Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Fevereiro, 2013

Itens de primeira necessidade

Eu preciso que você goste de mim, que me ache divertida, inteligente, interessante. Eu preciso que você goste de conversar comigo, se interesse por tudo aquilo que tenho a dizer. Eu preciso que você não duvide de minha ideias, que discorde, até, mas que não diga que o que penso não tem fundamento.

Eu preciso que você me convide para suas festas, viagens, projetos. Eu preciso que você faça publicidade sobre nossa amizade: que se lembre de me citar como amiga, que fale de mim para os outros. Nada melhor do que saber que você andou me elogiando para conhecidos e desconhecidos.

Eu preciso que você me dê presentes às vezes, que se lembre de mim quando der de cara com um botton da Mafalda, que me mande um link com uma música nova que você acabou de conhecer e achou que eu iria gostar. Eu preciso que você me convide para ir à sua casa, e me ofereça um bolo que acabou de fazer.

Eu preciso que você me convide para um passeio no final da tarde, que divida comigo seus planos para o próximo verão, que me conte o que anda acontecendo no seu trabalho.

Mas de tudo, o que mais preciso é que você continue por perto mesmo quando eu me calo, que você não se afaste nos momentos em que me recuso a atender ao telefone. Eu preciso que você não desista de perguntar como eu estou mesmo quando digo que estou bem e coloco um ponto final na conversa. Eu preciso que você permaneça ao meu lado e segure minha mão quando eu tenho medo das pessoas. Eu preciso que você insista em me convidar para sair mesmo que eu tenha recusado os últimos três convites.

Eu preciso que você se lembre da minha cor favorita, que respeite o meu silêncio e que compartilhe comigo a difícil tarefa de continuar sendo gente nesse mundo cada vez menos povoado de pessoas.

Eu preciso que você me ajude, sempre e a cada dia, a amar as pessoas e a viver mais próxima delas. Essa é a maior de todas as necessidades.

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Paralelepípedo

Cadê seus sapatos? Foi a primeira coisa que me disse um namorado assim que chegou na faculdade e me viu descalça. Eles apertam o meu pé, eu respondi. E saí, em direção ao banheiro. Ele se enfureceu. Você vai ao banheiro sem sapatos? Ué, e por que não? Porque o banheiro é sujo, oras. Foi o que ele me respondeu, e respondendo, se colocou na porta do banheiro e proibiu que eu me aliviasse da grande vontade de fazer xixi. Não lembro bem se cheguei a calçar os sapatos, se fui ao banheiro, se briguei com o namorado. Lembro que ele não era capaz de entender a minha necessidade de colocar os pés no chão.

Na escola já era assim, eu descalça, na hora do recreio, pisando na grama, no cimento, na terra de chão. Meus amigos me escondiam os sapatos, e lá ia eu, descalça corredor a fora, até chegar na sala de aula e ver a professora com os olhos fixos nos meus pés. Esconderam, professsora. Era o que eu dizia. Mas não dizia que esconderam porque eu os deixei em qualquer canto, à mercê de qualquer um mais mal intencionado.

Meias e sapatos sempre me causaram desconforto. O pé suado, apertado, querendo tocar o chão, sentir o calor da terra, o molhado da grama, a lama entrando pelo vão dos dedos. E quem se atreve a andar descalço na rua? É como andar pelado, todos olham, estranham, indicam com os olhos que é preciso tomar cuidado. Sabe como é, caco de vidro, prego enferrujado, cocô de cachorro, mau olhado. Bem vestida e descalça? Não tem bolha no pé que justifique, nem frieira nem coceira que permita, só pode ser pinéu.

E se é assim mesmo, se os pés descalços apontam para o corpo nu, é só no Carnaval que se permite andar pela avenida com os pés livres de qualquer amarra, de qualquer instituição. E foi assim que fui feliz nesse carnaval: os pés descalços tocando pela primeira vez os paralelepípedos da ladeira de Brazópolis, quando eu me sentia numa ligação profundamente íntima com a cidade que mais amor me causa, onde melhor me encontro, onde me sinto em casa.

Os pés livres, tocando o chão da minha terra, me comunicavam, mais uma vez, que é possível ser ligado a qualquer coisa ou a qualquer lugar, desde que não se tenha medo de ficar descalço dos pés e despido da alma, livres para amar uma pessoa, uma cidade ou os dias que se vive durante o carnaval.

Roberto Bolaño: Estrela Distante

Bolano estrela distante

Roberto Bolaño, Estrela distante. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, 143 páginas.

