Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de montanha

Adélia sem poesia

Num dia assim, sem assunto nem poema, Adélia afirma que é Deus quem lhe tira a poesia. O resultado é que seu olho fica torto, o coração caolho, o mundo, nem se fala. Aí ela olha pedra e vê pedra mesmo. Mundo torto. Rua que é rua. Mato que é mato. Feio que é horrível. Cansaço que é dor. Alegria que não encanta. Tristeza que não passa.

Às vezes, no entanto, Deus é generoso e o mundo se colore. Não é torto mais não. A pedra vira amanhecer, o cansaço vira amor, deus é gente, gente é anjo, anjo é você e eu, juntos, caminhando na rua, no mato, na montanha. Pedra é tudo, menos pedra.

Deus é bicho estranho. Num dia dá, noutro tira. E o mundo não nos dá sossego: um dia é pedra, outro, passarinho. E meu coração fica à esmo, cheio de cansaço e esperança. Ainda bem que a Adélia nos avisa que tudo não passa de travessura de Deus, que resolve, às vezes, nos tirar a poesia. Rezemos então, que quem sabe, a poesia volta e o mundo entra nos eixos novamente.

Grão de mostarda

Eu fui uma criança religiosa. Acreditava em Deus-Todo-Poderoso, ia à igreja, dava o dízimo de tudo o que recebia. Ainda assim, cometia um grande pecado: me faltava a fé. Eu acreditava com toda força de criança naquilo que a Bíblia dizia, confiava no amor generoso de Deus-Pai, repetia que Jesus era o Deus-Filho mas não era capaz de ter a fé que esperavam que eu tivesse. E quanto mais entendia que me faltava fé, mais me entranhava na igreja: fazia orações, pedia perdão por tudo, prometia a cada dia ser uma criança melhor, mesmo assim, minha fé parecia não aumentar.

Vez ou outra eu a testava: me colocava num lugar em que pudesse avistar uma montanha, qualquer que fosse. Fechava os olhos, dizia ao Deus-Todo-Poderoso que eu acreditava que ele era sim, Todo-Poderoso, e que por isso, poderia fazer aquela montanha mudar de lugar. Ainda de olhos fechados eu pedia perdão a Ele por minha fé tão miúda e repetia seguidas vezes que sabia que Ele compreenderia a minha carência, afinal, seria preciso tão pouco desta fé, era certo que Ele faria o que Lhe cabia – quem mudaria a montanha de lugar era Ele, e não a minha fé.

Eu ainda permanecia com os olhos fechados por um tempo. Titubeava. E se a montanha ainda estivesse lá? Se nada ao meu redor tivesse mudado? O que eu faria? Eu estaria derrotada, mais uma vez derrotada, apesar da leitura bíblica diária, das orações antes da sete da manhã, do dízimo, do perdão que pedi à coleguinha (mesmo que fosse ela a errada). Nada teria ajudado a aumentar a minha fé se a montanha ainda estivesse lá.

E estava. Intacta. Eu, mais uma vez, humilhada dentro de mim, envergonhada frente ao Todo-Poderoso. Ele me testava, pedia mais fé. Eu não sabia o que fazer. Fui então crescendo e passei a entender o que era dito na Bíblia como boas metáforas e não como verdades absolutas. Não era preciso, afinal, mover uma montanha para ser uma pessoa boa, amada, com bons sonhos e bons amigos. A questão das montanhas não me incomodou mais. Até semana passada, quando um novo fato veio derrotar de vez o que restava de minha fé.

Todas as semanas pego a estrada que me leva de Minas a São Paulo. Bem no meio do caminho há um lago enorme à direita, que só pode ser visto por cinco segundos a uma velocidade de 90km por hora. É quando piso no freio, dou seta para a direita, abro a janela e observo o meu lago predileto. Quando ele desaparece atrás de uma montanha eu sinto que estou sorrindo. Subo o vidro da janela e sigo viagem.

Nesta semana, no entanto, quando diminuí a velocidade ao me aproximar do lago, percebi que não era mais possível enxergá-lo: havia uma montanha na frente da paisagem. Uma montanha que não estava ali na semana anterior. Uma montanha que se moveu, me tirando a possibilidade de ver o lago e de acreditar que a fé seria apenas uma metáfora. Alguém muito mais fervoso que eu havia conseguido, afinal, mover uma montanha.

O que me derrotou foi perceber que essa pessoa fervorosa ainda estava em plena ação de fé: caminhões e mais caminhões de terra encontravam-se parados na pista, jogando toneladas de montanha na frente do meu lago. É certo que essa pessoa não fez uma oração, não fechou os olhos e pediu a Deus que Ele movesse aquela montanha. Não, ele chamou o engenheiro subchefe ao seu escritório, no vigésimo andar de um edifício na Avenida Berrini e lhe disse: “Por favor, construa um viaduto na altura do quilômetro 68 da Fernão Dias, preciso ter acesso fácil à fazenda de pedras e calcário que temos do outro lado do lago”. Ao que o subchefe, cauteloso, responde: “Seria mais fácil construir uma ponte, mais barato, seria preciso pouca estrutura”, ao que o homem cheio de fé responde não, prefere um viaduto, ele quer espaço e boa estrutura para transitar caminhões pesados. O subchefe, insiste, dizendo que seria preciso fazer uma elevação com um volume muito grande de terra para suportar a estrutura de um viaduto. Ao que o homem simplesmente diz: “Faça”.

E assim a montanha foi movida, e o nome do Todo-Poderoso nem mesmo foi citado. E assim ando à procura de algum religioso a quem possa confessar a minha falta crônica e irrecuperável de fé, e ter alívio para os dias de culpa que se seguiram ao ocorrido.

Café com leite

Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não sinto cheiro de café coado vindo da cozinha. Em São Paulo nem mesmo existe um coador. Sinto saudades de Minas porque a cama em São Paulo é baixa – mentira dizer que tem cama: o colchão fica colado ao chão. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não existe um canto de silêncio: mesmo à noite sou acordada com buzinas e alarmes de carros. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não há cozinha grande que me acolha: não há como fazer bolos, risotos, omeletes.

Em Minas, sinto saudades de São Paulo. Em Minas, depois das seis da tarde, a cidade se encolhe, se recolhe, se refugia em um lugar qualquer que me escapa. Ninguém passeia pela Vila, pela avenida, pelo entardecer. Em Minas falta a padaria aberta, o armazém vinte e quatro horas, a possibilidade de ir a um bar sozinha e poucas pessoas, talvez, repararem na minha falta de companhia.

Em Minas me falta a livraria enorme, com uma infinitude de livros e o sonho de um dia ver meu nome num canto qualquer de uma estante. Em Minas me falta o chopp no final da tarde, o cinema quase no término da noite, o show que eu poderia ter ido na sexta à noite se não tivesse esticado até tão tarde aquela reunião.

Em São Paulo me falta a grama que eu piso todas as vezes que o trabalho me enfastia. Me falta a primavera no fundo do quintal, que insiste em forrar meu jardim de flores vermelhas que eu insisto em limpar com o meu rastelo. Em São Paulo me falta o espaço, apesar de toda sua amplitude. Em Minas me falta amplitude, com seus espaços sem fim.

Em Minas, minha voz sai anasalada. Em São Paulo, falo como quem canta e entoa cantigas da roça. Procuro em São Paulo o cheiro do café coado. Em Minas, procuro um chopp na calçada e uma conversa regada a sereno. E vivo, assim, semana após semana, dividida pela saudade, desejando o outro estado assim que atravesso a linha que separa o trabalho daquele lugar dominado pelo meu coração.