Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Dezembro, 2013

Não construa sua casa na areia

Na história havia João e José. Ou o Joãozinho, Zezinho e Huguinho. Tanto faz. O que importa é que os personagens da história resolveram construir uma casa. Cada um o fez à sua maneira.

João construiu uma casa na areia. Casa de madeira, com ares de coisa provisória, como ele mesmo. Preparou o terreno meio às pressas, colocou os limites no espaço que desejava, escolheu o cômodo onde seria seu quarto. Teve dúvidas. Seguiu. Escolheu as taipas, material barato, teceu pacientemente um telhado de sapé. Levou uns poucos dias. Quando terminou, afastou-se dez passos da casa, olhou para ela, virou-se, olhou para o mar e achou que aquilo tudo era bom.

José sempre foi mais prudente. Levou dias escolhendo um lugar adequado para construir sua casa. Levou outros para escolher o material adequado. Levou tantos dias que quando escolheu, não lhe assomou nem um pingo de dúvida: sua casa seria de alvenaria, no alto de uma rocha. Nem vento nem tempestade poderiam derrubá-la. Desenhou o projeto com cuidado milimétrico. Gastou dinheiro, investiu em bons materiais. Definiu de antemão onde seria seu quarto. Teve certezas de tudo quanto fez. Depois de muitos e muitos dias de muito trabalho, finalizou a casa: se trancou em seu quarto, sentindo-se seguro, e achou que aquilo tudo era bom.

Num dia de forte tempestade, José não teve medo. João, sim. Enquanto José se encontrava seguro no escuro de seu quarto, João precisou enfrentar a chuva, subir no telhado e reforçá-lo. Enquanto João trabalhava, José dormia. Na tempestade seguinte, abriu-se um buraco na parede da sala de João. Algumas taipas cederam e foi preciso de novo enfrentar a tempestade. Enquanto isso, José de novo dormia, seguro e tranquilo.

Ao longo dos anos, João precisou reinventar sua casa milhares de vezes. Mudou o quarto de lugar, trocou o telhado, inventou novos materiais. E a cada vez que a chuva passava, ele andava dez passos à frente de sua moradia, olhava a casa, olhava o mar e achava que aquilo tudo era bom, muito bom.

Ao longo dos anos, José saía cada vez menos de seu quarto. Ele temia as tempestades, temia o mar. Sua casa lhe era tão segura, tão segura, que o resto do mundo lhe botava cheio de medo. Ao longo dos anos, José se esqueceu de sair de casa, olhar para ela e dizer que aquilo que havia construído era bom, muito bom. Mas isso a história não diz. O que se diz é que José foi prudente, enquanto João foi tolo. Ninguém diz que José terminou sozinho e triste, trancado numa cela, recusando-se a enfrentar o mundo lá fora. Ninguém diz que João, ao contrário, se reinventou a cada tempestade, que sua casa frágil lhe permitiu construir um espírito forte.

Talvez isso tudo importe muito pouco. Melhor ser triste e seguro do que enfrentar a tempestade lá fora. Melhor assim. Deixa a história como está.

Prece para o novo ano

Senhor, eu sei que está um pouco tarde para pedir alguma coisa. O ano já se encontra quase no fim, e durante os doze meses que se passaram não me lembro quantas vezes me voltei a Você para pedir ou agradecer por qualquer coisa. Mas peço que me entenda, os tempos são de muita precisão, e passo então a recorrer à Sua generosidade e bondade com a minha fraqueza e inconstância.

A verdade é que o ano termina e estou aqui, encolhida de medo do próximo que já se anuncia. Senhor, tantas pessoas fizeram tantas coisas: venceram, progrediram, ganharam, e fico aqui pensando nos verbos que posso utilizar para qualificar o ano que se passou. Não, eu não ganhei nada. Eu não consegui nada. Eu fui pequena. Eu me calei. Eu me afastei de tanto. Eu fui pra longe. Eu enterrei tantos tesouros. E ainda, eu tive raiva dos que ganharam, eu detestei as festas e comemorações, eu tive inveja dos que pareciam muito felizes.

