mas terapeuta é bicho estranho, e se mete às vezes por caminhos obscuros. De tanto segurar o espelho – o que deve às vezes cansar o braço – ele resolve, como por descuido, apontar para o futuro. Não, ele se recusa a dar conselhos ou dizer o que pensa, mas assim, quase sem querer, começ a a prever o que vai acontecer com você daqui uns anos. Ele nunca vai dizer o que vai acontecer amanhã, nem vai afirmar se você deve ou não terminar o namoro, sair ou não do emprego. Essas escolhas são suas. Mas às vezes, sem quase mais, ele vê o futuro, profetiza, adivinha, ou qualquer ação parecida, a depender do gosto ou da religião.

Foi assim na última vez que falei com meu terapeuta. Depois de uma longa conversa em que ele me parabenizava por meu imenso progresso em diversas áreas da minha vida, ele termina dizendo que acreditava que eu continuaria assim, madura e confiante enquanto ainda fosse jovem. Quando a juventude passasse, outras questões viriam, mas, segundo ele, não era o momento de se preocupar com isso. O tempo mesmo se encarregaria quando chegasse a hora.

Mas que raios ele quis dizer com “enquanto eu ainda fosse jovem”? A juventude passa? Como assim, passa? Que outras questões são essas? O que vai acontecer comigo quando essa fase, longa, segundo ele, acabar? Ei! Volta aqui, me diz, me explica!

E ele já se foi. Até a próxima seção. E as palavras a elogiarem meu progresso e minha maturidade ficaram esquecidas. Ele apontou seu seu espelho de condão para o futuro por um segundo, e no seguinte, se foi. As coisas mudarão daqui uns anos. Palavras de cartomante sobre o futuro. Eu serei feliz? Certamente, minha filha. Eu vou estar casada? Sim, vejo um homem que te ama nas cartas. Ele é o meu marido? Sim, é seu marido. Mas ele é o mesmo ou é outro? Minha filha, isso as cartas não dizem, dizem apenas que você estará com o homem que ama. Eu terei filhos? Vejo muitas crianças na sua vida.  Mas são meus filhos ou sobrinhos? Há uma sombra sobre essa questão, não posso te dizer, mas vejo que você ama profundamente essas crianças.

Saio da terapia como quem sai da cartomante. Penso no futuro e suspiro desesperançada. Meu progresso tem um prazo de validade. Depois, segundo o terapeuta, terei começar tudo de novo. O que aprendi hoje não vai valer para a vida toda. As questões da juventude certamente morrerão junto com ela. E hoje, que aprendi a duras penas a ser uma mulher de vinte e tantos anos, terei que aprender a ser, mais adiante, uma mulher de quarenta, depois, uma mulher de cinquenta, e assim por diante.

Custava o terapeuta segurar o espelho apontando só para o passado? Custava se focar nas questões presentes e elogiar meu progresso incrível dos últimos tempos? Custava se controlar e não me deixar saber dos seus poderes de adivinho?Logo eu, que morro de medo do que Bíblia proíbe, que me lembro a cada minuto de Saul perdendo seu reino por uma reles perguntinha a um adivinho qualquer. Eu não quero saber do futuro. É o futuro que nos faz perder reinos, é o futuro que nos faz perder o sono, é o futuro que nos faz esquecer da longa lista de elogios e se por a morrer de medo do que virá amanhã. Amanhã terei trinta, depois, logo depois, quarenta. Se a juventude passa, a terapia há também de passar. E assim ficamos combinados.

 

 

Sete e trinta

Aquele era um grande dia. Há quanto tempo não lhe chamavam para bancas mais? Não se lembrava. Havia se preparado por dias para falar naquela ocasião. Ansiosamente. Ali era diferente, ele não havia se inscrito para um congresso, como sempre se faz no mundo acadêmico. Ele não havia proposto uma mesa, um debate. Não. Ele havia sido convidado a avaliar o trabalho de um colega, um colega que ele admirava, um colega que havia dito coisas que ele mesmo gostaria de ter dito. Lembraram dele.

Era ele o mais velho da mesa. Seus colegas, mais jovens, falavam ainda com vigor, ainda com certezas, citavam autores, mexiam com as mãos. As mãos. Suas mãos ficavam sempre debaixo da mesa, sobre os joelhos. Ali estava bom, a mesa estilo colonial escondia as pernas e escondia suas mãos apoiada sobre suas pernas. Os colegas gesticulavam. Ele olhava para suas anotações, olhava para o colega sentado à frente, sendo avaliado. O que diria a ele? Suas anotações, ao final, faziam algum sentido?

