Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de Agosto, 2011

Choro de criança

Estava escuro dentro da sala, mas percebi que a moça ao meu lado enxugava discretamente as lágrimas enquanto um menino chorava  na tela do cinema. Seus movimentos eram delicados: o seu choro não era propaganda: talvez apenas emoção retida que escapou aqui e ali, melhor que ninguém percebesse o que acontecia, melhor que ninguém perguntasse.

Ainda me lembro da última vez que chorei de dor: a perna latejava já manchada de sangue depois de um tombo de patins em cimento grosso. Com olhos de menina, eu olhava o machucado, ardente, e lágrimas caíam desobedientes pelo meu rosto.

Depois disso, menina crescida, dor de choro era dor de coração. Certa vez ganhei um travesseiro cheiroso – de presente – mas me tomaram ele de volta. Outra, fui dada como responsável pelo sumiço de alguma coisa, e eu, sem nenhuma culpa, chorava sem respostas também.

Dor de machucado é fácil de explicar. Por que chora, filha? A menina aponta o joelho ralado, abraça a mãe e está tudo entendido. Dor de coração é diferente, enche de vergonha e recato quem a sente. Choro vira cisco no olho, coceira, vergonha de ser pego de surpresa.

Certa vez, um namorado que tive terminou comigo num banco de praça. A sua estratégia era buscar um lugar tranquilo, longe de olhares curiosos. Mas eu, que fui pega de surpresa, precisei tomar um ônibus, aos prantos, enfrentando o cobrador que me inquiria com os olhos o motivo de tanta angústia. Eu corria para casa, em busca de um travesseiro que escondesse a minha dor. Poder esconder a dor deveria de ser direito adquirido de todo aquele que chora, sem importar o motivo.

A moça no cinema chorava baixinho, e ainda suspeito que o filme não tenha lhe trazido lembranças de algum irmão ou parente falecido, como havia acontecido com o menino que chorava dentro da tela. Ela chorava porque o garoto lhe despertava emoções, e são raros os momentos em que podemos chorar livremente, sem motivos, sem explicações. E ela escondia o choro certamente porque como menina crescida aprendeu que só se chora no escuro, por trás dos óculos, sem ninguém por perto.

Eu, companhia silenciosa, me emocionava não pelo choro do menino, mas pela possibilidade e pela singeleza do choro da moça ao meu lado, choro que não pedia explicações.

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Consulta marcada

Agora eu prometo que não esqueço mais. Foi o que me disse a velha senhora depois de perguntar pela terceira vez o nome do meu marido. Durante a nossa conversa ela insistia em adoçar o meu chá, e eu insistia em recusar. Ela se esquecia, oferecia de novo o açúcar. Eu  relembrava, dizia de novo que não precisava.  Ela se dava conta que tinha esquecido, pedia desculpas pela memória já fraca, e logo oferecia o açúcar mais uma vez.

Ao contrário da doçura que ela me oferecia – tão logo oferecida, tão logo esquecida – a velha senhora se lembrava de detalhes do marido, já falecido há tanto, tanto tempo. Era ela quem lhe engomava o colarinho. Ele era baixinho, sabe? E o colarinho firmado dava a ele um ar de elegância, uma altivez que ele, na verdade, não tinha. Lembrava-se também de detalhes sobre minha avó, que ficou tantas vezes aqui em casa, trazia todas as meninas, elas dormiam no chão daquele quarto ali, seu avô que cuidava delas, enquanto a Góia assistia às aulas na faculdade.

E eu esquecida na conversa perdi a hora na manicure. Outro dia, esquecida no jardim, perdi a consulta médica que levara dois meses para chegar. Sessenta anos a menos não me fazem melhor do que a velha senhora em lembrar aquilo que posso esquecer. Amanhã marco outro horário para fazer a unha. Semana que vem procuro um novo médico que me atenda no convênio, não é tão urgente assim. Mas há coisas que não me esqueço, ah, não me esqueço.

A voz de minha mãe ao telefone naquele dia mais triste. Os poucos dentes na boca do mendigo que dizia, em língua estrangeira, que eu tinha um sorriso bonito. O cheiro da primeira casa em que morei assim que deixei a casa de meus pais. A alegria de encontrar um pedaço de provolone no saquinho de pipoca vendido na porta da faculdade. O primeiro, o segundo, o terceiro namorado. A melhor amiga no jardim de infância, a melhor amiga no primário, a melhor amiga no colegial.

Não me esqueço que por tanto tempo eu quis ser outra pessoa, assim como não me esqueço das conchas para as quais eu olhava quando percebi, num estalo duradouro, que eu poderia ser feliz sendo eu mesma.

Já o horário na manicure, ah, isso tem que estar anotado na agenda. É preciso espalhar bilhetes pela casa para que não se perca os prazos e o vencimento das contas, ao contrário do amor – cravado em cada canto de mim, latejando a todo momento, retomando dores que eu já gostaria de ter esquecido e alegrias que me pegam de surpresa no meio do dia.

