Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Abril, 2012

Férias

O menino avistou ao longe o orfanato. Tudo começava a fazer sentido. O silêncio na longa viagem de volta das férias. A mulher calada. O homem puxando assunto. As crianças tão diferentes dele. Ele não se lembrava de ter visto a menina tão branca desde quando as férias começaram. Lá na fazenda ela parecia ser como ele, brincavam, andavam de cavalo, pescavam juntos, andavam de bicicleta. Ele nem reparava, nem notava a diferença entre eles. Ele a chamava de irmã, e o irmão dela, de irmão. Todos iguais.

O coração do menino tremeu. “Mãe, o que estamos fazendo aqui?” perguntou à mulher. Ela continuava calada. O menino insistia. “Pai, o que estamos fazendo aqui? O que a gente veio fazer aqui?”. “Calma”, o homem respondia, e engolia o “meu filho”. As outras crianças não percebiam, continuavam contando os carros vermelhos e azuis que passavam na estrada na direção contrária.

O menino se inquietou. Perguntou ao homem quando iriam de novo para a fazenda. O pai respondeu que talvez nas próximas férias. O menino disse que queria voltar já, agora mesmo, agora, pai, vamos voltar, agora. O homem disse que ele precisava ir para a escola, fazer as lições de casa, que não podia ser férias sempre. “Pai, eu queria que fosse férias sempre”.

Quando chegaram no orfanato, as outras duas crianças  avistaram a diretora e correram para abraçá-la. Surgiram outras crianças, num minuto levantou poeira e tudo parecia uma grande alegria. O menino não desceu do carro. Virou-se e olhava a estrada pelo vidro de trás. A mulher também não desceu. Os dois ficaram ali. O menino disse que queria contar os carros pretos. Os irmãos tinham contato os vermelhos e os azuis mas ninguém tinha contado os pretos. Ele ficaria ali, para contar os pretos até que os irmãos voltassem.

O homem, depois de conversar com a diretora, pediu a ela que fosse até o carro chamar o menino. Ela abriu a porta, disse a ele que tinha ficado com saudades, falou que seus irmãos estavam perguntando por ele. O menino respondeu que aqueles não eram seus irmãos. “Mãe, acabou de passar um preto! Vou contar pros meus irmãos que eu vi um preto!”. A mulher calada. A diretora insistia. “Vamos, vem! Vamos voltar para o seu quarto! Eu fiz aquela canja que você gosta! Vem contar pra gente como foram as suas férias! Vem!”. “Mãe, mais um! Outro vem vindo, mãe! Nossa, desse jeito eu vou ganhar! Quanto carro preto, mãe!”.

Num solavanco a mulher saiu do carro, correu para fora do orfanato. O menino ficou sozinho. Olhava para a mulher e não entendia porque ela não queria ser sua mãe. A diretora insistia. O homem entrou no carro, o menino percebeu suas mãos trêmulas. Foram elas que lhe puxaram o braço e o arrancaram para fora. Seus brinquedos novos, todos que tinha ganhado de sua nova família, estava tudo ali. Mentira. Aquela não era sua família. O menino olhou para o homem, os olhos vermelhos, chutou os brinquedos, correu para o dormitório e não olhou para trás.

Outras crianças vieram buscar os brinquedos que tinha deixado. O homem chorava. A mulher esperava na estrada. A diretora foi chamar as duas crianças que brincavam no meio da poeira. Elas entraram no carro, a diretora fechou a porta, foram até a estrada e pegaram a mulher. A menina perguntou sobre o irmão. O pai disse que ele teria que ficar no orfanato, junto com os irmãos dele. Os irmãos de verdade. E, quem sabe, nas próximas férias, a gente fica com ele de novo. As crianças voltaram a contar os carros. “Olha um azul! Ponto pra mim!”. “Um vermelho! Ponto meu!”. A mãe, soluçando ainda, disse que também ia brincar. “Eu conto os pretos”.

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Para escrever um texto pessoal

Se eu escrevo “eu odeio beterraba”, você, que também odeia, lê a frase e se identifica. Ao lê-la, você afirma “eu odeio beterraba”. Neste momento acontece algo mágico: eu e você somos um, somos apenas eu, numa identificação completa.

E quando eu escrevo “eu amo São Paulo” você, que não ama, que detesta São Paulo, que escapa da cidade assim que tem oportunidade, ao ler a frase “eu amo São Paulo” não se reconhece, mas imagina, é capaz de se colocar no meu lugar, pensa na possibilidade de você mesmo dizer “eu amo São Paulo”, e revê, então, cada faísca de amor: uma caminhada à tarde nos morros da Vila Madalena, um passeio pelo Jardim da Luz e a visita à Pinacoteca, a estreia de uma turnê derradeira da Fernanda Montenegro, a vista ao longe da cidade no alto da Pedra Grande. É bem possível que você também comece a amar São Paulo, do jeito que dá, mas pode bem ser amor. E assim, mais uma vez, temos a possibilidade de sermos um, eu e você, sendo apenas eu.

As possibilidades são muitas. Quantas vezes posso tocar no fundo da sua alma ao dizer exatamente o que sinto? Inúmeras, inúmeras vezes. E a cada vez compartilhamos um pouco mais da alegria das palavras, que comunicam, que expressam, que nos aproximam.

O problema é que quando escrevo na primeira pessoa do singular eu me coloco perto de você, mas dificilmente você estará perto de mim. Se eu digo “eu me sinto só”, o que você pode fazer? Como me curar dessa solidão? O que você me dá em troca por essas palavras tão tristes? Melhor não escrever.

