Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de casa

O mundo da rua

Maria, não saia na rua. Por favor, não saia. Lá fora os homens andam cada vez mais raivosos. Não saia. Lá fora falta água, sobram enganos, há remendos nas ruas, nas pessoas. Ano passado prometeram asfalto novo. Asfaltaram. E agora, Maria, há de novo os buracos. Buracos nas ruas. Buracos nas almas. Prometeram de novo, mas dizem que agora o povo não acredita mais. Almas remendadas.

E talvez sejam esses buracos, ou a falta de chuva, ou o excesso de enganos, talvez seja isso, Maria, que faça os homens andarem de olhos tortos, à procura de erros, à procura de cansaços. E é na rua, Maria, que esses homens se encontram, vociferam, se ensurdecem. Não saia. Lá os homens levantam placas, derrubam uns aos outros, mentem. Lá os homens empunham armas, exalam suores, procuram a morte. É na rua, Maria, que as pessoas se acreditam diferentes, excelentes, usando seus melhores perfumes. E é ali que se gritam as diferenças, se proclamam direitos, se criam privilégios.

Na rua, Maria, tem o vento, tem a fumaça do carro, tem a criança que passa correndo na bicicleta. Não saia, Maria, por favor, não saia. Fique aqui comigo. Aqui dentro tem bolinho de chuva, tem história de bicho papão. Aqui tem música de Tom Jobim, e eu posso te ler um verso do Drummond. Aqui podemos receber seus amiguinhos, fazer guerra de água, brincar de bolha de sabão.

Aqui, Maria, somos só eu e você. Aqui não tem o diferente. Aqui não tem o perigo. Aqui, Maria, você inventa seu próprio idioma, define seus limites. Aqui é você quem cria seus horários, determina quem será o rei da sua história de princesa. Aqui só entra quem você quiser e jamais você precisará lidar com os males que habitam o lado de fora. Fique aqui comigo. Seremos eu e você.

Mas se um dia esse meu pedido lhe soar absurdo, se os limites de nossa casa se tornarem tão estreitos a ponto de você andar esbarrando nos móveis de seu quarto, se sair se tornar algo inevitável, cuide-se, Maria. Os homens são maus, a rua anda cheia de buracos, qualquer batida de vento pode lhe causar um resfriado, e eu não estarei lá para cuidar de você. Por isso, pense bem. Pense ainda melhor e fique comigo, Maria.

Vira lata

Ainda me lembro de nosso último encontro. Suas sombrancelhas arqueadas. Sua voz áspera. Suas costas para mim. Ainda era inverno, ainda fazia frio. Suas costas para mim. Você na sala de jantar, você no centro, você gargalhando. Eu ao longe, de longe, sem saber o que te alegrava tanto, o que te alegra tanto. Eu ao longe.

Aos poucos, vão trazendo notícias suas. Um novo emprego. Casa nova. Nova namorada. Pergunto por detalhes, não por curiosidade, mais para manter o assunto e chegar, talvez, ao que meu coração deseja saber. Mas nunca sei, nunca sei se você perguntou por mim. Nunca sei se você quer saber de mim.

E eu com tantas notícias, o coração repleto de novidades. Voltou a chover e o jardim de minha casa ganhou novamente a cor de seus olhos. Abriu uma loja de queijos no quarteirão de baixo de casa, parece que os sócios são mineiros, mineiros como nós. Descobri um novo cantor, desses que a letra corre antes da música, mas que fala muito do mais do mar que das montanhas que preenchem cotidianamente a nossa respiração.

Não. Não te direi nada disso. Não te direi ainda que Maria Eduarda já estica os pés e os força para ficar em pé. Ela, que ainda precisa tanto de nós, já dá sinais de querer o mundo, assim como nós o queremos. Não te direi que sinto saudades, nem que sofro pela sua ausência declarada. Não deixarei você saber que minha raiva é cortina sobre o palco, que se abre e some ao dar lugar a cada novo espetáculo.

É melhor que você não saiba do meu amor vira lata, é melhor que você não desconfie que eu conto os dias em que não te vejo, que cronometro os metros que nos distanciam. Que as coisas fiquem assim, que você também se lembre da minha voz áspera e não saiba da doçura que ela traz por detrás. Que você também pense que meu amor é devotado a outros, e que eu pouco pergunto de você. Que você não saiba do quarto sempre arrumado que tenho em minha casa, esperando pelo dia em que você vai chegar. E nesse dia, mesmo que eu ainda me lembre de suas costas voltadas para mim, vamos nos sentar à mesa, vou te pedir para passar o café, você vai me perguntar se a jaboticabeira já começou a florescer etc etc etc.

