Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de quintal

Pelo direito a um vasinho de manjericão

Ouvi dizer que o mundo anda meio esquisito. Parece que alguns governantes governam em causa própria, que a TV divulga em causa própria, que a polícia, bem, que a polícia também policia em causa própria. E as notícias de descalabros povoam os meios de comunicação, a internet, as conversas. Eu sigo em silêncio.

No entardecer, esse mundo estranho banha meu quintal de um amarelo dourado, a água que joguei agorinha sobre as flores faz subir cheiro de terra, o apito da panela de pressão traz perfume de feijão que me lembra momentos de infância. Com o coração ainda amarelado procuro por notícias deste mundo e fico desanimada.

É preciso dizer que me importo muito pouco com as últimas decisões tomadas pela presidenta. Ouvi dizer que ela anda fazendo uma limpa, demitindo ministros, fazendo inimigos. Não sei. Sei que ouvi o seu discurso de ano novo na TV e fiquei emocionada. Eu só posso admirar alguém que faz do cuidado da nação a sua vida, que seja por quatro anos, e mesmo que os ganhos sejam enormes. Não sei. Eu admiro.

Ao contrário do que penso sobre as decisões da presidenta, eu me importo com os desabrigados pelas chuvas ou pela polícia. Meu coração não bate leve quando ouço sobre aqueles que perderam suas casas. É preciso ter uma casa e é preciso poder viver em paz. É preciso ter um cadinho de terra, plantar qualquer coisinha, mesmo que seja um vaso de manjericão.

O cuidado com a terra nos ajuda a perceber o quanto precisamos cuidar dos outros, para que esse outro possa florecer, crescer, dar frutos  ou flores, ser quem ele deve ser. É necessário perceber que o outro precisa da gente, que se esquecermos de dar água e atenção bem que ele pode morrer.

Frente aos descalabros deste mundo estranho, meu coração pede que eu levante uma única bandeira: pelo direito de que todos possam ter um vaso de terra em casa, e que se plante nele alguma coisa, e que se cuide do que plantou, para que assim todos possam entender que o mundo só sobrevive se cuidarmos dele, e se cuidarmos, ele pode sim ser muito bonito.

Cheiro de geleia

Para Aline Izabel

Ando à procura de uma palavra bonita e cheia de alegria para
colocar em minha estante. Uma palavra-fotografia que me lembre, todas as vezes
que eu pronunciá-la, uma imagem que me acalme, que me farte, que me alivie do
peso da vida. Procuro uma palavra-senha, palavra-chave, que me permita adentrar
por lugares secretos, carregados de um perfume que me aqueça a alma nos dias
chuvosos.

Quero uma palavra que seja farta de significado, de memória,
de cor e de movimento. Uma palavra que traga a bênção para titubear menos
frente ao dia que nasce de novo azul. Palavra-amuleto que me acompanhe quando
sinto medo.

Entre tantas palavras, gostaria de encontrar uma que unisse
em si o amarelo, o entardecer, o cheiro de terra molhada da chuva, o sorriso de
quem amo, o sabor do salmão cru, a grama tocando meus pés descalços, a água
escorrendo pela boca depois da sede maior, o corpo descansado depois de uma
longa noite de sono profundo, a surpresa de encontrar um fruto ainda pequeno no
quintal de casa, a lágrima daquele que se emociona ao ler um escrito meu, o
sabor do brigadeiro assim que ele toca a língua.

Gostaria ainda que essa palavra-mantra fosse sonora e cheia
de movimento. Palavra-canção, que encha a boca de quem a pronuncia e convide
para uma passo de dança. Palavra-insinuação.

Procuro uma palavra que seduza, que prenda a atenção num
átimo, que enlace quem a escuta como um encantamento. Palavra que seja repleta
de paixão e recuse para sempre a monotonia. Palavra-veneno.

E como se fosse impossível encontrar uma palavra que tocasse
com leveza a minha alma, fazendo com que ela dance de forma suave, sorrindo
apesar da chuva, apesar do mundo sombrio que se apresenta lá fora, lá está ela,
sobre a minha estante: palavra-redonda, palavra-cor, palavra-doçura, palavra-memória,
palavra-explosão, palavra-segredo, palavra-convite. Jabuticaba.

Café com leite

Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não sinto cheiro de café coado vindo da cozinha. Em São Paulo nem mesmo existe um coador. Sinto saudades de Minas porque a cama em São Paulo é baixa – mentira dizer que tem cama: o colchão fica colado ao chão. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não existe um canto de silêncio: mesmo à noite sou acordada com buzinas e alarmes de carros. Sinto saudades de Minas porque em São Paulo não há cozinha grande que me acolha: não há como fazer bolos, risotos, omeletes.