Talvez seja esse o mal que aflige os escritores: a ânsia em dizer o que os outros querem ouvir, em contraponto, o silêncio dolorido, vazio de qualquer resposta. O que você tem a me dizer? O que você sente e eu posso sentir junto a você? Por que você não diz nada? Me diga, por favor, me diga.

Me escreva um texto bem pessoal, cheio de eus em que eu também possa ser um com você. Me diga que você odeia beterraba, que você sonha com a Europa, me diga que você está prestes a desistir do seu grande sonho, me diga que está exausto, me diga que tem medo de trovão, de perereca, de fantasma em noite de lua cheia. Me diga tudo isso e ainda me diga mais. Me diga que se apaixonou, me diga que sofre por um amor perdido, me diga que tem calafrios toda vez que seu superior se aproxima, me diga que você tem vergonha de suas pernas finas, que não consegue terminar o mês sem estar no vermelho. Me diga que tem uma família louca, que tem ciúmes da sua melhor amiga. Me diga qualquer coisa, por favor, me diga.

Espero o seu texto, e espero que ele seja bem pessoal. Pode mandar por e-mail, por carta, por publicação no jornal. Pode jogar debaixo da porta, pode pixar no muro, imprimir em pequenos folhetos e espalhar pela cidade. O que importa é que o texto seja seu, e que eu possa me reconhecer nele, e assim eu possa estar próximo a você. Obrigada.

O Velho de San Telmo

Foi nas ruas de San Telmo que senti aquele calafrio. Em cada esquina, nos muros ou paredes, eu percebia um pequeno desenho, todos bem parecidos: um risco grande, em preto, com dois pequenos riscos cortando o risco maior, em vermelho. Em alguns lugares o sinal estava duplicado.

Contaram que há alguns anos houve ali um velho, que falava dialeto estranho, apontava o sol durante o dia, a lua e os planetas durante a noite. Poucos conversavam com ele. Quando alguém se arriscava, ele sorria, abria um caderno e mostrava desenhos com a posição dos astros, na página seguinte havia um desenho de uma mulher. Desenho em poucos traços, parecido com os sinais que ele rabiscava em todas as esquinas de San Telmo. Os rabiscos eram sinais. Os astros diziam que ela chegaria, e era preciso avisá-la, de algum modo, que ele estava ali, esperando. Esperou por anos. Depois de marcar todas as esquinas, as milhares de esquinas dos milhares de casarões de San Telmo, ele começou o trabalho de novo. Seu amor adivinhava o amor que viria, e enchia o bairro inteiro de uma atmosfera de saudade e ausência.

Não pude mais voltar a San Telmo. Antes de virar a última esquina tive a sensação de avistar um velho, que olhava para o céu. Quando olhei para o céu, tive um calafrio de saudade, e uma sensação que o velho esperava por mim.

Miniconto premiado no concurso Literacidade.

 

Um remédio para o cansaço

A menina tentava um sorriso, mas era evidente o esforço que fazia frente aos 38,5 de febre. Na saída do consultório médico, a mãe estava mais aliviada: o diagnóstico de virose afastava outras possibilidades de maior risco. Apesar da febre, aquilo não era quase nada. Só tomar bastante água, 3 vezes por dia desse remedinho, e em pouco tempo a menina estaria bem.

Percebendo a filha tão cansada, a mãe tenta alegrá-la e diz que ela pode escolher o que quiser para o almoço. Qualquer coisa? Sim, qualquer coisa! Qualquer coisa mesmo, mãe? Sim, filha, qualquer coisa. O problema é que a mãe não compreendia que o prazer infantil não é formado por sabores exóticos e especiarias. Ao contrário de tudo aquilo que ela mesma desejaria em um momento extremo de cansaço – sashimi de salmão, queijo minas com doce de leite, picanha muito mal passada, vinho malbec, tábua de queijos, sorvete de macadâmia, café Brazópolis coado, ovo caipira cozido com azeite e uma pitada de sal, caipirinha de limão com manjericão, linguado ao forno com cheiros de alecrim, purê de batatas com caldo de carne de panela – a menina sonhava com as surpresas que saíam de dentro da caixa do McLanche Feliz.

Não era o sanduíche sem graça que ela desejava, tampouco as batatas fritas ou o refrigerante. Ela bem sabia que em casa tudo aquilo era melhor e mais saboroso. O que dava prazer à menina era a surpresa, era a alegria dos novos brinquedos, era o cheiro de novo das pecinhas que brotavam de dentro da caixa.

Lá se foram, mãe e filha, para a lanchonete. Enquanto a menina brincava com os novos bonequinhos, o sanduíche ficou esquecido num lado da mesa. A mãe, faminta, passa a beliscar a batata: de tão preocupada com a filha esqueceu-se da sua fome. De dentro da bolsa seu telefone vibra: é o marido querendo notícias. Percebendo a voz exausta da mulher, promete a ela que fará uma surpresa para o jantar, só para ela, só para os dois.

Ela desliga o telefone, olha fixamente a filha que brinca com aquelas pecinhas frágeis e pensa no sabor do sashimi de salmão se alastrando pela sua boca. Frente ao cansaço extremo não há nada mais sublime que o prazer – qualquer prazer – que faça lembrar a alegria de sermos seres humanos e estarmos vivos, prazer que vence a vontade de morte e de descanço eterno. A mãe sorri, sabe que finalmente vai descansar e encontrar alívio de tantas obrigações. A filha brinca e se esquece da luta travada com seu pequeno corpo. As duas agora envoltas numa atmosfera de alegria e prazer frente à vida.