Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Fernão Dias

Grão de mostarda

Eu fui uma criança religiosa. Acreditava em Deus-Todo-Poderoso, ia à igreja, dava o dízimo de tudo o que recebia. Ainda assim, cometia um grande pecado: me faltava a fé. Eu acreditava com toda força de criança naquilo que a Bíblia dizia, confiava no amor generoso de Deus-Pai, repetia que Jesus era o Deus-Filho mas não era capaz de ter a fé que esperavam que eu tivesse. E quanto mais entendia que me faltava fé, mais me entranhava na igreja: fazia orações, pedia perdão por tudo, prometia a cada dia ser uma criança melhor, mesmo assim, minha fé parecia não aumentar.

Vez ou outra eu a testava: me colocava num lugar em que pudesse avistar uma montanha, qualquer que fosse. Fechava os olhos, dizia ao Deus-Todo-Poderoso que eu acreditava que ele era sim, Todo-Poderoso, e que por isso, poderia fazer aquela montanha mudar de lugar. Ainda de olhos fechados eu pedia perdão a Ele por minha fé tão miúda e repetia seguidas vezes que sabia que Ele compreenderia a minha carência, afinal, seria preciso tão pouco desta fé, era certo que Ele faria o que Lhe cabia – quem mudaria a montanha de lugar era Ele, e não a minha fé.

Eu ainda permanecia com os olhos fechados por um tempo. Titubeava. E se a montanha ainda estivesse lá? Se nada ao meu redor tivesse mudado? O que eu faria? Eu estaria derrotada, mais uma vez derrotada, apesar da leitura bíblica diária, das orações antes da sete da manhã, do dízimo, do perdão que pedi à coleguinha (mesmo que fosse ela a errada). Nada teria ajudado a aumentar a minha fé se a montanha ainda estivesse lá.

E estava. Intacta. Eu, mais uma vez, humilhada dentro de mim, envergonhada frente ao Todo-Poderoso. Ele me testava, pedia mais fé. Eu não sabia o que fazer. Fui então crescendo e passei a entender o que era dito na Bíblia como boas metáforas e não como verdades absolutas. Não era preciso, afinal, mover uma montanha para ser uma pessoa boa, amada, com bons sonhos e bons amigos. A questão das montanhas não me incomodou mais. Até semana passada, quando um novo fato veio derrotar de vez o que restava de minha fé.

Todas as semanas pego a estrada que me leva de Minas a São Paulo. Bem no meio do caminho há um lago enorme à direita, que só pode ser visto por cinco segundos a uma velocidade de 90km por hora. É quando piso no freio, dou seta para a direita, abro a janela e observo o meu lago predileto. Quando ele desaparece atrás de uma montanha eu sinto que estou sorrindo. Subo o vidro da janela e sigo viagem.

Nesta semana, no entanto, quando diminuí a velocidade ao me aproximar do lago, percebi que não era mais possível enxergá-lo: havia uma montanha na frente da paisagem. Uma montanha que não estava ali na semana anterior. Uma montanha que se moveu, me tirando a possibilidade de ver o lago e de acreditar que a fé seria apenas uma metáfora. Alguém muito mais fervoso que eu havia conseguido, afinal, mover uma montanha.

O que me derrotou foi perceber que essa pessoa fervorosa ainda estava em plena ação de fé: caminhões e mais caminhões de terra encontravam-se parados na pista, jogando toneladas de montanha na frente do meu lago. É certo que essa pessoa não fez uma oração, não fechou os olhos e pediu a Deus que Ele movesse aquela montanha. Não, ele chamou o engenheiro subchefe ao seu escritório, no vigésimo andar de um edifício na Avenida Berrini e lhe disse: “Por favor, construa um viaduto na altura do quilômetro 68 da Fernão Dias, preciso ter acesso fácil à fazenda de pedras e calcário que temos do outro lado do lago”. Ao que o subchefe, cauteloso, responde: “Seria mais fácil construir uma ponte, mais barato, seria preciso pouca estrutura”, ao que o homem cheio de fé responde não, prefere um viaduto, ele quer espaço e boa estrutura para transitar caminhões pesados. O subchefe, insiste, dizendo que seria preciso fazer uma elevação com um volume muito grande de terra para suportar a estrutura de um viaduto. Ao que o homem simplesmente diz: “Faça”.

E assim a montanha foi movida, e o nome do Todo-Poderoso nem mesmo foi citado. E assim ando à procura de algum religioso a quem possa confessar a minha falta crônica e irrecuperável de fé, e ter alívio para os dias de culpa que se seguiram ao ocorrido.

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“Você foi marcado em uma foto”

A câmera estava ligada, era preciso pensar rápido, o que, afinal, o repórter esperava que eu respondesse para uma pergunta tão sem propósito?  Enquanto tentava pensar sobre um assunto no qual eu nunca refletira, eu ouvia a respiração do câmera por trás das lentes. Ele, certamente, se deliciava com a minha angústia e estaria, irônico, sorrindo enquanto fechava a imagem sobre meu rosto aflito. Era preciso dizer à população mundial, posicionada atrás daquela câmera, o que eu esperava para o mundo para os próximos dez anos.

O tempo era diminuto e o repórter, cínico, me convidava a refletir sobre o mundo. E o mundo, naquele momento, me parecia minúsculo. Não eram os pobres da Índia ou os escravos bolivianos de São Paulo que apareciam na minha mente. Não eram as empresas farmacêuticas e seus testes em seres humanos que me visitavam. Nem mesmo era a política nacional, com seus escândalos, renúncias de ministros e cortes de orçamento o que me preocupava.

