Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Outubro, 2018

Um presente de casamento

Dias desses – já faz uns anos, é verdade – visitei a casa de uma amiga pela primeira vez. Era minha visita nova em uma casa nova e tudo me enchia os olhos. Feito criança, eu olhava cada detalhe. Perto da janela, um vaso grande com uma planta linda. É a arvore da felicidade, ela disse, minha avó me deu de presente. Fora seu presente de casamento. E fora a avó que lhe dera, não uma muda, mas uma árvore. A avó havia cultivado a felicidade por anos e ofereceu à neta. E lá estava a felicidade, banhada pela luz que entrava da janela.

E eu que não sabia que felicidade dava em árvore, menos ainda que era possível oferecê-la de presente, corri até uma floricultura e comecei a cultivar minha própria felicidade. Diferente de minha amiga, a minha felicidade veio em duas mudas, frágeis e pequenas. Aos poucos foram crescendo, mais rápido do que cresciam meus filhos.

Num certo dia, sem mais, elas estagnaram. Outra amiga, em minha casa, quando lhe confessei que andava preocupada com a felicidade, me disse que a planta só cresceria se houvesse uma muda macho e outra fêmea. As minhas, pelo que parecia, eram as duas fêmeas. Felicidade, pelo que parece, só vem do diferente.

As folhas caíram, todas. Quando um pequeno galho novo despontava eu me enchia de esperanças, era a minha chance de ser feliz de novo, e enchia a planta de cuidados, regava, podava, logo as novas folhas caíam. Parecia o fim da felicidade.

Por tempos a felicidade ficou ali, à beira da porta, no canto da sala, calada, sem folhas, sem galhos novos, sem esperanças. Até que comprei um novo vaso, maior, uma terra nova – com adubos e aditivos e tudo aquilo que a moça da floricultura me garantiu fazer a felicidade brotar novamente – replantei minha felicidade e troquei seu lugar na sala. Distante do vento, distante do sol direto. Continuei a velar por ela, colocava água diariamente, dizia-lhe que admirava sua beleza, mesmo sem folhas mais, mesmo quase sem galhos. Aos poucos, um broto novo surgiu bem ao alto do velho galho. No seu pé, quase junto à terra, inúmeros pequenos galhos começaram a nascer. E deram folhas, e, ainda pequenas, mudaram a cara da felicidade que eu tinha antes.

E é nos dias tristes, escuros, que percebo que a felicidade está aqui, dentro de casa, abrigada do sol, do vento, das bolas que as crianças insistem em jogar na sala. No canto, para que ninguém perceba sua presença, ainda que esteja sempre perto de nós. E se um dia ela estiver grande e forte, cheia de galhos e folhas, talvez, só talvez, eu tenha coragem de presentear alguém com a minha felicidade. Quem sabe minha neta, quando se casar, se um dia ela vier, e se um dia ela se casar.

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Chaves e portões

Eu já havia colocado as sacolas do supermercado todas no chão. Todas porque eram em número de cinco. Com elas em meu braço não conseguia mexer na bolsa e encontrar a chave. O portão na minha frente. Fechado. Parado. Foi quando comecei a deitar no chão, ao lado das sacolas, um por um, os itens de minha bolsa. O portão fechado. O portão parado. Alguém se aproxima, com uma chave abre o portão, me ajuda com as sacolas, e volta para o seu carro, ali, estacionado do lado de fora da garagem, carro já pronto para ir para a rua, enquanto a porta se abria para eu entrar para dentro. Olho para meu vizinho agradecida, ele diz que não é nada, corre para seu carro e se vai. E ontem mesmo eu o odiava, porque é meu vizinho e porque pensa diferente de mim.