Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Quintal

Amor, amor, amor

Há ainda a roupa estendida no varal, mas isso não é importante, meu amor. Esqueça. Esqueça também a alta dos tributos. Já há vozes em demasia a bradar por soluções: as propostas escorrem pelo ladrão. Não se preocupe. Aquele boleto em cima do balcão da cozinha, ainda no início das centenas de parcelas, esqueça. Ele será pago a seu tempo e nada há que fazer. É preciso buscar as roupas na passadeira, ligaram hoje dizendo que está tudo pronto. Está pronto, como tudo fica a seu tempo. Não se preocupe. Amanhã buscaremos. O prazo final para entrega daquele seu projeto se aproxima. Não é preciso lembrar. Mas é preciso dizer não se preocupe. As linhas e as palavras foram construídas ao longo do tempo. Não se preocupe.

É preciso, porém, estudar com urgência novas línguas, e descobrirmos novas maneiras de dizer “eu te amo”. E dizê-las todos os dias, pelo menos uma vez ao dia. É preciso guardar, de maneira solene e sagrada, o entardecer, para percebermos, juntos, o canto que cantam os pássaros ao voltarem para suas casas, o barulho que fazem os bichos que revolvem a terra ao se prepararem para a chegada do orvalho, o vento que entra em casa e nos convida a passear.

Não se esqueça, no entanto, de arrumar a cama todos os dias, para que ao anoitecer ela esteja pronta para receber os nossos corpos cansados, e nos abrace, como nos abraçamos todas as noites. Não se esqueça também de vigiar meu sono, para que não se percam as palavras que digo quando não tenho controle de meus segredos: posso ter esquecido, ao longo do dia, uma nova expressão de amor.

Lembre-se que é preciso, todos os dias, aguar a horta. E ao se curvar, meu amor, sobre o canteiro, não se esqueça que devemos essa mesma reverência a tudo o que é pequeno, a tudo o que é lento, àquilo que passa despercebido: uma lágrima sozinha, um suspiro distraído, um olhar cheio de medo. E como fartamos a terra de água, que possamos também nos fartar de cada detalhe, preenchendo, assim, nossa eterna necessidade de amor.

Não é de bom tom, meu amor, desperdiçarmos o tempo. Que as mãos estejam sempre entrelaçadas. Que o pressentimento chegue antes da voz que clama por carinho. Que os olhares se cruzem e não se afastem. Que o abraço não termine antes do final do choro. Que haja sempre chocolate à mesa, casado ao cheiro de café coado. Como eu e você. Como eu e você.

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O mundo da rua

Maria, não saia na rua. Por favor, não saia. Lá fora os homens andam cada vez mais raivosos. Não saia. Lá fora falta água, sobram enganos, há remendos nas ruas, nas pessoas. Ano passado prometeram asfalto novo. Asfaltaram. E agora, Maria, há de novo os buracos. Buracos nas ruas. Buracos nas almas. Prometeram de novo, mas dizem que agora o povo não acredita mais. Almas remendadas.

E talvez sejam esses buracos, ou a falta de chuva, ou o excesso de enganos, talvez seja isso, Maria, que faça os homens andarem de olhos tortos, à procura de erros, à procura de cansaços. E é na rua, Maria, que esses homens se encontram, vociferam, se ensurdecem. Não saia. Lá os homens levantam placas, derrubam uns aos outros, mentem. Lá os homens empunham armas, exalam suores, procuram a morte. É na rua, Maria, que as pessoas se acreditam diferentes, excelentes, usando seus melhores perfumes. E é ali que se gritam as diferenças, se proclamam direitos, se criam privilégios.

Na rua, Maria, tem o vento, tem a fumaça do carro, tem a criança que passa correndo na bicicleta. Não saia, Maria, por favor, não saia. Fique aqui comigo. Aqui dentro tem bolinho de chuva, tem história de bicho papão. Aqui tem música de Tom Jobim, e eu posso te ler um verso do Drummond. Aqui podemos receber seus amiguinhos, fazer guerra de água, brincar de bolha de sabão.

Aqui, Maria, somos só eu e você. Aqui não tem o diferente. Aqui não tem o perigo. Aqui, Maria, você inventa seu próprio idioma, define seus limites. Aqui é você quem cria seus horários, determina quem será o rei da sua história de princesa. Aqui só entra quem você quiser e jamais você precisará lidar com os males que habitam o lado de fora. Fique aqui comigo. Seremos eu e você.

Mas se um dia esse meu pedido lhe soar absurdo, se os limites de nossa casa se tornarem tão estreitos a ponto de você andar esbarrando nos móveis de seu quarto, se sair se tornar algo inevitável, cuide-se, Maria. Os homens são maus, a rua anda cheia de buracos, qualquer batida de vento pode lhe causar um resfriado, e eu não estarei lá para cuidar de você. Por isso, pense bem. Pense ainda melhor e fique comigo, Maria.

