Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de prazer

O amor perdido na cidade

Enquanto a sirene da ambulância ressoava três ruas abaixo, os transeuntes levaram tudo que era dela. Sem vida, ela não era mais capaz de proteger seus pertences e ia se despredendo a cada momento. Não podia mais se agarrar ao ventilador que carregava quando um velho veio pegá-lo. Fazia muito calor naquele verão em São Paulo e ele faria melhor proveito que ela do eletrodoméstico. Ela já não tinha o que refrescar.

Levaram também seus colares. Nem eram joias, mas foram presente de uma amiga. Vieram do Pará, diz-se que eram capazes de proteger. Não havia mais o que proteger, talvez nem mesmo tivessem serventia, talvez não funcionassem. Levaram.

Passou por ali uma moça jovem, da idade dela, quase. Vendo o corpo, pensou que aquela seria a pessoa ideal para uma nova identidade. Era um pouco como ela, magra, cabelos castanhos lisos, rosto arredondado. Tão parecida poderia, ainda, ser bastante diferente. Talvez não tivesse o nome sujo, talvez trouxesse bons antecedentes criminais. Levou os documentos. Serviriam para alguma coisa.

Um malandro olhou para a moça estirada, num segundo notou a aliança na mão esquerda, lamentou a viuvez alheia, com um beijo sincero levou o anel e o resto de dinheiro que a moça trazia na carteira.

Quando já soava a sirene da ambulância, passou pela moça uma senhora, percebendo que ainda trazia os olhos abertos, se aproximou, olhou fundo seu olhar e tomou para si o resto de amor e felicidade da expressão ainda viva da moça morta. Passou a mão pelo seu rosto, fechou-lhe os olhos e se foi, levando sua alegria. Ela não precisa mais dela.

Já no IML o viúvo tentava reconhecer o corpo da mulher. Não reconhecia. Não via nada nela que lhe lembrasse aquela que tanto amava. Nada lhe lembrava o que tinham vivido, todo o amor, toda a alegria. As lembranças. Nada. Levaram tudo. Tudo.

Ele continuava procurando. Procurava por ela nas ruas, nos bares, nas escolas. Seguia sua vida procurando. Não sabia bem o que procurava. Não sabia mais como era seu rosto, seu cheiro, o sabor de seu corpo, sua risada. Não sabia mais. Ainda assim procurava.

Certo dia, num ponto de ônibus, pediu informações a uma senhora. Se assustou com a familiaridade de sua voz. Olhou em seus olhos e reconheceu toda a alegria que uma dia tinha vivido. Se apaixonou, em apenas um minuto ele se apaixonou. Era ela. Era ela a única mulher que ele amou e amaria na vida. Ainda ali, no ponto de ônibus, pediu em casamento a velha senhora. Ela sorriu, nervosa. Ele disse que tinha pressa, que não poderiam perder muito tempo mais.

A senhora, desacostumada ao amor, aceitou. Ele, ainda jovem, cuidou da senhora e a fez feliz por muito tempo. Morreram os dois, depois de muitos anos, velhos e felizes, agarrados na alegria que era a vida deles, que desde sempre havia sido a alegria dos dois.

Texto publicado em Mundo Mundano.

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Um remédio para o cansaço

A menina tentava um sorriso, mas era evidente o esforço que fazia frente aos 38,5 de febre. Na saída do consultório médico, a mãe estava mais aliviada: o diagnóstico de virose afastava outras possibilidades de maior risco. Apesar da febre, aquilo não era quase nada. Só tomar bastante água, 3 vezes por dia desse remedinho, e em pouco tempo a menina estaria bem.

Percebendo a filha tão cansada, a mãe tenta alegrá-la e diz que ela pode escolher o que quiser para o almoço. Qualquer coisa? Sim, qualquer coisa! Qualquer coisa mesmo, mãe? Sim, filha, qualquer coisa. O problema é que a mãe não compreendia que o prazer infantil não é formado por sabores exóticos e especiarias. Ao contrário de tudo aquilo que ela mesma desejaria em um momento extremo de cansaço – sashimi de salmão, queijo minas com doce de leite, picanha muito mal passada, vinho malbec, tábua de queijos, sorvete de macadâmia, café Brazópolis coado, ovo caipira cozido com azeite e uma pitada de sal, caipirinha de limão com manjericão, linguado ao forno com cheiros de alecrim, purê de batatas com caldo de carne de panela – a menina sonhava com as surpresas que saíam de dentro da caixa do McLanche Feliz.

Não era o sanduíche sem graça que ela desejava, tampouco as batatas fritas ou o refrigerante. Ela bem sabia que em casa tudo aquilo era melhor e mais saboroso. O que dava prazer à menina era a surpresa, era a alegria dos novos brinquedos, era o cheiro de novo das pecinhas que brotavam de dentro da caixa.

Lá se foram, mãe e filha, para a lanchonete. Enquanto a menina brincava com os novos bonequinhos, o sanduíche ficou esquecido num lado da mesa. A mãe, faminta, passa a beliscar a batata: de tão preocupada com a filha esqueceu-se da sua fome. De dentro da bolsa seu telefone vibra: é o marido querendo notícias. Percebendo a voz exausta da mulher, promete a ela que fará uma surpresa para o jantar, só para ela, só para os dois.