As mãos sobre as pernas, o colega dizendo que estaria encerrando, estava chegando sua vez. Ele passaria, então, a falar sobre coisas que falou por toda a vida, os autores que estudou, as descobertas, as conexões entre diversas teorias, aquilo que se leu, aquilo que se viveu, aquilo que se percebeu do que os outros viveram, leram e perceberam. Fazia sentido? Foi preciso trazer as mãos para cima da mesa, virar os papéis onde havia feito anotações. As mãos trêmulas. Ele podia mudar o tom da voz, falar algo quase esbravejante, tirar o foco das mãos, levando a plateia a perceber apenas o timbre, o som. Talvez ninguém percebesse sua dificuldade em virar o papel. Mas ele não sabia esbravejar. A vida toda, o mesmo tom de voz. Feliz, triste, com raiva, com doçura. O mesmo tom. E agora, já velho, as mesmas mãos tremulantes.

Ele parabenizou o colega avaliado, confessou, de maneira sincera como o colega jamais conseguiria acreditar, que ele gostaria de ter descoberto o que o outro descobrira, que ele gostaria de ter escrito o que o outro escrevera. Enquanto confessava o inconfessável, escondia novamente as mãos embaixo da mesa, pensando se tudo aquilo fazia sentido. Aquela sala, aquela mesa, aquela banca, afinal, tinha sido toda sua vida. Aquilo que se estudou, aquilo que se leu, aquilo que se viveu, aquilo que se percebeu.

Terminada a banca, os colegas o convidaram para um confraternização. Ele estava cansado. Ele estava muito cansado. Na confraternização talvez não conseguisse esconder as mãos debaixo da mesa. Talvez não conseguisse falar sobre tudo o que viveu. Talvez só desejasse falar sobre o que não viveu. Fazia sentido? Aquilo fazia sentido?

Ele voltou, então, para o hotel, deixou a mala arrumada e pediu à recepção que o chamassem à cinco da manhã. Seu voo era as sete e trinta, e ele retornaria, então, à sua universidade e aos seus alunos, onde continuaria falando sobre o que se leu, o que se estudou e o que se viveu por tantos e tantos anos de sua vida.

Quem tem medo dos tempos verbais?

A etapa mais difícil de aprendizagem de uma nova língua são os tempos verbais. No básico um aprendemos, geralmente, os pronomes, um pouco de vocabulário, os números, aprendemos a nomear as coisas. No básico dois  falamos tudo no presente. Eu sou. Você é. Eles são. Tudo é certeza e, mesmo quando duvidamos da nossa capacidade de nos expressar na nova língua, ainda assim seguimos afirmando tudo o que aparece à frente: a casa é amarela, eu sou feliz, o livro está sobre a mesa, eu amo você.

No nível intermediário as coisas começam a complicar e o mundo fica mais incerto. Quando se passa a olhar para o passado as certezas se vão. Eu fui. Eu era. Eu teria sido. Eu fui e ainda sou. Eu fui mas não sou mais. É quando começamos a pensar naqueles que amamos e o coração bate num soluço. Eu amei. E eles, me amaram? Me amaram e ainda me amam? Ou não amam mais? Olhando para o passado, nos enchemos de dúvidas. Há o passado perfeito, o mais que perfeito, o imperfeito. O que já terminou, o que perdura, aquele pelo qual não há mais nada a se fazer. E ficamos ali, diante da nova língua, angustiados, o peito repleto de dores passadas, gritando para que sejam expressas no presente, aquele presente convicto de nível básico, presente do indicativo. Eu te odeio. Eu te amo. Eu estou feliz. Eu quero ir embora. Eu preciso respirar.  Eu gosto de chocolate. Você gosta de mim. Eu tenho saudades. Eu acredito em Deus.

No presente do indicativo tudo volta à normalidade. Nos lembramos de quem somos, do que gostamos, nomeamos as pessoas que estão por perto. É no nível básico que encontramos essa segurança preciosa do cotidiano que nos ajuda a continuar vivendo o que vivemos até aqui.