Vira lata

Ainda me lembro de nosso último encontro. Suas sombrancelhas arqueadas. Sua voz áspera. Suas costas para mim. Ainda era inverno, ainda fazia frio. Suas costas para mim. Você na sala de jantar, você no centro, você gargalhando. Eu ao longe, de longe, sem saber o que te alegrava tanto, o que te alegra tanto. Eu ao longe.

Aos poucos, vão trazendo notícias suas. Um novo emprego. Casa nova. Nova namorada. Pergunto por detalhes, não por curiosidade, mais para manter o assunto e chegar, talvez, ao que meu coração deseja saber. Mas nunca sei, nunca sei se você perguntou por mim. Nunca sei se você quer saber de mim.

E eu com tantas notícias, o coração repleto de novidades. Voltou a chover e o jardim de minha casa ganhou novamente a cor de seus olhos. Abriu uma loja de queijos no quarteirão de baixo de casa, parece que os sócios são mineiros, mineiros como nós. Descobri um novo cantor, desses que a letra corre antes da música, mas que fala muito do mais do mar que das montanhas que preenchem cotidianamente a nossa respiração.

Não. Não te direi nada disso. Não te direi ainda que Maria Eduarda já estica os pés e os força para ficar em pé. Ela, que ainda precisa tanto de nós, já dá sinais de querer o mundo, assim como nós o queremos. Não te direi que sinto saudades, nem que sofro pela sua ausência declarada. Não deixarei você saber que minha raiva é cortina sobre o palco, que se abre e some ao dar lugar a cada novo espetáculo.

É melhor que você não saiba do meu amor vira lata, é melhor que você não desconfie que eu conto os dias em que não te vejo, que cronometro os metros que nos distanciam. Que as coisas fiquem assim, que você também se lembre da minha voz áspera e não saiba da doçura que ela traz por detrás. Que você também pense que meu amor é devotado a outros, e que eu pouco pergunto de você. Que você não saiba do quarto sempre arrumado que tenho em minha casa, esperando pelo dia em que você vai chegar. E nesse dia, mesmo que eu ainda me lembre de suas costas voltadas para mim, vamos nos sentar à mesa, vou te pedir para passar o café, você vai me perguntar se a jaboticabeira já começou a florescer etc etc etc.

Une petite liste

Desaprendemos a esperar. O celular e seus milhares de aplicativos e conectividades não nos permite mais sentar e olhar ao redor na sala de espera do dentista. Mas isso não tem lá grande importância, afinal, antes dos celulares, havia as revistas, amassadas de tanto passadas e repassadas sem um olhar que realmente se interessasse. O mesmo fazemos hoje com as páginas da internet: nosso dedo desliza pela tela não em busca de informações, mas à procura de algo que esvazie o tempo da espera. Olhamos mas não vemos. Lemos mas não entendemos. Procuramos e não queremos encontrar nada.

Não, os tempos não são piores hoje. Nós somos os mesmos. Sempre somos os mesmos. E não sabemos esperar. Precisamos preencher o tempo, povoar a mente, enganar o coração. Mas aprender é preciso, é sempre preciso, e pode ser, também, útil para alguma coisa. Pensei então numa lista de espera, pequena, afinal, aprender a esperar é tarefa grave e não se presta a grandes conselhos, mas antes em desafios profundos, destes que revolvem a alma.

Para aprender a esperar:

  1. Plante algo e vigie seu crescimento. No primeiro dia a terra continua a mesma. No segundo, o mesmo. No terceiro, ainda. No quarto talvez você perceba um pequeno ponto verde aparecendo na terra, um verde duvidoso. Dali em diante a certeza cresce, a esperança desponta, a terra se transforma em movimento e a vida resplandece. É certo que depende da qualidade da planta escolhida. Para quem é iniciante na arte da espera, plante uma horta: é dos crescimentos mais rápidos! Se você já é iniciado ou veterano na arte da espera, saberá apreciar o crescimento de uma árvore, que acompanha a espera das estações.
  2. Escolha um momento do dia como um tempo sagrado. O entardecer geralmente se encaixa bem a esses exercícios de espera. Espere pelas seis da tarde, por exemplo. E comece a se preparar para sua chegada no mínimo meia hora antes. Sinta o entardecer, tente perceber o momento em que ele se aproxima, se aquiete, pare para olhar para o horizonte, onde quer que você esteja. Mesmo que o entardecer se mostre numa vidraça amarelada no edifício à frente da sua janela.
  3. Dia desses li em algum lugar que num momento de ansiedade, é preciso fazer algo que nos acalme. Seria fácil se soubéssemos, de antemão, o que nos acalma. Não, não lançamos mão de calmantes. Mas podemos ir em busca de outras ilusões. Entendi, então, que descobrir o que nos acalma é um exercício de espera. E como descobrir um remédio efetivo, que tenha efeito em todas, ou quase todas as situações? Talvez o melhor conselho para alcançar tamanha descoberta seja o de diminuir o volume das vozes, abrir mão da urgência dos desejos, afagar os sonhos antigos e ainda presentes, cavoucar lembranças nas paredes da memória, sentir o coração batendo, pulsando, e tentar identificar o cheiro que nos rodeia nesse momento, ou a cor que preenche os nossos olhos mais internos, ou a melodia ou o timbre de voz que nos sobrevêm no vento. Talvez o que nos acalme tenha exatamente esse tom, esse odor e esse timbre.
  4. Trabalhe. E não digo trabalhar para ganhar dinheiro ou cumprir obrigações. Mas para lembrar que sempre é possível e necessário construir algo. Seja o que for. Seja da forma que for. É sobre esse trabalho que construímos as teias da espera, é ele quem nos dá a base e a medida do que somos enquanto tentamos chegar em algum lugar. Mesmo que esse lugar seja apenas e simplesmente a descoberta.
  5. Por fim, não evite a espera. Enfrente, abra o peito. E ame, sempre.

À espera

É preciso arrumar a casa. Por isso ontem comprei cravos e coloquei num vaso no centro da sala. Por isso arranquei os matos e ervas daninhas que empesteam a horta, separei as hastes ainda fortes da cebolinha, cortei as flores do manjericão. Por isso voltei a jogar quantidades de água generosas sobre todos os vasos da casa. Por isso vieram técnicos, pintores, eletricistas, jardineiros. Por isso joguei fora coisas antigas, coisas velhas, coisas inúteis. Tudo isso porque é preciso arrumar a casa.

E é preciso arrumá-la porque esperamos visitas. Para ser mais exata com as palavras, esperamos uma visita em especial, dessas que chegam com ares de boas vindas e vão ficando, ficando, se tornam moradoras e se alojam nos quartos e nas entranhas da casa e de seus antigos moradores. Dessas que trazem consigo uma ventania, mudam a rotina, impõem silêncios, exigem atenção.

É por ela que é preciso arrumar a casa. É por ela os cravos no centro da sala. É por ela os armários agora vazios, cheios de espaços para serem preenchidos por uma nova vida, por uma nova história. É por ela que ampliamos os nossos horizontes antes estreitos, é por ela que renovamos uma esperança no presente. É por ela que relembramos os mortos e celebramos uma vida prenha de promessas.

E como toda visita, essa também chega em momento inoportuno, sem aviso exato, nem data nem hora marcada. Talvez se tenha que deixar o copo sujo no meio da pia, um texto por terminar, uma lembrança por cerzir. Há tanto o que fazer que é certo que não dará tempo. Provas a serem corrigidas, artigos elaborados, projetos definidos. A espera por essa visita se faz presente. A qualquer momento. E vamos entendendo que é assim que esse tipo de visita chega. A qualquer momento. E vamos entendendo que o copo envolto de sabão e não ensaboado se tornará a tônica da vida daqui para frente, que sempre restará uma prova não corrigida no final do pacote sobre a mesa, que esqueceremos a consulta médica marcada para às três da tarde.

E aprenderemos, então, que a água é mais importante que o copo que a recolhe, que o ensinamento vale mais que a correção, que a vida é o que sobrevive na memória, e que as flores nos ensinam a esperar com alegria por aqueles que estão por chegar. Por isso a casa arrumada, quase toda arrumada. Por isso os cravos. Por isso os espaços abertos. Tudo isso para encher de alegria os momentos de espera. A espera pela visita que está para chegar.

O amor nos torna patéticos

O amor nos torna patéticos. E não pelas frases ditas em idioma infantil. Não pelas cartas ridículas que Pessoa nos ensina a escrever para falar de amor. Não pelo dinheiro gasto com coisas efêmeras que se esfumaçam em segundos. Não pela necessidade obsessiva que toma aqueles amam de ver um sorriso no rosto da pessoa amada.

O amor nos patéticos porque nos permite ver coisas que só os que amam vêem. Aqueles que não amam se perguntam o que aquele rapaz tão inteligente e bonito viu numa moça tão sem atributos. O rapaz vê. Ninguém mais vê. E aí o jogo se torna patético porque essas perguntas são, por natureza, patéticas. O rapaz afinal vê algo que existe na moça ou algo que ele deseja que exista nela? O amor é criatividade ou ilusão? Outra pergunta patética, porque se realidade ou ilusão, o amor faz do rapaz um moço diferente, ele caminha leve na rua, chuta pedrinhas, não reclama do esbarrão que levou de outro moço que passava, moço que não ama, certamente.

