Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de espanto

Pés de bailarina

O velho artesão contava histórias para a plateia que se exprimia em uma sala pequena. Cada homem esculpido na madeira trazia um nome, uma história, um motivo. O olhar daquele velho dava vida e movimento aos homens inertes, presos em base firme: todos os pés pisavam firme um velho jacarandá.

No canto da sala, a menina olhava a janela. Lá fora montanhas altas, o céu azulado, o desejo de passear, de ter os pés empurrados por correntezas, livres do jacarandá que o velho tanto falava. A menina esperava pelas cachoeiras, prometidas pelos pais no café da manhã assim que visitassem o velho artesão que talhava sapatinhos nas madeiras da região.

Em meio a histórias que falavam de trabalho, de lutas na terra, de foices e bananeiras, o velho percebe a menina segurando firme um dos seus sapatinhos de madeira no. Ainda desinteressada, a menina pergunta por que ele insistia em fazer sapatos que ninguém poderia calçar. O velho, aprendido a olhar para a natureza, aprendido a olhar para os homens, percebe o porte de bailarina da menina – a coluna ereta,  altiva no canto da sala, os pés calçando sapatilhas, pousados no chão em movimento perpendicular, prontos para o salto.

Foi quando ainda era moço, trabalhava na roça, que encontrou lá no meio do arroz, um pedaço de madeira. Tão bonito que brilhava, tão cheio de forma que não se adivinhava se era uma girafa ou um tamaduá. Botou logo o naco da madeira no imborná e guardou para mostrar para a mãe. Ela logo disse que não era nada daquilo, que o pedaço de madeira era uma sapatilha de moça bailarina que fora perdido enquanto ela colhia arroz. Tanto tempo esquecida, a sapatilha se esquecera o que era. Cabia a ele, agora, relembrar a ela o seu estado de graça, talhando movimentos, reitrando todo o excesso do esquecimento.

Durante a noite, a mãe iluminava com lamparina para que o filho pudesse esculpir de novo a madeira, encontrando a forma, o movimento, a leveza perdida. Iluminando, a mãe dançava com a lamparina, em um jogo de luz e sombra, oferecendo ao filho claridade e som, enquanto ela própria sonhava.

No fim de uma semana, toda feita de dança e luz, lá estava o sapatinho de novo descoberto. A mãe ainda dormia, sonhando  com passos e danças, o filho lhe oferta o pequeno mimo e volta ao campo em busca de novas formas, novas descobertas. Em todas as madeiras em que descobriu formatos infinitos, o velho sempre encontrou o pequeno sapato, envolvendo os pés de cada homem, mulher, bicho, esperança.

A menina, ouvindo o velho, respirava pouco, apertava forte o sapatinho nas mãos, esquecida das cachoeiras, esquecida das pessoas na sala, os pés já nas pontas dos dedos, prontos para o próximo movimento. Durante a tarde, enquanto sentia a água tentando levar seus pés para longe, ainda lembrava do balanço daquela senhora bailarina, que se movia toda para dar luz ao filho que criava, na madeira, a peça que ela sempre sonhou em executar.

Boas vindas

Prezada Nara,

Só hoje me dei conta de que você é mais uma moradora de nossa casa. De todas as outras vezes que nos encontramos, no susto que levava, eu não percebia que eram sempre os mesmos olhos a me encarar. Eu não percebia que era sempre você. E hoje, enquanto eu aguava o tomilho, você não pulou na minha direção – o que me colocaria, mais uma vez, em estado de pânico – mas me olhou quieta enquanto eu despejava borbotões de água sobre você.

Meu primeiro intuito foi te enxotar da horta a vassouradas, mas você me olhava com olhos tão fixos, tão certos. Hesitei. Você teve a coragem que me falta: olhou o inimigo nos olhos e não recuou enquanto não reconheceu naquele olhar a piedade e a bondade de quem escolhe não liquidar uma pequena perereca que lhe incomoda. Eu era infinitamente maior do que você, mas o seu olhar me encarou com coragem até reconhecer uma fisga de esperança nos meus olhos. Foi quando decidi recuar e deixar de lado minhas estratégias de guerra contra você.