Avançar é preciso. Se o nível intermediário nos lança nessa areia movediça do passado, arrancando aos poucos nossas lembranças e dores e culpas esquecidas, é no nível avançado, no entanto, que somos jogados no precipício: é hora de aprender sobre o futuro. Num primeiro momento, o futuro do indicativo, ingênuo como no nível básico, carregado de ares de certeza: eu serei feliz, você será rico, nós venceremos, a casa será construída em dez meses, sua família terá saúde. Nesse momento chegamos até a esquecer as agruras do intermediário, deixando para trás as tristezas do passado.

Mas a língua, essa língua que ansiamos aprender, não dá tregas ao coração. Depois da aparente certeza do futuro do indicativo, abre-se à nossa frente um abismo de novas incertezas, nomeado das mais diversas formas: futuro do pretérito, futuro do presente, futuro composto, futuro do subjuntivo. Frente a tamanha dificuldade, nossa crença em qualquer futuro se esvai. Mesmo esfraquecidos, no entanto, nos esforçamos para continuar o aprendizado daquela língua, temerosos do que esse futuro pode nos reservar.

O maior de todos os problemas se dá quando percebemos que o futuro está irremediavelmente ligado ao passado. Futuro do pretérito. Se eu tivesse prestado mais atenção, se tivesse sido mais presente, se tivesse trabalhado menos, se tivesse sido menos egoista, se tivesse me importado menos com meus sonhos e sonhado junto, ah, se tivesse feito tudo diferente, certamente eu seria mais feliz.  Seria, num futuro que não existe, poderia ter sido, mas não sou, não serei. Não há mais certezas, não estamos no reino do indicativo.

E o coração de novo soluça, se aperta no peito, odiamos aquela língua que nos lembra fracos e impotentes frente ao passado e ao futuro. Desejamos ardemente o simples do nível básico, o presente cheio de certezas, mesmo que seja para ser triste, mesmo que seja para ser sozinho. Mesmo que seja para viver caindo num precipício, mesmo que seja para fazer do abismo o nosso cotidiano. O que importa é a certeza do presente. Talvez por isso gostemos tanto do nível básico e nos acovardemos frente ao avançar do estudo de novas línguas. Os tempos verbais nos assombram, de forma completamente definitiva. De forma indicativa.

Pedras que a gente encontra no caminho

Aconteceu com a minha vizinha. Ao voltar da praia, após uma semana de férias, ela passou aqui em casa, para um café. Assim que entrou me espantei com o hematoma que trazia perto do olho, desses bem roxo. Na hora pensei no velho filme batido: minha vizinha e seu marido na praia, ele bebendo o dia inteiro, ela, bonitona, estirada ao sol, passa um mais abusadinho, mexe com a vizinha e logo vem o marido, já alcoolizado, arrumar briga. A praia vira um fuço, aparecem os amigos do aproveitador, o marido precisa se conter mas ao chegar em casa, é a mulher que leva uns safanões. Ninguém mandou desfilar de fio dental por aí.

O problema é que a vizinha e o seu marido se davam bem, bem demais até. Ia ser preciso, então, acreditar na versão dela. E a versão era essa: ela e o marido caminhavam no calçadão quando aparece, vindo na direção dela, uma mocinha sorridente com panfletos na mão. Assim que minha vizinha percebe o movimento da mocinha, larga instantaneamente a mão do marido e inicia um movimento contrário à mocinha de panfletos na mão. Simpática que é, não tenho dúvidas de que a vizinha continua a caminhada – em direção contrária – também sorrindo para a mocinha sorridente, bem assim, como quem agradece com os olhos e rejeita com o sorriso. Enquanto sorri para a mocinha sorridente com os panfletos, paf! Eis que um orelhão se coloca no trajeto da minha vizinha, que dá de bochecha no telefone. Desatordoada com o barulho e com a pancada, ela dá um passo atrás e se vê envolvida examente nos braços da mocinha sorridente etc. O marido vem em socorro da vizinha que, ainda sem entender o orelhão e a pancada, percebe apenas o abraço caloroso da mocinha, e ouve dela que era preciso tomar mais cuidado, andar mais atenta, e ah, inclusive, fique com um panfleto, estaremos hoje fazendo a inauguração do residencial Beira Mar, lá você encontra apartamentos de dois ou três dormitórios com preços a partir de não sei quantos reais o metro quadrado.

Ainda perplexa, minha vizinha vê a mocinha sorridente com um panfleto a menos na mão se afastar. Corre as mãos pelo rosto e percebe um calombo perto do olhos. O marido lhe abraça e sussurra em seu ouvido que poderia ter sido pior, que ela podia ter encontrado um carro no meio da rua em sua fuga desenfreada da mocinha sorridente com panfletos na mão.