 

Já fazia um tempo que eu estava interessada em ler algo do Bolaño, só tinha ouvido coisas boas dele e sabia que, de certo modo, ele trabalhava em seus livros um tema que me interessa, que é a violência. Na última feira do livro na USP comprei um livro chamado 2666, mas, meu pai surrupiou meu exemplar antes que eu pudesse lê-lo. Tudo bem, as mais de oitocentas páginas do livro me assustaram, e pensei então a começar a ler o Bolaño por outro livro, mais curto, enquanto espero meu pai ler o exemplar de 2666.

Que o Bolaño era bom, eu já imaginava, bons críticos já diziam isso. Mas, como diria minha vó, ele é danado. Em primeiro lugar, porque ele brinca com a narrativa como Garrincha brincava com a bola, acho que podemos colocar as coisas assim. Ele diz o que não é, depois não diz o que é, depois diz que acha que pode ser, mas não tem certeza, depois diz que sim, agora ele tem certeza… O narrador conta uma longa história, dá detalhes, exemplifica, e no fim, diz: “mas talvez nada disso tenha acontecido”. Que raios! E aí, ele continua: “Pode ter acontecido ao contrário, dessa outra maneira”. E por aí vai, nos levando a crer e a duvidar o tempo todo daquilo que está sendo dito. Numa certa altura, ele diz que essa história sim, essa aconteceu dessa mesma maneira exatamente como está contando. Por quê? Oras, por quê, porque ele leu num livro e o livro dizia que foi exatamente assim!

E assim Bolaño vai bricando com o estatudo da narrativa, fazendo o leitor acreditar que aquilo é verdade, depois colocando tudo aquilo em xeque, convidando o leitor a imaginar, do jeito que puder, o que poderia ter acontecido. Danado ele, eu disse.

Bem, e ainda mais danado é que o livro parece um filme de suspense. Pela narrativa você sabe que algo muito sério está para acontecer. Mas ele enrola, te envolve primeiro, cria a cena, faz um intervalo, e você – o leitor – você lá, esperando a cena principal, prevendo que virá sangue, morte, assassinato, alguma coisa que ainda não dá para saber o que é. E aí você lê uma página, precisa parar, ir no banheiro, atender ao telefone, qualquer coisa, e não consegue largar o livro.

E aí, quando a cena vem, o choque é maior do que esperado. Ele te prepara mas, meu amigo, você não está preparado. O estômago revira, o coração acelera. Você fecha o livro e fica com medo de estar sozinho em casa. Não, não tem fantasma, não tem assombração. Tem a violência do homem na sua face mais cínica, mais camuflada, tratada como um meio para o seu fim: a violência como obra de arte.

E é disso que o livro trata, afinal: da arte, da literatura e da forma como tudo isso também pode ter o seu lado sombrio, de como um sistema político violento permite que homens violentos alcancem notoriedade e passem pelo público de forma totalmente impune. Os limites entre arte e violência são peças chave da trama do livro, mas sempre com o pano de funda da ditadura militar chilena, da violência do Estado e da tortura como algo cotidiano e banal em regimes políticos como esse.

Estrela Distante nos coloca face a face com os problemas mais sérios do homem, da humanidade, falando apenas e simplesmente de literatura. Danado, o Bolaño.

Receita de felicidade

Da noite para o dia ele perdeu todo o seu dinheiro. Parece que houve um incêndio que tomou as plantações de um lado da fazenda, no outro, uma peste atacou a criação de galinhas, os peixes apareceram mortos e os funcionários todos fugiram por medo da represália. Devia de ser mau olhado. Lá se foi trator, estaleiro, caminhonetes, gado, os chalés da fazenda, tudo. Tudo. Só podia ser mau olhado.

João, sereno, se entristeceu, pensou no trinta anos de trabalho para construir o patrimônio, pensou depois que ainda era jovem e poderia, com esforço, resconstruir, não tudo, mas alguma coisa. Já na cama, se agitava preocupado, mas caiu no sono na esperança de tudo se acertar. Amanhã ele veria o que fazer.

A manhã, no entanto, acordou cinza. O telefone da fazenda toca e ele descobre que o filho, em intercâmbio lá do outro lado do mundo, sofreu um acidente e está em coma. Não é nem possível falar com ele. A mulher se desespera. Eles procuram às pressas uma passagem aérea. Quando voltam a ligar no hospital, uma enfermeira, em língua estrangeira, diz que não adianta mais. Os procedimentos já estão sendo tomados para o envio do corpo de volta à terra natal.

João pensou no filho, ele sempre foi melhor que eu, sempre viveu melhor que eu. De tudo o que João trabalhou, foi o filho quem melhor aproveitou. Viveu, viajou, conheceu gente e o mundo. Era um rapaz alegre, corajoso, confiante na vida. João sentia que, de tudo, era o filho o seu maior tesouro, e que este também tinha se ido.