À espera

É preciso arrumar a casa. Por isso ontem comprei cravos e coloquei num vaso no centro da sala. Por isso arranquei os matos e ervas daninhas que empesteam a horta, separei as hastes ainda fortes da cebolinha, cortei as flores do manjericão. Por isso voltei a jogar quantidades de água generosas sobre todos os vasos da casa. Por isso vieram técnicos, pintores, eletricistas, jardineiros. Por isso joguei fora coisas antigas, coisas velhas, coisas inúteis. Tudo isso porque é preciso arrumar a casa.

E é preciso arrumá-la porque esperamos visitas. Para ser mais exata com as palavras, esperamos uma visita em especial, dessas que chegam com ares de boas vindas e vão ficando, ficando, se tornam moradoras e se alojam nos quartos e nas entranhas da casa e de seus antigos moradores. Dessas que trazem consigo uma ventania, mudam a rotina, impõem silêncios, exigem atenção.

É por ela que é preciso arrumar a casa. É por ela os cravos no centro da sala. É por ela os armários agora vazios, cheios de espaços para serem preenchidos por uma nova vida, por uma nova história. É por ela que ampliamos os nossos horizontes antes estreitos, é por ela que renovamos uma esperança no presente. É por ela que relembramos os mortos e celebramos uma vida prenha de promessas.

E como toda visita, essa também chega em momento inoportuno, sem aviso exato, nem data nem hora marcada. Talvez se tenha que deixar o copo sujo no meio da pia, um texto por terminar, uma lembrança por cerzir. Há tanto o que fazer que é certo que não dará tempo. Provas a serem corrigidas, artigos elaborados, projetos definidos. A espera por essa visita se faz presente. A qualquer momento. E vamos entendendo que é assim que esse tipo de visita chega. A qualquer momento. E vamos entendendo que o copo envolto de sabão e não ensaboado se tornará a tônica da vida daqui para frente, que sempre restará uma prova não corrigida no final do pacote sobre a mesa, que esqueceremos a consulta médica marcada para às três da tarde.

E aprenderemos, então, que a água é mais importante que o copo que a recolhe, que o ensinamento vale mais que a correção, que a vida é o que sobrevive na memória, e que as flores nos ensinam a esperar com alegria por aqueles que estão por chegar. Por isso a casa arrumada, quase toda arrumada. Por isso os cravos. Por isso os espaços abertos. Tudo isso para encher de alegria os momentos de espera. A espera pela visita que está para chegar.

Não construa sua casa na areia

Na história havia João e José. Ou o Joãozinho, Zezinho e Huguinho. Tanto faz. O que importa é que os personagens da história resolveram construir uma casa. Cada um o fez à sua maneira.

João construiu uma casa na areia. Casa de madeira, com ares de coisa provisória, como ele mesmo. Preparou o terreno meio às pressas, colocou os limites no espaço que desejava, escolheu o cômodo onde seria seu quarto. Teve dúvidas. Seguiu. Escolheu as taipas, material barato, teceu pacientemente um telhado de sapé. Levou uns poucos dias. Quando terminou, afastou-se dez passos da casa, olhou para ela, virou-se, olhou para o mar e achou que aquilo tudo era bom.

José sempre foi mais prudente. Levou dias escolhendo um lugar adequado para construir sua casa. Levou outros para escolher o material adequado. Levou tantos dias que quando escolheu, não lhe assomou nem um pingo de dúvida: sua casa seria de alvenaria, no alto de uma rocha. Nem vento nem tempestade poderiam derrubá-la. Desenhou o projeto com cuidado milimétrico. Gastou dinheiro, investiu em bons materiais. Definiu de antemão onde seria seu quarto. Teve certezas de tudo quanto fez. Depois de muitos e muitos dias de muito trabalho, finalizou a casa: se trancou em seu quarto, sentindo-se seguro, e achou que aquilo tudo era bom.

Num dia de forte tempestade, José não teve medo. João, sim. Enquanto José se encontrava seguro no escuro de seu quarto, João precisou enfrentar a chuva, subir no telhado e reforçá-lo. Enquanto João trabalhava, José dormia. Na tempestade seguinte, abriu-se um buraco na parede da sala de João. Algumas taipas cederam e foi preciso de novo enfrentar a tempestade. Enquanto isso, José de novo dormia, seguro e tranquilo.