E já que agora sei onde você mora e posso te reconhecer transitando pela minha casa – não são inúmeras pererecas, é apenas você – é necessário, em primeiro lugar, que você ganhe um nome. E ao te dar um nome, Nara, eu te aceito e te reconheço como única. Não que todas as pererecas do mundo possam se aproximar de mim a partir de agora, mas você, com o seu olhar, abriu fendas no meu universo até então interditado para as pererecas.

Em segundo lugar, é preciso estabelecer algumas regras. Eu sei onde você mora – no tomilho – e você também deve saber onde eu moro. Eu, sinceramente, não gostaria de te encontrar no meu quarto ou no meu banheiro. Se assim acontecer, desconfio que nem sequer seu olhar será capaz de abrandar a minha fúria.

A casa é grande, eu sei, mas eu também não gostaria que você fizesse festas e nem recebesse visitas. É preciso, antes de tudo, manter a ordem e a intimidade do nosso lar. Se você se sentir muito sozinha, te peço encarecidamente que saia um pouco, vá dar uma volta, passear pela cidade. Sabe, Nara, a cidade é bonita, cheia de gente, muitos carros, as possibilidades são enormes.

Por fim, reconheço que foi com alívio que te encontrei hoje. Não por saber agora que não são muitas as pererecas, mas porque de certa forma você me faz companhia. Você ama o jardim e suas flores tanto quanto eu. Você se regozija com a água caindo sobre a terra, e sente, como eu, o perfume que ela exala ao ser regada.

Espero que a convivência possa ser boa, e te peço que, sempre que preciso, antes de sair pulando por aí, me entregue sempre esse seu olhar.

Atenciosamente

Lápis de cor

Era época de Natal e fui até a Livraria Cultura da Avenida Paulista. Sempre tenho um certo calafrio quando vou a essa loja, e não é porque ela é a maior livraria da América Latina, mas porque, talvez exatamente por isso, é um lugar onde eventos estranhos acontecem vez ou outra. Diz-se de um rapaz que entrou certo dia na loja com um taco de beisebol e acertou a cabeça de um desconhecido que estava no caixa. O rapaz desavisado, que comprava livros certamente, veio a óbito. O outro, o do taco de beisebol, me parece que foi internado em algum sanatório.

Já de posse do calafrio de entrar na livraria com um histórico como esse, eu me dirigi diretamente à lojinha da Faber Castell, que fica na entrada. Queria comprar um estojinho de lápis de cor, para dar de presente para alguém. Certamente é simpático ganhar um estojo de lápis de cor, dá para circular no jornal dos classificados seguindo alguma codificação específica: círculo amarelo indica anúncio interessante; vermelho, anúncio desrespeitoso pelo preço (aqui o vermelho significaria indignação); círculo verde poderia indicar que é algo bem plausível de ser comprado ou adquirido ou alugado, seja lá o que for.

O estojinho poderia ainda servir para marcar as páginas de um livro de poesia, desses que a gente vai ler e depois dar de presente para alguém: assim o livro-presente já viria com uma marcaçãozinha bem pequena ao lado do número da página, quase imperceptível, e poderia também ter uma codificação secreta: amarelo indica que gostei da poesia, azul que eu não entendi muito bem, vermelho que o texto desperta sentimentos fortes, verde que existem frases ou idéias que poderiam ser aproveitados nas minhas crônicas, e por aí vai.

Enquanto eu olhava a vitrine e me espantava com o preço das caixinhas – variando de 40 a 500 reais – a atendente da Faber Castel conversava com um rapaz no balcão sobre as qualidades de uma certa caneta. Ela dizia que a caneta não ressecava, que era possível trocar a carga, que a madeira que cobria o tubo da tinta era tratada. E eu ali, rondando os dois, à procura de lápis de cores mais acessíveis. A conversa entre os dois ia longe, e foi então que a mulher disse o preço da caneta: algo como 800 reais. É claro que não contive o meu impulso e olhei para a cara do moço comprador. Afinal, quem é que compra uma caneta de 800 reais na lojinha em frente à livraria?