Eu lutava contra o meu egoísmo, mas só fazia pensar nas parcelas do financiamento da minha casa, nos prazos de entrega dos meus projetos, nos lugares do mundo que sonho em ainda conhecer. Eu espero que nos próximos dez anos eu não tenha envelhecido o suficiente para desejar fazer alguma plástica, espero que consiga comprar um carro com ar condicionado – o calor que tem feito na primavera é uma barbaridade. Espero que a malha do metrô de São Paulo triplique de tamanho e espero que o pedágio se torne mais barato no caminho para o litoral.

Perdida nos meus desejos, percebo os olhos do repórter, ainda ali ao lado, demandantes, esperando a resposta definitiva. Pensei então em Minas, pensei em São Paulo, pensei na Fernão Dias e disse, confiante, que gostaria que em dez anos os homens inventassem, finalmente, a máquina de teletransporte. Não era possível acreditar na nossa capacidade humana de desenvolvimento e ainda perder tanto tempo na estrada, no trânsito, no ponto de ônibus, na fila do metrô, na conexão São Paulo – Paris.

Os olhos do repórter sorriam. Eu havia passado no teste. O câmera, para meu alívio, disse corta!, desligou sua lente biônica, interrompeu a transmissão e voltei, então, ao meu lugar no mundo. Já na biblioteca – onde passo boa parte do meu dia – sentia meu telefone vibrando. Eram mensagens recebidas dizendo que haviam me visto na TV, lá no Rio de Janeiro; que eu havia sido marcada em uma foto no Facebook; que me ligariam de Minas na hora em que fossem cantar o parabéns para a bisavó para que eu pudesse, de alguma maneira, estar presente.

De dentro da biblioteca eu povoava o mundo. A minha incapacidade de estar presente em todos os lugares que eu gostaria se transformava em presença. Na hora marcada saí da sala de estudos e cantei parabéns para a bisa, comemorando com ela os seus 95 anos. No final da música, minha avó toma o telefone e diz que naquela hora iriam tirar a foto, e que eu estaria, junto com todos os meu primos, presente no registro daquele momento tão importante para a nossa família.

Ao desligar o telefone pensei nos olhos do repórter, e desejei que ele me abordasse mais uma vez, eu diria a ele que não era preciso inventar mais nada não, que tudo o que eu desejava para o mundo já estava ali: eu estava presente em todos os lugares em que eu desejava estar. E isso é suficiente.

Para Rebeca Campos

Nove quilômetros

Há quase dez anos, quase todas as semanas, pego a estrada que me leva de Pouso Alegre a São Paulo, e me traz de volta a Pouso Alegre. Quando criança ficava entediada com as longas horas de viagem que a gente fazia entre Belo Horizonte e Brasópolis. As estratégias eram muitas: a cada carro vermelho que passava na pista contrária, eu fazia um ponto, a cada azul, meu irmão pontuava. Valia também a brincadeira de ir para a lua e adivinhar o que podia levar. Ou ainda cantar a sequência inteira, repetidas vezes, da velha que estava a fiar e veio a mosca lhe perturbar.

Ontem ganhei do meu pai um aparelho de som para instalar no carro. Agora minhas viagens não serão tão solitárias. Minhas estratégias são outras daquelas de quando era criança: invento histórias, me emociono com perdas, discuto relações com amigos de modo profundo. Me encanto quando percebo uma paisagem que não tinha notado antes: no caminho de volta de São Paulo a Pouso Alegre, assim que passa Bragança Paulista, há uma descida longa depois de um viaduto e quando se olha para a direita é possível avistar um lago enorme, enorme. Faz uns dois anos que percebi isso. Certamente abriram um clarão, derrubaram árvores. Não é possível que em mais de cinco anos passando por ali todas as semanas eu não tenha percebido tamanha grandiosidade. Prefiro achar mesmo que algo mudou na paisagem. Fico contando as curvas para chegar nesse trecho e por uns 5 segundos avistar o lago enorme, enorme.

A Fernão Dias é a estrada do trabalho: ela me leva para estudar, para trabalhar, e me traz de volta para casa. Mas a estrada que gosto mesmo é a que me leva para Brasópolis. São apenas 70 quilômetros, que dirijo no mais puro gozo. Lembro que quando a estrada ainda era muito ruim, vi uma propaganda do governo dizendo que a transformaria de queijo suíço em queijo minas. De fato aconteceu. A estrada é um tapete e a vista que a acompanha é mais bela que a dos Alpes. O ponto mais importante da estrada, no entanto, é o cruzamento em Piranguinho: ali tenho que escolher continuar e ir para Itajubá, Piquete, Lorena, Rio de Janeiro, ou virar à direita, andar mais 16 quilômetros e chegar até Brasópolis.

Nascida em Beagá, crescida em Pouso Alegre, feita moça em São Paulo, é para Brasópolis que volto quando quero me sentir em casa. Apesar de não ter amigos na cidade, são aquelas janelas olhando todas para a rodovia, é o sino da igreja da praça, é a entrada que dá para o Vale do Girassol que me faz lembrar quem eu sou ou ainda tenho esperanças de ser. A caminho de Brasópolis avisto uma placa que indica que ainda faltam nove quilômetros. Poderiam ser nove eternidades. E eu estaria sempre me dirigindo para Brasópolis, banhada  pelo amarelo que inunda o entardecer e colore aquelas montanhas. São esses nove quilômetros que enchem meus olhos e me dão coragem para todas as semanas voltar para a Fernão Dias e continuar vivendo no caminho entre Pouso Alegre e São Paulo.