E o amor se torna patético porque pode se prolongar por toda uma vida. Sessenta anos vividos ao lado de um crápula, odiado por todos mas amado por alguém que viu nele algo que ninguém via. A viúva, ao lado do caixão, chora lágrimas verdadeiras enquanto outros agradecem o favor dos deuses por levar embora alma tão nebulosa. O segredo da viúva é esse amor que cega e que faz ver algo que só ela vê.

O amor também pode acabar num segundo: momento em que se abre um abismo entre aquilo que víamos ou achávamos que víamos, e uma realidade cinzenta, comum, cotidiana. Não vemos mais. Não conseguimos mais ver o que víamos antes. Os pais deixam de ser nossos superheróis e se tornam pessoas comuns, cheias de vícios, cheias de fraquezas. A mulher amada, tão diferente de todas as outras que já conhecemos, de repente se perde na multidão, não distinguimos mais suas qualidades, a maneira como escondia o cabelo atrás da orelha, como levantava a sobrancelha enquanto tomava sua xícara de café. Seu gestos agora se parecem iguais aos de toda a humanidade. O amor saiu pela porta dos fundos e levou consigo nossa capacidade de ver as coisas de um jeito diferente, de um jeito que só a gente via.

E quando o amor se vai, patético, ficamos nós, perdidos, olhando para o mundo e não o reconhecendo mais. O que fazer agora com esses pais, os únicos que temos, que são comuns, fracos, injustos às vezes, que envelhecem, que recusam os nossos cuidados? O que fazer com essa mulher que ainda está à nossa frente, tomando café da mesma xícara cotidiana, igual a todas as outras xícaras e a todas as outras mulheres cotidianas?

O amor nos torna patéticos. Cria ilusões. Muda a realidade. Constrói abismos. Nos faz ter saudades. Formula idiomas. Inventa países. E nada nos salva. Nada nos salva de sua eternidade e de tudo aquilo que lhe é efêmero.

Bem aventurados todos aqueles que um dia encontraram o amor, e se tornaram, como todos os outros, patéticos. Patéticos e felizes, por instantes ou por toda a eternidade.

Acerto de contas

Não, meu amor, eu não tenho culpa. Você sabe que foi você quem entendeu errado. Você sempre entende tudo errado, e eu, bem, eu sempre tenho que explicar tudo de novo. Às vezes eu consigo exercitar de forma magnânima minha paciência, mas às vezes eu estouro mesmo, e então, se você ouve mais do que deveria por um simples deslize, você sabe, a culpa, no fundo, no fundo, foi sua.

Eu não tenho culpa de ser disciplicente às vezes, aliás, eu jamais sou displicente, mais uma vez foi você quem entendeu errado. Eu estava ocupada, ocupada com os nossos sonhos, os nossos compromissos, eu tive que me ausentar, meu amor. Era para o nosso bem. Você sabe disso e ainda assim me cobra. E outra vez eu exercito minha paciência para te explicar que você entendeu errado, que na verdade tudo o que parece ausência é pura demonstração de amor da minha parte.

Mas você cobra. Você cobra amor, atenção, carinho. Quando é que deixei de ser carinhosa com você? Ah, mas naquele dia você provocou, não lembra? Você não lembra que eu fiquei irritada porque você começou a criticar, sem o menor argumento, aquele diretor de cinema que eu adoro? Você provocou! Você provocou tudo e depois ficou reclamando que eu não sou carinhosa com você. Percebe como você se engana nas avaliações que faz ao meu respeito?

Sem contar o tanto, o tanto que você erra e eu relevo. Eu relevo as roupas jogadas, os telefonemas não atendidos, as noites silenciosas, eu relevo seus esquecimentos, as datas importantes que você ignora, relevo suas piadas sem graça, seu comportamento às vezes inadequado, relevo suas opiniões rasas, relevo, acima de tudo, o quanto eu gostaria que você fosse e simplesmente você não é. Eu relevo.

Por isso, meu amor, eu não tenho culpa. Eu te amo e é você quem não entende nada. Sei que você às vezes procura remendar o tanto que me falta: você tenta me agradar exatamente por saber que eu, meu amor, não tenho culpa. Nessas horas só há um remédio: assuma que sou eu quem tem razão, sou eu quem segura as pontas dessa nossa relação, sou eu que sei o rumo. E por fim, assuma que foi você quem errou, me abrace e deixe que as coisas voltem ao seu lugar. Assim, meu amor, continuaremos felizes, como sempre fomos.