Ao longo dos anos, João precisou reinventar sua casa milhares de vezes. Mudou o quarto de lugar, trocou o telhado, inventou novos materiais. E a cada vez que a chuva passava, ele andava dez passos à frente de sua moradia, olhava a casa, olhava o mar e achava que aquilo tudo era bom, muito bom.

Ao longo dos anos, José saía cada vez menos de seu quarto. Ele temia as tempestades, temia o mar. Sua casa lhe era tão segura, tão segura, que o resto do mundo lhe botava cheio de medo. Ao longo dos anos, José se esqueceu de sair de casa, olhar para ela e dizer que aquilo que havia construído era bom, muito bom. Mas isso a história não diz. O que se diz é que José foi prudente, enquanto João foi tolo. Ninguém diz que José terminou sozinho e triste, trancado numa cela, recusando-se a enfrentar o mundo lá fora. Ninguém diz que João, ao contrário, se reinventou a cada tempestade, que sua casa frágil lhe permitiu construir um espírito forte.

Talvez isso tudo importe muito pouco. Melhor ser triste e seguro do que enfrentar a tempestade lá fora. Melhor assim. Deixa a história como está.

Dicas para um mau humorado

Ao abrir os olhos pela manhã e perceber que o humor está pesado, feche os olhos imediatamente e só acorde no dia seguinte. Se acordar, no entanto, for inevitável, reflita se há algo realmente importante a ser feito ou vivido no dia. Se a conclusão for negativa, volte a dormir.

Se a vida continuar apesar do seu mau humor, acorde, mas não abra a janela. Não abra jamais a janela em dia de mau humor. O dia claro lá fora só faz piorar seu estado de espírito, o vento que sopra se transforma em ventania e quebra tudo à sua frente. Não abra a janela.

Se puder, não saia de casa. É melhor não se encontrar com os vizinhos recém mudados para a casa nova, é bem provável que eles não pressitam seu mau humor e te convidem para conhecer a nova churrasqueira. Irão te pedir, inclusive, para fazer o churrasquinho no domingo, você sabe, meus sogros estarão aqui e eu não tenho muita familiaridade com o feitio das carnes. Não saia de casa.

Se o mau humor se der no meio da semana, invente uma doença, conjuntivite, dor de garganta, enxaqueca, qualquer coisa, e não vá trabalhar. Trabalhar só irá pesar ainda mais o seu espírito improdutivo. Melhor perder o dia de trabalho que perder a vida se jogando pela janela em pleno meio dia. Não vá trabalhar.

Evite também a televisão. Você sabe que não há nada de interessante nos canais abertos e lembrar que há pouco você cancelou o seu pacote de TV paga só vai piorar seu estado.

Não tente fazer trabalhos manuais neste dia. Nem mesmo cortar a hera. Nem aguar as plantas. Nem lavar louça. Nem arrumar o armário. O veneno que corrói seu espírito facilmente se transferiria para as coisas e tudo se transformaria, rapidamente, em cacos. Não faça nada.

Se, ao final do dia, você ainda estiver são, pense que foi um dia de vitória, em que foi possível vencer o próprio espírito, segurando pelos chifres o bicho medonho que se aloja dentro de você pelo menos uma vez por mês. Durma, ao final, tranquilo. Agora ele só voltará no mês que vem.

Óleo de girassol

Eram duas e meia da manhã quando ouço tocar o interfone. É certo que eu estava dormindo, logo, imaginei mesmo que era sonho. A campanhia toca novamente e entendo que não era sonho. Acordo. Acordo com preguiça de levantar. O olho pesado, a vontade de ignorar qualquer novidade, o desejo de voltar àquele sonho, com o que é que eu sonhava mesmo?

De novo o interfone. É quando percebo que a campanhia continuará tocando até as sete e trinta se eu não me levantar e verificar o que está acontecendo. Quem chamaria a uma hora dessas? O marido dorme pesado do outro lado. Não há filhos em outros quartos. Lembro-me de que não há filhos.

Se não há filhos, não há motivos para me preocupar. Nada aconteceu. Antes mesmo de colocar o pé direito no chão volto pra cima da cama e me envolvo no lençol. Se não há filhos não há pressa. Que se espere as sete e trinta da manhã.

O dedo que aperta a campanhia, no entanto, não acompanha meu exímio raciocínio. Insiste. Coloco os dois pés no chão, juntos, aos mesmo tempo. Me dirijo à cozinha e atendo ao interfone.

– Pois não?

Silêncio.

– Pois não?

Silêncio.

– Eu vou perguntar pela última vez: pois não?