Em Minas, sinto saudades de São Paulo. Em Minas, depois das seis da tarde, a cidade se encolhe, se recolhe, se refugia em um lugar qualquer que me escapa. Ninguém passeia pela Vila, pela avenida, pelo entardecer. Em Minas falta a padaria aberta, o armazém vinte e quatro horas, a possibilidade de ir a um bar sozinha e poucas pessoas, talvez, repararem na minha falta de companhia.

Em Minas me falta a livraria enorme, com uma infinitude de livros e o sonho de um dia ver meu nome num canto qualquer de uma estante. Em Minas me falta o chopp no final da tarde, o cinema quase no término da noite, o show que eu poderia ter ido na sexta à noite se não tivesse esticado até tão tarde aquela reunião.

Em São Paulo me falta a grama que eu piso todas as vezes que o trabalho me enfastia. Me falta a primavera no fundo do quintal, que insiste em forrar meu jardim de flores vermelhas que eu insisto em limpar com o meu rastelo. Em São Paulo me falta o espaço, apesar de toda sua amplitude. Em Minas me falta amplitude, com seus espaços sem fim.

Em Minas, minha voz sai anasalada. Em São Paulo, falo como quem canta e entoa cantigas da roça. Procuro em São Paulo o cheiro do café coado. Em Minas, procuro um chopp na calçada e uma conversa regada a sereno. E vivo, assim, semana após semana, dividida pela saudade, desejando o outro estado assim que atravesso a linha que separa o trabalho daquele lugar dominado pelo meu coração.

Caminhão de mudança

Lembro-me da primeira vez que me mudei para esta casa: mal descemos do caminhão de mudança, meu irmão olhou para mim com os olhos grandes, brilhando naquele dia já quase noite, e propôs um acordo – não comigo que eu não tinha poderes para decidir sobre aquilo – mas com o próprio destino: iríamos escrever qualquer coisa na porta de entrada da casa – ainda meio construção – com uma lasca de tijolo: se no dia seguinte o escrito ainda estivesse ali, teríamos certeza de que não estávamos sonhando.

Eu já tinha completado dez anos e era a primeira vez que eu morava em uma casa. Meu irmão, com um ano a mais, certamente com mais experiência que eu nessa vida de apartamento, bem sabia que era melhor negociar com o destino para garantir nossa estadia naquele sonho. O escrito foi feito na parte da casa que ainda não estava pronta e que levou anos para terminar. Durante muito tempo passávamos por aquele umbral marcado pelo acordo que fizemos naquela noite de mudança.

Não me lembro exatamente quando foi que colocaram o batente na entrada e finalmente instalaram a porta, encobrindo o nosso trato. Certamente eu e meu irmão já andávamos esquecidos do sonho e não sabíamos mais dos olhos grandes e brilhantes um do outro. E provavelmente, logo depois disso, partimos para outros lugares, passando diariamente por portas que não estavam mais marcadas pelo nosso acordo com o destino.

Da segunda vez que me mudei para esta casa eu completava dez anos moradora de apartamento. (Lembro-me de tantas vezes que fechei a porta de um apartamento pela última vez, com um olhar derradeiro sobre o lugar que me acolheu por certo tempo para no instante seguinte chegar a um outro ponto, outro lar). E foi no meio da arrumação das caixas, toca a correr trazendo a geladeira para não descongelar as coisas do freezer, desocupa o quarto para caber mais uma cama, ajeita essa montoeira de livros da menina – foi como um estalo, eu passei por aquela porta e me lembrei do trato que fizemos, meu irmão e eu, com o destino.

Quando acordei, no dia seguinte, percebi que ainda estava ali, na mesma casa de 18 anos atrás, agora diferentes, a casa e eu, mas ainda apegadas uma à outra. Assim que acordei abri a porta do quarto que dá para a varanda, e a varanda que dá para o jardim. O mesmo jardim onde eu e meu irmão brincávamos na piscina de plástico nos dias quentes de verão, ou nos escondíamos de nossos primos nas noites de mia-gato. O jardim é outro hoje, não carrega mais as marcas da molecada que viveu ali, mas eu ainda posso ouvir os nossos gritos e brigas de criança.

Para me certificar que isso tudo não é sonho, sempre que passo pelo umbral de entrada toco de leve no batente, lembrando do acordo que fizemos com o destino, que está cravado ali, em algum lugar, debaixo daquela madeira, daquela tintura. E sim, ele cumpriu a sua parte do trato, e sempre tenho a certeza de que não estou sonhando, quando chego ou quando saio partindo.

Flores atrasadas

Tive que sair correndo essa manhã, não consegui dar uma olhadinha nas plantas que crescem no meu jardim, como faço todos os dias assim que acordo. Não foi sempre assim. Por semanas a horta ficou sem água, as folhas amarelando, o pé de rúcula morrendo. Enquanto eu ainda tentava encontrar um lugar para tudo aquilo que tinha vindo encaixotado da mudança, a horta que meu pai deixou no fundo do quintal ia secando, morrendo devagarinho.