Sem dinheiro e sem o filho, João só tinha a esposa e a vontade de continuar vivendo. E viveu. Triste, mas viveu. Até que descobriu um câncer de próstata já avançado. Sem recursos, foi internado no SUS e lá passou a conviver com 3 outros senhores que também estavam em tratamento de câncer.

De todos, a história de João era a mais triste. Seus companheiros, também sofrendo, buscavam animá-lo. Um deles pensou que aquilo poderia ser uma prova divina, um teste de fé. João já não queria mais ter fé, acreditar num Deus que lhe roubou os bens, a família e agora a saúde. Para ele, não fazia mais sentido lutar por uma vida tão ausente de qualquer alegria. Outro falava de bênçãos futuras, dizia que a vida talvez pudesse ainda melhorar, e João lembrava dos lugares longíquos que o filho conheceu, e ele sempre sem poder estar perto, sem poder apertar a sua mão. O terceiro, ao ouvir as histórias do filho de João, disse que ele era um homem abençoado, que ele tinha algo que ninguém lhe roubaria jamais, que era essa saudade que lhe enchia o peito, trazia lágrimas aos olhos, o homem dizia que era ela, era essa saudade o que lhe traria a saúde, a riqueza e a alegria que um dia lhe roubaram.

O primeiro disse que aquilo tudo era uma bobagem, que saudade não curava ninguém. O segundo pensou, ficou quieto por um tempo, lembrou dos netos que não via há anos, e acenou com a cabeça. O terceiro já estava com o olhar lá fora, longe, sorrindo. João fechou os olhos, amaldiçou uma divindade qualquer e fez uma promessa de que nunca ninguém jamais lhe roubaria sua saudade. Em quatro meses todos morreram, o primeiro infeliz, o segundo com alguma esperança, o terceiro com alegria. João morreu carregado de saudades de tudo o que teve e tudo o que viveu.

Valter Hugo Mãe: A máquina de fazer espanhóis

_maquina_espanhoisValter Hugo Mãe, A máquina de fazer espanhóis.  São Paulo, Cosac Naify, 2011. 254 páginas.

Não. O livro de Valter Hugo Mãe não fala de espanhóis. Ele fala dos portugueses, e os espanhóis, quando aparecem, é apenas para falar, apontar, refletir os portugueses. Mas também não se engane o leitor. Não é dos portugueses que se trata o livro, mesmo que seja o Fernando Pessoa, ou melhor, o Esteves sem metafísica do poema do Pessoa quem dê o ritmo e o tom do livro. O livro nem é mesmo sobre o Esteves. O livro fala sobre a velhice e, antes ainda disso, fala sobre a amizade na velhice.

Quem narra o livro é antônio jorge da silva, assim mesmo, um antônio em minúsculas, ou melhor ainda, um silva em minúscula, como é a vida de todos os silva. Depois da morte da esposa, silva é internado num lar para idosos e é lá que se passa toda a trama do livro. Num primeiro momento, silva se fecha, se ressente, sente a morte e a ausência da esposa, volta-se contra a filha, contra o diretor, contra o enfermeiro.

Aos poucos, silva conhece um companheiro do lar, depois outro, depois outro. Em todas as histórias e conversas, é a morte quem ronda, o abandono, o desejo de que a vida se encerre como se encerra o dia. Nada a fazer, nada a contar, nada mais a desejar. A vida no lar se mistura com as memórias e saudades do passado com a impotência onipresente do presente. E é nessa mistura, nesse entremeio que silva nos conta suas lembranças, as de agora e as de antes. Histórias de ontem, histórias de muito antigamente.

Se no momento em que chegou no lar silva não queria falar com nenhum de seus semelhantes, no decorrer da trama é no quarto de seus companheiros, nas conversas noturnas, na cama compartilhada de madrugada que silva encontra um sentido para a velhice. Numa das passagens mais lindas e surpreendentes que já li nos últimos anos, silva confessa ao enfermeiro: “precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros, américo, justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria. esgotei sempre tudo na laura e nos miúdos. esgotei tudo demasiado perto de mim, e poderia ter ido mais longe. e eu não morro hoje, rapaz, não morro sem acompanhar o senhor pereira ao cemitério.”

Fecha-se o livro com um desejo grave de encontrar os outros. Esse outro que o silva fala, esse outro que justifica a vida, esse outro que não está suficientemente perto, esse outro que por vezes não percebemos ou não queremos perceber, ocupados que estamos da laura e dos miúdos.

O livro de Mãe foi uma homenagem dele a seu pai, que não viveu a terceira idade. O seu legado se parece, no entanto, com uma oração de quem não acredita na vida após a morte, mas acredita no valor do outro, em qualquer idade que seja.