Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de orfanato

Férias

O menino avistou ao longe o orfanato. Tudo começava a fazer sentido. O silêncio na longa viagem de volta das férias. A mulher calada. O homem puxando assunto. As crianças tão diferentes dele. Ele não se lembrava de ter visto a menina tão branca desde quando as férias começaram. Lá na fazenda ela parecia ser como ele, brincavam, andavam de cavalo, pescavam juntos, andavam de bicicleta. Ele nem reparava, nem notava a diferença entre eles. Ele a chamava de irmã, e o irmão dela, de irmão. Todos iguais.

O coração do menino tremeu. “Mãe, o que estamos fazendo aqui?” perguntou à mulher. Ela continuava calada. O menino insistia. “Pai, o que estamos fazendo aqui? O que a gente veio fazer aqui?”. “Calma”, o homem respondia, e engolia o “meu filho”. As outras crianças não percebiam, continuavam contando os carros vermelhos e azuis que passavam na estrada na direção contrária.

O menino se inquietou. Perguntou ao homem quando iriam de novo para a fazenda. O pai respondeu que talvez nas próximas férias. O menino disse que queria voltar já, agora mesmo, agora, pai, vamos voltar, agora. O homem disse que ele precisava ir para a escola, fazer as lições de casa, que não podia ser férias sempre. “Pai, eu queria que fosse férias sempre”.

Quando chegaram no orfanato, as outras duas crianças  avistaram a diretora e correram para abraçá-la. Surgiram outras crianças, num minuto levantou poeira e tudo parecia uma grande alegria. O menino não desceu do carro. Virou-se e olhava a estrada pelo vidro de trás. A mulher também não desceu. Os dois ficaram ali. O menino disse que queria contar os carros pretos. Os irmãos tinham contato os vermelhos e os azuis mas ninguém tinha contado os pretos. Ele ficaria ali, para contar os pretos até que os irmãos voltassem.

O homem, depois de conversar com a diretora, pediu a ela que fosse até o carro chamar o menino. Ela abriu a porta, disse a ele que tinha ficado com saudades, falou que seus irmãos estavam perguntando por ele. O menino respondeu que aqueles não eram seus irmãos. “Mãe, acabou de passar um preto! Vou contar pros meus irmãos que eu vi um preto!”. A mulher calada. A diretora insistia. “Vamos, vem! Vamos voltar para o seu quarto! Eu fiz aquela canja que você gosta! Vem contar pra gente como foram as suas férias! Vem!”. “Mãe, mais um! Outro vem vindo, mãe! Nossa, desse jeito eu vou ganhar! Quanto carro preto, mãe!”.

Num solavanco a mulher saiu do carro, correu para fora do orfanato. O menino ficou sozinho. Olhava para a mulher e não entendia porque ela não queria ser sua mãe. A diretora insistia. O homem entrou no carro, o menino percebeu suas mãos trêmulas. Foram elas que lhe puxaram o braço e o arrancaram para fora. Seus brinquedos novos, todos que tinha ganhado de sua nova família, estava tudo ali. Mentira. Aquela não era sua família. O menino olhou para o homem, os olhos vermelhos, chutou os brinquedos, correu para o dormitório e não olhou para trás.

Outras crianças vieram buscar os brinquedos que tinha deixado. O homem chorava. A mulher esperava na estrada. A diretora foi chamar as duas crianças que brincavam no meio da poeira. Elas entraram no carro, a diretora fechou a porta, foram até a estrada e pegaram a mulher. A menina perguntou sobre o irmão. O pai disse que ele teria que ficar no orfanato, junto com os irmãos dele. Os irmãos de verdade. E, quem sabe, nas próximas férias, a gente fica com ele de novo. As crianças voltaram a contar os carros. “Olha um azul! Ponto pra mim!”. “Um vermelho! Ponto meu!”. A mãe, soluçando ainda, disse que também ia brincar. “Eu conto os pretos”.