Um dia dei por mim, corri atrás da casa e percebi os olhos de meu pai me olhando por entre folhas amareladas, hastes caídas, terra ressecada. Não que seus olhos me recriminassem, mas aquele jardim me lembrava que nada se produz sem cuidado, sem carinho, sem atenção. E eu, que me acostumei a ver aquele quintal sempre limpo, cuidado, viçoso, me dei conta de que ele não era assim simplesmente: ele era assim por conta dos olhos de meu pai.

Foi então que passei a observar diariamente as flores, as folhagens, o pé de café, o pé de pitanga, os pés de rúcula, o pé de tomate cereja, a pimenta dedo-de-moça. Percebi que as flores de maio estão um pouco atrasadas, e vão florescer de vez daqui a pouco, quando entrar junho. Encontrei bananas caídas lá no pé do muro, já bicadas pelos passarinhos.

Nessa manhã, porém, não me lembrei do jardim. Botei meus trecos numa sacola e peguei estrada logo cedo, atrasada para os compromissos na capital. Nem meia hora de viagem, os carros todos parados, longo tempo esperando a liberação da pista por conta de um caminhão de gás que tinha tombado ainda no nascer do dia. Desligo o carro e pego um livro. Sem previsão. Leio uma página e percebo o motorista da frente com uma chave de fenda percorrendo seu caminhão. Aperta um botão aqui, balança as correias ali. Observa. Num minuto está debaixo do caminhão, vistoriando. Vai até a cabine, busca outra chave menor que a outra, aperta outro parafuso, tenta chacoalhar o caminhão. Corre de novo e volta com uma lata de óleo, borrifa com o spray alguma coisa que não consigo ver. Observa. Procura. Sem pressa. Com cuidado.

Com o livro já esquecido no colo, me lembro do meu jardim. Que ficou sem água esta manhã. Ficou sem cuidado. Enquanto o caminhoneiro voltava olhos carinhosos para correias e parafusos, eu pensava que tinha esquecido mais uma vez de dar atenção para aquilo que tinha importância. Penso nos olhos de meu pai, pego minha agenda, organizo os compromissos e procuro voltar pra casa o quanto antes. Liberam a estrada e sigo viagem ainda com a imagem do caminhoneiro na cabeça, misturada às folhas e flores do jardim que tenho em casa.

RE: Carta Recolhida

A sua última carta chegou há mais de um ano. Não posso dizer que não tive tempo de respondê-la, na verdade eu não teria o que dizer. Até porque na sua carta você me contava, em poucas linhas, que tinha recolhido uma outra carta, quedada perdida na cidade. Como eu não li essa outra carta, não sei do que ela trata, não posso dizer nada sobre o que estava escrito nela.

Depois do seu comunicado, dizendo que havia recolhido a tal carta, fui, finalmente, no restaurante que você tinha me indicado. Procurei o vaso de flor perto do banheiro, e vi que na verdade não era um vaso de flor, e sim um pequeno arbusto. Não importa. Não importa mais. Pensei então que foi ali, naquele arbusto, que a tal carta ficou esquecida por quase dois anos. Ninguém a viu. Ninguém notou. Ninguém se interessou. Seu conteúdo certamente envelheceu, não importava mais contá-lo a ninguém, nem a mim, sua destinatária desinteressada em seu conteúdo.

E nesse um ano, desde que sua última carta chegou, ensaiei várias visitas: pensei em te levar doces mineiros, com um naco de queijo. Mas te visitar seria dizer que você tinha razão – tinha razão em recolher a carta que era minha, que era pra mim – e talvez você entendesse a visita e os doces como um pedido de desculpas. Eu não lhe devo desculpas.

Não foi só a carta esquecida no arbusto que envelheceu. Nós envelhecemos. Não foi só ela que passou despercebida por tanto tempo naquele restaurante. Nós não percebemos. Foi só na sua última carta, com suas três linhas diretas, secas, estaladas que entendi você. A sua mágoa não vinha do conteúdo da carta que eu não li. Eu não percebi – e você se entristeceu.

Eu poderia aqui dizer de tantas coisas que você também não percebeu. Mas prefiro falar daquelas que você não teria como saber, se eu não te contasse: o maracujá que plantei no quintal da minha casa finalmente deu flor, e acredito que em alguns dias dará frutos também. A flor é linda, parece uma bailarina, com uma saia rodada, e o corpo apertado em um corpete roxo, só de olhar para ela sinto vontade de dançar. Queria que ela ficasse sempre assim, em flor, em dança, em movimento. Mas sei que logo a flor vai dar espaço para a fruta, e se eu quiser comer a fruta ela vai precisar murchar e ficar toda envelhecida. Envelhecida como nós.

A bailarina no meu quintal ainda espera cartas suas. Mesmo que elas estejam escondidas em lugares que ela não tenha como buscar.

Com o meu carinho.