Com uma voz fraca, quase inaudível, como quem quer velar pelo sono alheio, o outro lado começa:

– Boa noite, senhora. Desculpe te acordar a essa hora da madrugada, é que eu faço parte de uma equipe na faculdade, estamos participando de um campeonato, e eu preciso muito conseguir, até às 5 da manhã, cem latas de óleo para a gente doar para a Casa de Auxílio ao Idoso.

– Casa do quê?

– Casa de Auxílio ao Idoso, é o asilo de nossa cidade, e nós, da faculdade de agronomia, estamos realizando um campeonato, um dos desafios é beneficiar as entidades carentes.

– E você quer o quê mesmo?

– Uma lata de óleo.

– Pode ser de girassol? Só tenho óleo de girassol.

– Pode ser de qualquer um, senhora, eu agradeço muito a sua compreensão e a sua ajuda.

Me dirijo à cozinha tentando lembrar o nome da faculdade da cidade. Estranho essa coisa de agronomia. Nunca ouvi falar de faculdade de agronomia. Será que abriram o curso esse ano? Será que era economia? Economia eu sei que tem, o Luiz dá aulas pro curso de economia.

Com uma garrafa de óleo na mão, volto ao interfone.

– Oi!

Nada.

– Ei!

– Oi senhora.
– Você disse economia ou agronomia?

– Economia, senhora. Economia.

– Ah, bom, já estou indo aí.

Antes de me dirigir ao portão, olho pela janela e vejo um rapaz encostado na grade. Boné e bermuda. Dentro de um carro, vejo mais três vultos. Por que esses jovens resolvem fazer isso a essa hora da madrugada? Antes de abrir a porta ouço o silvo da polícia, o rapaz entra correndo no carro, bate a porta e o veículo sai em disparada.

Quando percebo, são sete e trinta da manhã e eu adormeci no sofá, com uma garrafa de óleo de girassol abraçada ao peito. De qualquer forma, vou levá-la eu mesma à Casa de Auxílio aos Idosos, e vou também dizer ao Luiz para orientar esses rapazes a não irem pedir donativos no meio da madrugada. É preciso ter mais respeito com o sono alheio.

Conto publicado no site Mundo Mundano.

 

Convite para o baile

Um presidente foi deposto. A bolsa de valores caiu no Japão. Um banco internacional foi vendido. Uma amiga mudou de casa. Um bebê saiu do hospital. Uma festa aconteceu. O resultado de um concurso saiu. Outra festa vai acontecer. Foi inaugurado um posto de saúde no novo bairro da cidade. Duplas foram definidas para as próximas eleições municipais. Um amigo escreve dizendo que não estará presente à minha comemoração. Outro estará. Mais outro. Engravida-se. Nasce-se. Morre-se.

Tudo, tudo povoa minha cabeça, tudo faz bater mais forte o coração. Meus olhos fixos na tela do computador, notícias e notícias sendo atualizadas, o mundo girando, acontecendo, fervilhando, girando, girando. E meus olhos atentos, buscando novas atualizações, novas notícias, novidades dos amigos. Novidades. Novidades.

E quando meus olhos descansam da tela percebo a sala ao meu redor. A cortina não saiu do lugar. O pinóquio ainda está sentado, como há meses, no umbral acima da porta. Os quadros e as fotografias representam os mesmos lugares que representavam desde que foram colocados ali. As lembranças trazidas por cada objeto ainda são as mesmas. Dois porquinhos de barro em cima lareira. Galinhas de madeira ciscando uma sujeira que não existe. Uma luminária iluminando cotidianamente meus estudos. Uma cadeira ainda com o pé quebrado. Uma lâmpada ainda queimada.

Não. Nada é tão veloz. Não há notícias e atualizações e novidades e promoções capazes de modificar um milímetro o que acontece no lugar exato onde estou agora. Nada muda. O tempo não passa. Até as flores parecem não murchar nem envelhecer. Eu mesma não envelheço. Mentira que o tempo passa. É só ilusão. Ilusão de movimento.

Porque assim como eu, o mundo uma hora desconecta, desliga o computador, acaba a bateria, dá apagão. E nessa hora o que resta é mundo, esse mundo mesmo que conhecemos, com seus pinóquios e beija-flores e hortências e lâmpadas queimadas e porquinhos de barro sobre a lareira. O que resta é a gente olhando para as estrelas, lembrando do tempo em que apontar para estrela cadente fazia crescer verruga no dedo. O que resta é a gente mesmo, de carne e osso, sem novidades, sem mudanças, sem notificações. O que resta sou e você. E bem que poderíamos fazer um bom baile com isso tudo.