Aconteceu com minha vizinha. Mas poderia ter acontecido com qualquer um. Quem nunca abraçou um orelhão? Quem nunca quis se desvencilhar de um vendedor insolente que prometia o paraíso caminhando exatamente na direção do inferno? Quem nunca se afastou tanto que acabou agarrado nas asas do inimigo? Quem nunca vivenciou uma história tão absurda que ninguém acreditaria se lhe fosse contada? Aconteceu com ela, mas poderia ter acontecido com qualquer um.

Férias

O menino avistou ao longe o orfanato. Tudo começava a fazer sentido. O silêncio na longa viagem de volta das férias. A mulher calada. O homem puxando assunto. As crianças tão diferentes dele. Ele não se lembrava de ter visto a menina tão branca desde quando as férias começaram. Lá na fazenda ela parecia ser como ele, brincavam, andavam de cavalo, pescavam juntos, andavam de bicicleta. Ele nem reparava, nem notava a diferença entre eles. Ele a chamava de irmã, e o irmão dela, de irmão. Todos iguais.

O coração do menino tremeu. “Mãe, o que estamos fazendo aqui?” perguntou à mulher. Ela continuava calada. O menino insistia. “Pai, o que estamos fazendo aqui? O que a gente veio fazer aqui?”. “Calma”, o homem respondia, e engolia o “meu filho”. As outras crianças não percebiam, continuavam contando os carros vermelhos e azuis que passavam na estrada na direção contrária.

O menino se inquietou. Perguntou ao homem quando iriam de novo para a fazenda. O pai respondeu que talvez nas próximas férias. O menino disse que queria voltar já, agora mesmo, agora, pai, vamos voltar, agora. O homem disse que ele precisava ir para a escola, fazer as lições de casa, que não podia ser férias sempre. “Pai, eu queria que fosse férias sempre”.

Quando chegaram no orfanato, as outras duas crianças  avistaram a diretora e correram para abraçá-la. Surgiram outras crianças, num minuto levantou poeira e tudo parecia uma grande alegria. O menino não desceu do carro. Virou-se e olhava a estrada pelo vidro de trás. A mulher também não desceu. Os dois ficaram ali. O menino disse que queria contar os carros pretos. Os irmãos tinham contato os vermelhos e os azuis mas ninguém tinha contado os pretos. Ele ficaria ali, para contar os pretos até que os irmãos voltassem.

O homem, depois de conversar com a diretora, pediu a ela que fosse até o carro chamar o menino. Ela abriu a porta, disse a ele que tinha ficado com saudades, falou que seus irmãos estavam perguntando por ele. O menino respondeu que aqueles não eram seus irmãos. “Mãe, acabou de passar um preto! Vou contar pros meus irmãos que eu vi um preto!”. A mulher calada. A diretora insistia. “Vamos, vem! Vamos voltar para o seu quarto! Eu fiz aquela canja que você gosta! Vem contar pra gente como foram as suas férias! Vem!”. “Mãe, mais um! Outro vem vindo, mãe! Nossa, desse jeito eu vou ganhar! Quanto carro preto, mãe!”.

Num solavanco a mulher saiu do carro, correu para fora do orfanato. O menino ficou sozinho. Olhava para a mulher e não entendia porque ela não queria ser sua mãe. A diretora insistia. O homem entrou no carro, o menino percebeu suas mãos trêmulas. Foram elas que lhe puxaram o braço e o arrancaram para fora. Seus brinquedos novos, todos que tinha ganhado de sua nova família, estava tudo ali. Mentira. Aquela não era sua família. O menino olhou para o homem, os olhos vermelhos, chutou os brinquedos, correu para o dormitório e não olhou para trás.

Outras crianças vieram buscar os brinquedos que tinha deixado. O homem chorava. A mulher esperava na estrada. A diretora foi chamar as duas crianças que brincavam no meio da poeira. Elas entraram no carro, a diretora fechou a porta, foram até a estrada e pegaram a mulher. A menina perguntou sobre o irmão. O pai disse que ele teria que ficar no orfanato, junto com os irmãos dele. Os irmãos de verdade. E, quem sabe, nas próximas férias, a gente fica com ele de novo. As crianças voltaram a contar os carros. “Olha um azul! Ponto pra mim!”. “Um vermelho! Ponto meu!”. A mãe, soluçando ainda, disse que também ia brincar. “Eu conto os pretos”.