Acho que o moço percebeu meu espanto: tentei disfarçar, busquei alguma coisa dentro da bolsa e fui-me embora. Não quis saber se ele comprou ou não a tal caneta. Eu não comprei nenhum lápis de cor. Nem mesmo se eu ganhasse o prêmio Nobel eu gostaria de escrever com uma caneta dessas. Nem mesmo se eu assinasse um cheque bilionário eu usaria tal caneta. Uma caneta vai ser sempre solitária, e nunca vai poder colorir meus livros do jeito que eu gosto.

Dei uma espiada para dentro da loja, já melancólica: não era possível dar dois passos sem esbarrar em alguém. Achei melhor não arriscar, não queria correr o risco de eu mesma enlouquecer lá dentro e sair dando bolsadas em alguém e depois ser interditada por conta disso. Dei meia volta, fui-me embora de vez. Ainda sonhando com um estojinho de lápis de cor para colorir livros ou criar uma codificação secreta para cada sentimento e desejo que trago dentro de mim.

À espera do dentista

– Mãe!

– Oi, filha.

– Vai doer?

– Não, filha, não vai não!

– Mas a Duda usa aparelho e disse que dói!

– Mas a sua prima usa um outro tipo de aparelho, é daquele que não dá para tirar, por isso dói. O seu não, o seu você só vai usar à noite, e dá para tirar quando doer.

– Ah, tá… mas o meu vai ser colorido igual ao da Duda?

– Não, filha… o seu tem só um ferrinho liso que fica na frente do dente.

– Ah, tá… e hoje eu já vou colocar o aparelho?

– Não, hoje você vai colocar uma massa na boca, é como se fosse uma massinha, você vai morder essa massinha e aí o dentista vai saber direitinho como é o formato da sua boca. Depois ele vai montar o seu aparelho do tamanho certinho pra você.

– …

***

– Mãe!

– Oi, filha.

– O dentista falou que era pra usar aparelho pra arrumar os dentes que nasceram tortos, né?

– É, filha!

– Ah, tá.

***

– Mãe!

– Oi.

– Sabe a mãe da Lia?

– Claro que sei, filha! Quê que tem a mãe da Lia?

– Ela tem um olho diferente do outro, não tem?

– Tem sim.

– E o olho dela nasceu torto?

– Não, filha, a mãe da Lia sofreu um tipo de acidente, e por isso ficou com o olho torto.

– Acidente igual ao do Tio Jorge?

– É… não… o Tio Jorge sofreu um acidente de carro, lembra? Ele tava dirigindo na estrada, de noite, passou um bicho na rodovia e aí o carro dele capotou. Mas ele só quebrou o braço, lembra? Lembra que ele ficou usando gesso?

– Lembro.

– O acidente que a mãe da Lia sofreu foi diferente.

– Não foi de carro então?

– Não, o dela é um acidente que acontece dentro do corpo da gente. É como se dentro da gente existisse um monte de estradas, onde passa o o nosso sangue. Quando a gente é criança, como você, essas estradas são todas limpinhas, mas com o tempo, quando a pessoa vai ficando velha, essas estradas às vezes ficam com problemas, e aí o sangue não consegue passar direito. E quando o sangue que não consegue passar ele acaba estragando de vez a estrada. Quando acontece isso, a gente fala que a pessoa sofreu um acidente nas veias.

– Então a mãe da Lia sofreu um acidente dentro dela?

– É, filha, é mais ou menos isso. E aí, igual o Tio Jorge que ficou com o braço quebrado e teve que usar o gesso, a mãe da Lia teve um monte de problemas, ficou um tempão no hospital, foi no médico um montão de vezes. Agora ela já tá boa, já consegue andar, falar, fazer tudo.

– Ah, tá.

***

– Mãe.

– Oi.

– Mas se o dentista falou que eu tenho que usar aparelho para consertar o dente torto, por que a mãe da Lia não usa aparelho também para consertar o olho torto?

– Filha, tem coisas que a gente consegue consertar. O seu dente, por exemplo. Mas tem coisas que a gente não consegue. A mãe da Lia já fez um monte de cirurgias, já tentou um monte de coisas, ela conseguiu arrumar a vista, por exemplo. Antes ela quase não enxergava, agora ela já enxerga, com óculos, mas enxerga. Lembra que a boca dela era torta também? Hoje ela já tem a boca normal, fala normal. Mas o olho foi uma coisa que os médicos não conseguiram arrumar.

– Então não vai conseguir arrumar nunca?

