Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

alquimia

e se a gente transformasse

raiva em beleza

tristeza em amor

cansaço em compaixão

 

e se a gente transformasse

armas em flores

gritos em silêncio

silêncio em amor

 

e se o amor fosse suficiente,

bastaria?

Filosofia matinal: aprendendo Parmênides

Na cama, ainda pela manhã, mãe e filha brincam de opostos:

Mãe: Quente!

Filha: Frio!

Mãe: Grande!

Filha: Pequeno!

Mãe: Alto!

Filha: Baixo!

Mãe: Bonito!

Filha: Feio!

A mãe para por um segundo, pensa em outras formas de pensamento, certa de que pegaria a menina:

Mãe: Bicicleta!

Filha: Não-bicicleta!

Se fosse sua aluna, a filha ganharia estrelinha para colar no peito, seria ajudante do dia e ensinaria aos coleguinhas a grande lição do ser, do não ser e do nada.

A caminho

Do banco de trás do carro, sentada, a Maria pergunta o que é “distrair”.

O pai, ao volante, responde que distrair é não prestar atenção.

O menino Francisco, ao lado da Maria, olha a estrada ao longe. Calado, não pergunta nada.

Meu coração soluça, cansado, tudo, menos distraído.

Esquadros

Quando abro os olhos, pela manhã, você não está.

Quando cruzo os talheres, encerrando minha refeição, você chega e inicia a sua. Quando cruza seus talheres, eu já saí.

Quando chego à noite, exausta do trabalho, da estrada, da vida, você já sonha, com suas tarefas todas já cumpridas.

Lavo meu rosto, me dispo do meu dia, da minha distância, da minha ausência, te dou um beijo e tento dormir.

Amanhã tudo começa, e mais um dia, sentirei saudades de você.

Pirata e Capitano

A televisão, na sala, exibe desenhos infantis: uma família de porcos ou uma sala de bebês e robôs músicos ou uma menina pirata e um menino piloto de avião desbravando ilhas desconhecidas. A mãe sentada no sofá, as crianças em volta, uma enrolada num braço, outra no outro. Enquanto a pirata briga com um papagaio caolho, a menina vira para a mãe e pergunta do que ela tem medo. Tenho medo de ficar doente, a mãe responde. A menina então diz que se a mãe ficar doente, ela a leva para o hospital. O menino, no outro braço, não termina ainda muito bem as frases e as palavras, é ele quem diz que tem medo de lobo, de lobo, não, do lobo. A menina, então, concorda. Ela também tem medo do lobo. “Só do lobo?” a mãe pergunta. É, só do lobo. E voltam a ver o desenho, quando o papagaio caolho empurra as crianças pela prancha até quase alcançarem o mar. E ficam em silêncio. A mãe acaricia as cabeças que se aconchegam no seu colo. Pensa no medo que tem. Medo de doença, medo de morte, medo de violência, medo do mal, medo do bem. Medo que esses filhos andem, um dia, por essa prancha que os empurra para a morte. Mas a pirata, quando atinge o mar, se transforma em sereia, em peixe, em pássaro, e nada acontece. A mãe pensa, então, que sim, tudo poderia ser assim. O desenho termina, é hora de dormir. A mãe beija os filhos e pede que seja assim, que de hoje para sempre a prancha não seja, jamais, o fim.

Um presente de casamento

Dias desses – já faz uns anos, é verdade – visitei a casa de uma amiga pela primeira vez. Era minha visita nova em uma casa nova e tudo me enchia os olhos. Feito criança, eu olhava cada detalhe. Perto da janela, um vaso grande com uma planta linda. É a arvore da felicidade, ela disse, minha avó me deu de presente. Fora seu presente de casamento. E fora a avó que lhe dera, não uma muda, mas uma árvore. A avó havia cultivado a felicidade por anos e ofereceu à neta. E lá estava a felicidade, banhada pela luz que entrava da janela.

E eu que não sabia que felicidade dava em árvore, menos ainda que era possível oferecê-la de presente, corri até uma floricultura e comecei a cultivar minha própria felicidade. Diferente de minha amiga, a minha felicidade veio em duas mudas, frágeis e pequenas. Aos poucos foram crescendo, mais rápido do que cresciam meus filhos.

Num certo dia, sem mais, elas estagnaram. Outra amiga, em minha casa, quando lhe confessei que andava preocupada com a felicidade, me disse que a planta só cresceria se houvesse uma muda macho e outra fêmea. As minhas, pelo que parecia, eram as duas fêmeas. Felicidade, pelo que parece, só vem do diferente.

As folhas caíram, todas. Quando um pequeno galho novo despontava eu me enchia de esperanças, era a minha chance de ser feliz de novo, e enchia a planta de cuidados, regava, podava, logo as novas folhas caíam. Parecia o fim da felicidade.

Por tempos a felicidade ficou ali, à beira da porta, no canto da sala, calada, sem folhas, sem galhos novos, sem esperanças. Até que comprei um novo vaso, maior, uma terra nova – com adubos e aditivos e tudo aquilo que a moça da floricultura me garantiu fazer a felicidade brotar novamente – replantei minha felicidade e troquei seu lugar na sala. Distante do vento, distante do sol direto. Continuei a velar por ela, colocava água diariamente, dizia-lhe que admirava sua beleza, mesmo sem folhas mais, mesmo quase sem galhos. Aos poucos, um broto novo surgiu bem ao alto do velho galho. No seu pé, quase junto à terra, inúmeros pequenos galhos começaram a nascer. E deram folhas, e, ainda pequenas, mudaram a cara da felicidade que eu tinha antes.

E é nos dias tristes, escuros, que percebo que a felicidade está aqui, dentro de casa, abrigada do sol, do vento, das bolas que as crianças insistem em jogar na sala. No canto, para que ninguém perceba sua presença, ainda que esteja sempre perto de nós. E se um dia ela estiver grande e forte, cheia de galhos e folhas, talvez, só talvez, eu tenha coragem de presentear alguém com a minha felicidade. Quem sabe minha neta, quando se casar, se um dia ela vier, e se um dia ela se casar.