E se o Senhor está achando que vim aqui pedir para trocar os verbos para o ano seguinte, inverter as posições, o Senhor se engana. Não quero. Não quero ganhar nada. Continuo não querendo. Uma vida cheia de vitórias não é o que me interessa. Mas me interessa, Senhor, um coração mais generoso. Eu quero, sim, ser maior que sou. Mas quero ser grande para vencer minha própria impaciência, minha falta de cuidado com o ser humano. Eu quero ser grande para enxergar o ser humano que existe na pessoa que atira uma lata de cerveja pela janela do carro. Eu quero ser grande para suportar àqueles que me pedem para ser menos cuidadosa no meu trabalho. Eu quero ser grande para amar crianças pequenas e já tão mal educadas. Eu quero ser grande para não desejar esganar pais de crianças mal educadas.

Senhor, eu não quero aceitar nada disso, mas quero ser maior. Me ajuda, Senhor, a olhar para as pessoas como dizem que Você olha. Não sei bem o que o Senhor vê no sujeito que atira a lata pela janela. Nem o que o vê na criança mal educada. Mas, se formos levar o pensamento mais adiante… não, melhor não perguntar o que o Senhor vê quando olha pra mim. Deixa pra lá. Fiquemos com o meu pedido e o meu medo frente ao ano que se anuncia. Me ajuda, se possível, a ser maior. Maior comiga mesma, maior com meu próximo. É pedir muito?

Perigo!

Era dia de semana e eu estava sentada no metrô. À minha frente, uma senhorinha, dessas de cabelos branquinhos, sentou no assento preferencial. Uma mulher, com uma menininha de uns quatro anos se sentou ao lado e as três se acomodaram no banco para duas pessoas. Mas a menininha estava incomodada, ela queria o assento só para ela. O quê fazer? A menina começou, então, a bater na velhinha. Claro, eram socos de criança, não doíam, e a velhinha, constrangida, nem reclamava. Mas a menina insistia, batia e gritava com a velhinha, que fazia que não via. E a mãe? Também constrangida, acredito, se levantou e deixou a menina sentar sozinha no assento que antes dividia com ela. Na estação seguinte a senhorinha se levantou e deixou o vagão.

No domingo seguinte ligo o noticiário e vejo cenas terríveis: num estádio de futebol duas torcidas se enfrentam e as câmeras de vídeo flagram uma enxurrada de socos e pontapés em vítimas já inconscientes. Quatro feridos vão para o hospital, se pergunta onde raios estava a Polícia Militar, que afirma que foi impedida pelo Ministério Público de fazer a segurança do jogo e etc. O país se revolta com a violência e aquelas cenas miseráveis rodam o mundo e depõem contra o país do futebol. Questiona-se se estamos diante de seres humanos ou de uma cena de extrema selvageria.

Diante da menina que dava socos infantis na senhorinha eu não fiz nada. Ninguém fez nada. A mãe não fez nada. Ninguém disse a ela que a violência é uma linguagem que não vale a pena. Ao contrário. Ela, tão pequena, conseguiu o queria com seus esforços físicos desmedidos: poucos segundos depois ela recebeu um assento só pra ela. A violência, para a nossa pequena protagonista, funcionou.

E a verdade é que a violência tem funcionado em nossa sociedade desde os tempos dos portugueses atracando nas praias brasileiras. Desde a catequese dos jesuístas que conquistavam milhares de indígenas para a fé cristã. Desde o primeiro passo do desenvolvimento econômico do Brasil, violentando pernas e braços negros. Desde o primeiro corpo policial criado para salvaguardar a ordem dos ricos e brancos. Desde nosso primeiro abecedário com o castigo que ardia nas mãos dos que erravam uma letra. Desde.

Desde o metrô até o estádio. E nos revoltamos apenas com o estádio. Ou também com o menino que leva um tiro de outro menino na porta do prédio. Ou. Mas não nos revoltamos com uma criança que já aprendeu a tratar o outro como ninguém. Não nos revoltamos com uma menina que já sabe usar a violência como meio de atingir seus desejos mais sinceros. Não nos revoltamos com o policial que espanca o bandido, afinal, bandido bom não existe, não é mesmo? Não nos revoltamos com pais que batem em filhos, afinal, um tapinha não dói, e a vara serve como ensinamento.

E por que mesmo nos revoltamos com a cena no estádio de futebol? A violência é eficaz, tendo sido para nós há tantos e tantos anos. E pensando bem, pra quê se revoltar, menininha esperta essa, não? Já sabe como alcançar o que quer. Essa sim, vai ser alguém na vida, tem personalidade e atitude. Só resta saber o mundo que a espera e que ela nos ajuda a construir. A vida é, sim, muito perigosa.