Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de livros

Questionário

– Quantas árvores plantadas?

– Até agora, cinco.

– Livros escritos?

– Sim, dois.

– Filhos?

– Três.

– E o que você ainda espera da vida?

– Tudo.

Uma pequena estante: Livros que eu leio

Sou daquelas que adoro saber o que cada um está lendo no momento: seja pescoçando no metrô os livros que outros lêem, seja vasculhando as estantes das casas de meus amigos. Por isso, resolvi abrir aqui a minha estante: livros que estou lendo ou que já li. São pequenas resenhas, num esforço de exercitar a leitura, a escrita e o senso crítico. E também, no desejo de compartilhar aquilo que eu gostei ou, que não gostei. Às vezes me pego odiando aquilo que todo mundo achou o máximo. Tudo bem, nunca me achei muito dentro do padrão mesmo. Mas quem sabe aqui eu não consiga compartilhar com vocês e trocar ideias e sensações, entender o porquê se gosta ou não se gosta de tal ou tal livro, de tal ou tal autor.

Essa é a minha estante, sentem-se, fiquem à vontade. Dêem pitaco, me digam se estou enganada. Vamos transgredir!

A chuva molhou meu queijo

Chovia muito durante a tarde. Corri para fechar as janelas e vi que tinha esquecido um queijo descoberto na pia da cozinha. O vitral sobre a pia também estava aberto. A chuva molhou o meu queijo. Olhei para o queijo molhado, e enquanto tentava secá-lo e guardá-lo rapidamente, pensei na frase “a chuva molhou o meu queijo” e me lembrei de um certo livro que me parece que vendeu horrores, com o nome parecido “Quem mexeu no meu queijo?”.

Sucesso de vendas. Vi uma tia comprando o livro para seus sobrinhos adolescentes. Ouvi alguém dizendo que se tratava de um livro de autoajuda para negócios. De tudo, só não ouvi rumores de que era uma peça de teatro. Eu não sei dizer. Não li o livro. Não peguei o livro na mão, não folhei suas páginas. Não faço ideia do que se trate.

Mas minha recusa não termina por aí. Também não assisti à Paixão de Cristo, não sei qual é a trama do Harry Porter, não conheço o Avatar e desconheço seu significado. Na minha lista de não-lidos e não-assistidos o pior dos crimes parece ter sido não assistir à trilogia do Matrix. Pronto, falei.

Não. Não termina por aí. Há anos atrás eu assistia a uma aula na Escola de Comunicação e Artes da USP, junto com a turma de comunicação, e o assunto era a repercussão internacional sobre os hábitos etílicos do presidente Lula. Eu virei para a minha colega do lado, discretamente, e perguntei: “o que aconteceu com o Lula?”. É evidente que ela se ofendeu, e antes de me contar, indignada, o caso do jornalista que havia dito que o Lula era um pinguço, me repreendeu seriamente por ser tão desligada.

Para terminar, na última feira do livro que aconteceu na USP, onde havia um número incrível de editoras vendendo tudo pela metade do preço, com um número mais incrível de pessoas ávidas comprando e comprando e comprando todos os tipos de livro, eu parei na banca da Biruta. E parei porque a ilustração de um livro infantil, com uma menina com um nariz enorme e as bochechas completamente vermelhas, me chamou a atenção. Evidente que a ilustração me chamou atenção porque a banca estava vazia, e era possível ver tranquilamente todos os livros em exposição. Parei e ali fiquei. Enquanto folheava alguns dos livros, seus vendedores me contavam estórias e estórias infantis, seus olhos brilhavam, e eu no intuito de possuir aquele brilho no olhar, comprei quase a banca inteira.

Não passei na banca que vendia livros de antropologia – minha área de pesquisa. Nem quis visitar o espaço onde se encontrava a Companhia das Letras: tudo estava muito cheio. Corri para casa para devorar meus livros novos e a cada livro eu ia descobrindo um novo segredo. Quando me viram saindo com a sacola da Biruta, perguntaram se eu estava planejando ter filhos e por isso já estava equipando sua pequena biblioteca. Talvez.

As notícias cotidianas não me contam segredos, apenas me dão repertório para conversar com os adultos. Sem dúvida alguma Avatar, 300, Matrix e outras grandes produções falam muito sobre a nossa época e podem até ensinar alguma coisa a alguém. Assim como ler o jornal. Mas ainda prefiro os segredos dos livros infantis, seus castelos cheios de mistérios, a conversa entre a dona baratinha e o seu baratão. E quando penso de novo na frase “a chuva molhou o meu queijo” já me embrenho por possíveis estórias de ratinhos bêbados, terras distantes onde a chuva lava a louça e tudo o que há perto dela, queijos milagrosos que curam dor de barriga, dor de cotovelo e dor de amor. E nisso, sem dúvidas, há muito pouco espaço para o que acontece com o presidente da república. Sinto muito.

Crônica premiada no concurso Literacidade.

Lutando contra a balança

Toda mulher quer ter, no mínimo, dois quilos a menos. Eu também. Com dois quilos a menos eu me sentiria uma magrela, sem graça, mas ainda assim, gostaria de emagrecer, mesmo que fosse apenas pelo prazer de ter espaço para engordar de novo sem peso na consciência. Os brigadeiros seriam, no mínimo, duplamente mais saborosos.

Eu queria mais. Queria ter tempo e disposição para ler todos os livros que me enchem de curiosidade, para além daqueles que preciso, de alguma forma, ler: tenho por profissão estudar, e leio muito, o tempo todo. Mas eu queria, de fato, ler mais. O que faço não me parece suficiente.

Queria ter mais amigos. Não que os que eu tenho não sejam bons, mas ter muitos amigos certamente é melhor, haja vista que pessoas bravas, carrancudas, mal humoradas são logo julgadas como solitárias. Quem tem pouco amigo certamente tem algum problema. E eu, que encontro sérias dificuldades em me relacionar com grupos, privilegiando os amigos individuais – onde desenvolvo intimidade, pessoalidade, essas coisas bestas – me pego desejando ter mais amigos, certamente para tirar mais fotos e mostrar, com uma satisfação escondida, o quanto sou querida. Odeio a multidão, mas gostaria, de coração, que ela me amasse.

E perdida entre tantos desejos percebo que vou mudando de lugar. Perco um quilo, me torno mais magra, compro calças menores. Depois engordo de novo, compro novas calças e aumento o guarda roupa. Mudo de lugar. Compro mais livros, leio dois, acho que exagero e depois volto a assistir à novela das sete. Fui e voltei e aprendi alguma coisa no caminho. Procuro novos amigos, me distancio dos velhos, conheço pessoas e valorizo o que já tenho construído. Saí do lugar – de mim e dos outros.

O querer mais – sempre mais – ganha sentido de mudança. E mudar é bom. Desejar a mudança parece um bom começo para compreender o meu lugar no mundo: um lugar onde os outros gostam de mim, me apreciam e me acolhem, me respeitam e precisam de mim até um certo ponto. E a cada quilo perdido ou ganhado vou percebendo que não é isso que me faz mais querida, mas que a capacidade de mudar pode me fazer querer mais as pessoas que estão por perto. E isso me parece bom, muito bom.