– Não sei, filha, não sei. O importante é que igual ao Tio Jorge, a mãe da Lia tá bem. Ela consegue fazer tudo que todo mundo faz, e se ela quiser, é só colocar um óculos escuro, um chapéu bem bonito que ninguém nem percebe o olho dela. No fundo, acho que ela nem liga, você já viu ela reclamando do olho?

– Não, mãe.

– Então! Ela tá feliz porque tá junto com a Lia, tá junto com o Pedro, continua visitando a gente. Ela tá feliz! Não tem porquê ela colocar um aparelho no olho!

– Ah, tá.

***

– Mãe.

– Oi, filha.

– Se doer a noite você vai dormir comigo?

– Filha, eu tô pra conhecer uma pessoinha mais dorminhoca que você! Eu duvido que a senhorita vai acordar de noite por conta desse aparelho!

– Promete, vai… promete!

– Tá bom! Prometo.

O negrinho e o patinete

O que vou dizer agora é segredo, e é bom que meus amigos não saibam: não me importo em esperar alguém por alguns minutos se estou na rua. Esperar no carro, em um consultório, na sala de espera de algum escritório é certamente terrível, mas se estou na rua, e se a rua está cheia, bem, é segredo, mas me delicio.

Se a espera se der em uma esquina, melhor ainda: de uma rua vem uma moça cheia de sacolas – logo adivinho que ali por perto tem um supermercado; da outra rua vem um casal de bicicleta na contramão, param de susto no cruzamento quando se dão de encontro com um carro; um homem que usa gravatas caminha junto com uma senhora que usa shorts, os dois seguram, cada um, um saco de pão; três adolescentes cruzam a rua, minutos depois voltam na mesma direção de onde vieram, dali a pouco voltam de novo e falam alto quando param na esquina; uma menina gordinha passa do meu lado tentando esconder o resto da barriga que sem querer ficou para fora.

De todas as mil estórias que a gente poderia contar a partir de uma esquina qualquer, foi a de um negrinho de patinete a que mais me chamou a atenção. Ele era magrelo, de uns 10 anos, bermuda cinza e camiseta branca encardida. O patinete, ao contrário do que logo imaginaria o leitor, não era de madeira, improvisado, com rodas de rolimã. Não, era todo de metal, modernoso. O Natal já tinha se passado há meses, certamente era presente de aniversário, ou promessa de nota boa na prova de matemática. Em uma esquina perdida de uma rua qualquer no centro de São Paulo, o negrinho ia e voltava com seu patinete, descia o morrinho com embalo, sumia lá embaixo, dali a pouco voltava empurrando seu honorável veículo, pegava a outra rua, e eis que aparecia de novo, com o patinete aos empurros.

Ali parada, esperando um amigo qualquer, o negrinho me fazia lembrar tantas esquinas que já amei: aquela que eu olhava pela janela, à espera da pessoa querida, aquela onde eu sentava sozinha quando adolescente esperando ouvir o barulho do carro de minha mãe que vinha me buscar depois da aula de música, aquela que por tantos outonos virei as costas para poder diariamente trabalhar na frente de um computador. Naquela esquina, no centro de São Paulo, um negrinho andava de patinete, sem se assustar com os carros ou os ônibus que hoje atormentam a minha janela.

Foi nessa hora, em que eu pensava no negrinho e em todas as esquinas que amei, que meu amigo chegou, deu uma leve batina no vidro do carro e logo partimos para um outro lugar onde pudéssemos conversar com calma. Da próxima vez dou uma de louca e digo que quero ficar ali mesmo, digo que na verdade não quero conversar, quero é companhia para olhar para esquina, para adivinhar para onde vai virar aquele cidadão que vem falando ao telefone, para apostar se aquele velhinho volta ou não em cinco minutos, para adivinhar o ritmo da louca que dança aos berros na calçada do boteco da esquina.

Talvez se pudesse escolher um lugar para ser enterrada, e esse fosse o lugar de onde eternamente eu observaria o mundo dos vivos, certamente meu túmulo ficaria em uma esquina qualquer, e minha alma continuaria acompanhando o ir e vir do negrinho, que certamente também já seria alma penada a descer e subir o morrinho em seu patinete encantado.