Ela desliga o telefone, olha fixamente a filha que brinca com aquelas pecinhas frágeis e pensa no sabor do sashimi de salmão se alastrando pela sua boca. Frente ao cansaço extremo não há nada mais sublime que o prazer – qualquer prazer – que faça lembrar a alegria de sermos seres humanos e estarmos vivos, prazer que vence a vontade de morte e de descanço eterno. A mãe sorri, sabe que finalmente vai descansar e encontrar alívio de tantas obrigações. A filha brinca e se esquece da luta travada com seu pequeno corpo. As duas agora envoltas numa atmosfera de alegria e prazer frente à vida.

O amor não é suficiente

Mais amor, por favor. É o pedido sincero de esquinas, muros, bilhetes lançados ao ar, bombas de gasolina, chafarizes ou qualquer objeto anônimo espalhado pela cidade. É o pedido dos grafites, das pixações, da arte urbana que se esconde em lugares inesperados. Mais amor, por favor.

E o amor cai bem em tudo. Família, política, escola, ordens bancárias, consultórios médicos, filas do INSS, listas de espera para concurso público, engarrafamento, linhas ocupadas nas maquinhas Cielo depois da meia noite, coleta seletiva de lixo, a procura por uma vaga no estacionamento, o esforço cotidiano no treino da natação para ganhar a próxima competição aquática. Mais amor, por favor.

Mas o amor, agora, para mim, não adianta muito. Mais amor, então, só piora. Não adianta mais amor quando na verdade preciso é de ânimo para encarar o tédio cotidiano. Não adianta mais amor quando tenho medo de esperar dias e dias por uma resposta que não chega. Não adianta mais amor quando todo o amor que tenho não é capaz de enxugar os baldes de lágrimas que derramo diariamente por puro medo da vida.

Quando o amor já é grande e suficiente, mais amor não serve. E às vezes o medo vem, mesmo quando o amor é farto e generoso. É nesse momento em que muitas vezes se vê crescer o desentendimento. O namorado abraça forte e mesmo assim ela o rejeita. Diz a ele que ele não a entende. E ele se esforça. O amor, nessas horas, pode não ser suficiente.

E quando o amor não é suficiente, o remédio é um só: a colher raspando o fundo de uma panela de brigadeiro. Não há melhor remédio. Mesmo que se atire de um abismo: uma colher que se transforma em duas, duas logo serão três, e depois da panela limpa, a culpa infindável por tanta gula. E é aí que acontece o milagre: enquanto se despenca pela ladeira da culpa e do prazer, esquece-se de tudo o mais que atormentava a vida. Fica apenas a lembrança do sabor sublime, e a culpa. O sabor passa, a culpa, bem, a culpa fica.

Não há amor capaz de tamanha façanha. Nada pode mudar o foco de uma dor como uma panela de brigadeiro comida às escondidas, para evitar qualquer tipo de compartilhamento. Nada dá mais ânimo para os exercícios diários, nada empurra mais em direção à vida e ao trabalho do que a culpa trazida pela gula não controlada.

Diante do amor, portanto, completo o pedido dos anônimos da cidade, e digo “e mais brigadeiro também, obrigada!”.

Procura-se

Procura-se um sócio, ou sócia, se existir tal palavra. Alguém que se disponha a adentrar comigo em aventuras criativas, em longos períodos de observação, em conversas que são como círculos em que a gente circula e circula e se confunde e se aproxima. Procuro um parceiro ou parceira que acredite que vale a pena perder tempo olhando para as cerejeiras.

O que almejo hoje é diferente dos planos de quando eu tinha apenas 15 anos: um parceiro no amor não é suficiente para todos os planos e projetos que pretendo realizar na vida. Para realizar tais sonhos preciso de mais: mais amigos, mais parceiros, mais amores indefinidos.

Há inúmeras vagas para inúmeros sócios: sócio no amor, sócio no trabalho, sócio na poesia, sócio na culinária, sócio nos sonhos humanitários de paz e justiça, sócio nas taças de vinho, sócio nos prazeres da arte, sócio nas corridas de bicicleta, sócio no cultivo de azeitonas, sócio nas reclamações gerais da vida, sócio na religião, sócio no prazer da leitura e da escrita, etc, etc, etc.

Mesmo que algumas destas vagas se encontrem preenchidas, há espaço para mais, sempre há espaço. Há espaço para uma nova parceria, para uma nova empreitada, para uma nova conversa. Há espaço, sempre, para aqueles que se dispoem a observar as cerejeiras.

Peço a todos que divulguem as vagas. São muitas. Os critérios, apesar de rígidos, são poucos. Basta desejar, com desejo singelo, dividir um projeto, almejar algo para além do parco cotidiano que nos rodeia. Basta, apenas, desejar ser sócio na vida. Não precisa enviar fotografia três por quatro. Basta dizer qual é a sua cor preferida.

Os benefícios da função serão construídos conjuntamente, mas há garantias de que trarão alegrias inesperadas, surpresas cotidianas de uma vida compartilhada, de amor e amizade e companheirismo. Procura-se.