Queria dizer à velha senhora que o esquecimento é, a seu modo, uma bênção. E que no fundo tenho medo: medo de chegar aos 90 anos sem me esquecer de nada, a mala da memória pesada, trazendo comigo tudo o que amei e não tive, com o coração latejado de saudade. Melhor é me lembrar apenas do colarinho engomado, do pescoço altivo, nem sei direito se ele era altivo mesmo ou não, já faz tanto tempo…

Cerejeiras pela rua

Enquanto as pessoas na mesa conversavam com vigor sobre suas vidas, Carolina sentia medo. Calada ao canto, ouvindo histórias magníficas, ela se sentia pequena diante de um arsenal de proezas e falas e vitórias e derrotas e tristezas tristíssimas de pessoas que ela pouco conhecia. Buscando na memória algum resto de acontecimento, alguma máxima popular, Carolina se acabrunhava: podia contribuir muito pouco com aquele cenário em que as pessoas narravam feitos e se engradeciam diante dela, que se apequenava, que se amedrontava, que se emudecia a cada minuto.

Pagou a conta do restaurante e pôs-se a correr pela cidade. Sozinha. Ainda ouvia restos de conversa, de histórias, vozes cheias de certezas afirmando que ela era covarde, que ela era pior, que era feia, que ela era quase imperceptível. Lembrava-se de vozes antigas que diziam fortemente que ela era indefinível: nem alta, nem baixa, nem gorda, nem magra, nem loira, nem morena. Indefinível.

Em meio a caminhada as vozes foram silenciando e Carolina passou a perceber árvores rosadas colorindo a rua de uma cidade que ela pouco conhecia. Ela sabia o nome da árvore e ignorava o nome da rua. E num estalo lembrou-se de tantas flores que cultivava no seu quintal – pensou no nome de cada uma delas. Tentou lembrar os nomes das ruas de sua cidade e percebeu que entende mais de flores e plantas do que da situação política e econômica de seu país. Sorriu. Flores e plantas e árvores e frutos ainda lhe interessam mais que as notícias cotidianas, cotidianamente repetidas sobre economia repetida e a vida pessoal repetida dos políticos e celebridades.

É na solidão que Carolina se sente segura. A indefinição que marca sua presença entre as pessoas se transforma em certeza, em doçura, em coragem. Ao estar sozinha Carolina sabe bem o que é que ela é. Entre as pessoas Carolina se perde, e é só quando encontra um lugar vazio que possa ocupar é que ela volta a ser Carolina de novo. Sem adjetivos, apenas Carolina.

Um livro de receitas

Há dias em que se deve prestar bastante atenção aos sinais que nos avisam de é que perigoso se aproximar da cozinha. Certamente esses são os dias em que é mais difícil abrir a alma, se doar para alguma coisa. E cozinhar sem entrega é errar a receita, sempre. Para cozinhar é preciso desejar alimentar a si e a alguém. É preciso, antes de mais nada, desejar servir.

Às vezes, no entanto, é tempo de sentar à mesa à espera de que nos sirvam, como moça mimada, que em seus paparicos ainda assim reclama do detalhe que não saiu bem ao gosto. Nesses dias não adianta tentar. A mesma panela de sempre sobre o mesmo fogão de sempre vai, sem dúvida, queimar o arroz cotidiano. E depois do arroz vem o omelete grudado no fundo da frigideira – o omelete de sempre, no fogão de sempre. É tempo de sentar e apenas esperar. Esperar o amor do outro. Esperar a entrega do outro.

E talvez o olhar do outro possa, de alguma maneira, nos salvar dessa sede de receber, no lugar de oferecer algo. Há dias em que nossa alma resiste a entregar qualquer amor, qualquer que seja. E a cozinha escancara essa recusa, revela esse cenário que amanheceu árido, seco, duvidoso: ela tem alma feminina, pressente ao longe o interesse vil, a vontade feroz de apenas matar a fome no lugar de um desejo singelo de entrega e serviço.

Não adianta continuar tentando. Todos os utensílios parecem se voltar contra este que se tornou um intruso em lugar sagrado. Nem mesmo o livro de receitas com capa de couro vai ser capaz de desfazer o feitiço. É preciso saber perder. É preciso saber esperar.

E se ninguém aparecer, e se o outro não vier, se uma outra entrega não acontecer, não é de bom tom viver à mingua e passar fome. Mas é preciso olhar para si e reconhecer que este não é dia de entrega, que existe antes uma carência, uma ausência, e é grave o sentimento daquele que respeita, em silêncio, este vazio. Talvez amanhã o dia amanheça mais claro, e os sinais sugiram que é dia de entrega, e que não apenas a cozinha, mas um pedaço maior do universo espera com doçura todas as suas gentilezas.