Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Novembro, 2014

Amor, amor, amor

Há ainda a roupa estendida no varal, mas isso não é importante, meu amor. Esqueça. Esqueça também a alta dos tributos. Já há vozes em demasia a bradar por soluções: as propostas escorrem pelo ladrão. Não se preocupe. Aquele boleto em cima do balcão da cozinha, ainda no início das centenas de parcelas, esqueça. Ele será pago a seu tempo e nada há que fazer. É preciso buscar as roupas na passadeira, ligaram hoje dizendo que está tudo pronto. Está pronto, como tudo fica a seu tempo. Não se preocupe. Amanhã buscaremos. O prazo final para entrega daquele seu projeto se aproxima. Não é preciso lembrar. Mas é preciso dizer não se preocupe. As linhas e as palavras foram construídas ao longo do tempo. Não se preocupe.

É preciso, porém, estudar com urgência novas línguas, e descobrirmos novas maneiras de dizer “eu te amo”. E dizê-las todos os dias, pelo menos uma vez ao dia. É preciso guardar, de maneira solene e sagrada, o entardecer, para percebermos, juntos, o canto que cantam os pássaros ao voltarem para suas casas, o barulho que fazem os bichos que revolvem a terra ao se prepararem para a chegada do orvalho, o vento que entra em casa e nos convida a passear.

Não se esqueça, no entanto, de arrumar a cama todos os dias, para que ao anoitecer ela esteja pronta para receber os nossos corpos cansados, e nos abrace, como nos abraçamos todas as noites. Não se esqueça também de vigiar meu sono, para que não se percam as palavras que digo quando não tenho controle de meus segredos: posso ter esquecido, ao longo do dia, uma nova expressão de amor.

Lembre-se que é preciso, todos os dias, aguar a horta. E ao se curvar, meu amor, sobre o canteiro, não se esqueça que devemos essa mesma reverência a tudo o que é pequeno, a tudo o que é lento, àquilo que passa despercebido: uma lágrima sozinha, um suspiro distraído, um olhar cheio de medo. E como fartamos a terra de água, que possamos também nos fartar de cada detalhe, preenchendo, assim, nossa eterna necessidade de amor.

Não é de bom tom, meu amor, desperdiçarmos o tempo. Que as mãos estejam sempre entrelaçadas. Que o pressentimento chegue antes da voz que clama por carinho. Que os olhares se cruzem e não se afastem. Que o abraço não termine antes do final do choro. Que haja sempre chocolate à mesa, casado ao cheiro de café coado. Como eu e você. Como eu e você.

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O mundo da rua

Maria, não saia na rua. Por favor, não saia. Lá fora os homens andam cada vez mais raivosos. Não saia. Lá fora falta água, sobram enganos, há remendos nas ruas, nas pessoas. Ano passado prometeram asfalto novo. Asfaltaram. E agora, Maria, há de novo os buracos. Buracos nas ruas. Buracos nas almas. Prometeram de novo, mas dizem que agora o povo não acredita mais. Almas remendadas.

E talvez sejam esses buracos, ou a falta de chuva, ou o excesso de enganos, talvez seja isso, Maria, que faça os homens andarem de olhos tortos, à procura de erros, à procura de cansaços. E é na rua, Maria, que esses homens se encontram, vociferam, se ensurdecem. Não saia. Lá os homens levantam placas, derrubam uns aos outros, mentem. Lá os homens empunham armas, exalam suores, procuram a morte. É na rua, Maria, que as pessoas se acreditam diferentes, excelentes, usando seus melhores perfumes. E é ali que se gritam as diferenças, se proclamam direitos, se criam privilégios.

Na rua, Maria, tem o vento, tem a fumaça do carro, tem a criança que passa correndo na bicicleta. Não saia, Maria, por favor, não saia. Fique aqui comigo. Aqui dentro tem bolinho de chuva, tem história de bicho papão. Aqui tem música de Tom Jobim, e eu posso te ler um verso do Drummond. Aqui podemos receber seus amiguinhos, fazer guerra de água, brincar de bolha de sabão.

Aqui, Maria, somos só eu e você. Aqui não tem o diferente. Aqui não tem o perigo. Aqui, Maria, você inventa seu próprio idioma, define seus limites. Aqui é você quem cria seus horários, determina quem será o rei da sua história de princesa. Aqui só entra quem você quiser e jamais você precisará lidar com os males que habitam o lado de fora. Fique aqui comigo. Seremos eu e você.

Mas se um dia esse meu pedido lhe soar absurdo, se os limites de nossa casa se tornarem tão estreitos a ponto de você andar esbarrando nos móveis de seu quarto, se sair se tornar algo inevitável, cuide-se, Maria. Os homens são maus, a rua anda cheia de buracos, qualquer batida de vento pode lhe causar um resfriado, e eu não estarei lá para cuidar de você. Por isso, pense bem. Pense ainda melhor e fique comigo, Maria.