Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de raiva

alquimia

e se a gente transformasse

raiva em beleza

tristeza em amor

cansaço em compaixão

 

e se a gente transformasse

armas em flores

gritos em silêncio

silêncio em amor

 

e se o amor fosse suficiente,

bastaria?

Soluço

A gritaria é enorme e não se sabe mais quem ofende, quem defende. Aos berros ela arranca as roupas do varal, aperta no punho fechado uma camiseta do marido e diz que está tudo duro, cheirando a bife, dias e dias esquecida na lavanderia. O marido lembra que ela tratou mal seus amigos no último encontro, que ela não se esforça, que se acha melhor que todos os outros, que menospreza sua família e que todos percebem isso. Ela pergunta se tem cara de empregada, se ele acha que é isso que uma mulher deve fazer, passar o dia arrumando a bagunça que ele faz, tentando adivinhar o que ele quer para o almoço. É isso?

Ela pega as roupas dele recém passadas sobre a cama e joga no chão. Embaralha, amassa, pisoteia, pergunta se ele quer uma passadeira. Ele sai. Ela corre atrás dele, grita, diz que ninguém a deixa falando sozinha.

Ele pega a chave do carro, bate a porta, canta o pneu. Ela pega um copo, joga no chão. A raiva não passa. Ela joga tudo o que vê no chão. A raiva não passa. Vai até a varanda e espera. Espera o marido, espera a raiva. Espera. O marido volta. Se senta ao lado dela. Ele a abraça, ela tenta se desvencilhar. Ele é mais forte, segura a mulher. Ele a abraça forte. Ele diz no ouvido dela em tom decidido: eu te amo. Ela solta o corpo, se envolve naquele abraço. Ele a aperta mais e sussurra que ela é a mulher mais linda do mundo, a mais linda de todo o mundo. Ela devolve o abraço, soluça.

Eles entram em casa, ela recolhe as roupas no chão, ele busca a vassoura e varre os cacos, ela pergunta o que ele vai querer para o almoço, ele diz que mais tarde vai levá-la para tomar um café. Passeiam, namoram etc.

Antes da primavera

Eu ainda trazia os restos de uma conversa difícil quando entrei na garagem. E foi enquanto opiniões severas sobre meus últimos escritos ainda ressoavam em minha cabeça que percebi os rastros de meu pai em minha casa: as flores do jardim foram todas podadas, e só restaram restos de tocos de caules sem nenhuma beleza, sem nenhuma novidade. A desolação dentro do peito parecia refletida em meu jardim.

Desolação que logo virou revolta: passo a mão no telefone e disco depressa o número de meu pai. Ele não tinha o direito de podar todas as flores de uma só vez, deixando meu jardim deserto. E ainda me restava a dúvida se ele havia feito correto, se não tinha passado do ponto, cortando muito mais do que deveria, comprometendo assim toda a vida das minhas plantas.

O telefone chamou, chamou. Não atendeu. Volto para o jardim, me sento ao lado dos caules carecas e choro com eles nosso espaço desolado. Meu pai com o tesourão. Meus textos rabiscados de vermelho por um especialista. O jardim quase deserto. Meu coração quase vazio. A revolta se desfazendo em choro, os rasbiscos em meus textos se desfazendo no jardim, o choro se desfazendo no vento.

De súbito me levanto, busco o velho regador e me coloco a aguar todas as plantas, saciando a sede que era delas, que era minha. Nada se altera, apesar da água. As flores não estão mais ali, tudo é deserto, tudo é ausência de esperança.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito perto de mim. Enquanto me quedo esquecida de meu pai, esquecida dos rabiscos vermelhos, esquecida dos meus escritos, algo acontece no jardim. Dias depois percebo uma haste – tenra, pequenina – se arriscando para além do caule que ficou seco. Em todas as plantas que foram violentamente podadas era possível perceber um anúnico de vida. Vida que renascia, apesar da insegurança, apesar da fragilidade, apesar da incerteza.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito dentro de mim. Enquanto me quedo esquecida no meu jardim, esquecida em meio a tantas novidades e hastes novas e folhas hesitantes e perfumes ainda frágeis, percebo uma fisga de esperança. Não penso mais em brigar com meu pai. Não julgo mais aqueles que rabiscaram meus escritos. A primavera se aproxima, as flores começam a brotar mais uma vez. Meu coração, imagem refletida do jardim, começa a palpitar forte novamente. É hora de voltar a escrever.