Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Julho, 2013

A beleza que ninguém vê

Já estava claro quando seu Rubem chegou na praia. Foi direto até  onde costumava deixar sua jangada, ali, no alto da areia, longe do perigo da maré alta. O dia amanhecia claro, traria os turistas para a praia. Seu Rubem limpa a jangada, pensa que o dia vai ser bom, a maré baixa, o céu azul, os turistas.

Aos poucos a praia se movimenta, jangadeiros, pescadores, uns poucos turistas, vendedores começam a gritar seus cantos: passeios, cervejas, almoço, pedalinho, caiaque. Seu Rubem fica ao lado da jangada, aborda uns poucos que passam ao seu lado, oferece o passeio para os corais. Quanto? Eu faço por vinte e cinco. Mas todos fazem por vinte e cinto. Então te faço por vinte. Turista ganho.

Turista sobe na jangada, com mochila, óculos de sol, chinelos, relógio, câmera fotográfica, celular. Seu Rubem e um boné. Turista reclama, o passeio demora, ninguém vem ajudar a tirar a jangada da praia. Seu Rubem chama os amigos, os amigos não vêm. Ninguém vêm para ajudar a colocar a jangada no mar. Turista reclama.

Já no mar, Seu Rubem levanta a vela, amarra cordas, puxa o leme. Distribui coletes salva vidas e pergunta se alguém quer que ele tome fotografias. Seu Rubem toma fotografias. Toma fotografias e conduz a jangada até os corais.

A dois quilômetros da praia, lá onde existe o segundo maior coral de recifes do mundo, Seu Rubem atraca sua jangada, o turista desce junto a mais quinhentos outros turistas que vieram em centenas de outras jangadas, pagando cada qual seus vinte e cinco reais ao jangadeiro que puxa o leme e toma fotografias.

Os quinhentos turistas descem das jangadas, compram cervejas em outras jangadas flutuantes, tomam fotos e fotos e fotos, compram sorvetes, lagostas, comidas para peixe, alugam caiaques, jogam lixo no arrecife, cuidam das crianças que choram, machucam os pés nos ouriços do mar, fazem guerra com a comida do peixe, reclamam do horário do jangadeiro, compram mais cerveja, passam protetor solar nas costas uns dos outros.

Enquanto isso, Seu Rubem joga água na vela da jangada. E espera. Espera a hora de voltar ao continente, de voltar pra casa, de voltar pra Nêga. Espera que tudo acabe, que o dia termine, que a maré se encha disso tudo, se esbraveça e depois se acalme e tudo recomece, o dia claro, a jangada no lugar mais alto, os primeiros turistas, os primeiros comércios, é vinte e cinco, te faço por vinte, o ouriço, a cerveja, as fotos, a maré, a beleza que quase ninguém vê, o final do dia, a Nêga, o som do mar, os turistas, o som do mar.

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