Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de comida

Um remédio para o cansaço

A menina tentava um sorriso, mas era evidente o esforço que fazia frente aos 38,5 de febre. Na saída do consultório médico, a mãe estava mais aliviada: o diagnóstico de virose afastava outras possibilidades de maior risco. Apesar da febre, aquilo não era quase nada. Só tomar bastante água, 3 vezes por dia desse remedinho, e em pouco tempo a menina estaria bem.

Percebendo a filha tão cansada, a mãe tenta alegrá-la e diz que ela pode escolher o que quiser para o almoço. Qualquer coisa? Sim, qualquer coisa! Qualquer coisa mesmo, mãe? Sim, filha, qualquer coisa. O problema é que a mãe não compreendia que o prazer infantil não é formado por sabores exóticos e especiarias. Ao contrário de tudo aquilo que ela mesma desejaria em um momento extremo de cansaço – sashimi de salmão, queijo minas com doce de leite, picanha muito mal passada, vinho malbec, tábua de queijos, sorvete de macadâmia, café Brazópolis coado, ovo caipira cozido com azeite e uma pitada de sal, caipirinha de limão com manjericão, linguado ao forno com cheiros de alecrim, purê de batatas com caldo de carne de panela – a menina sonhava com as surpresas que saíam de dentro da caixa do McLanche Feliz.

Não era o sanduíche sem graça que ela desejava, tampouco as batatas fritas ou o refrigerante. Ela bem sabia que em casa tudo aquilo era melhor e mais saboroso. O que dava prazer à menina era a surpresa, era a alegria dos novos brinquedos, era o cheiro de novo das pecinhas que brotavam de dentro da caixa.

Lá se foram, mãe e filha, para a lanchonete. Enquanto a menina brincava com os novos bonequinhos, o sanduíche ficou esquecido num lado da mesa. A mãe, faminta, passa a beliscar a batata: de tão preocupada com a filha esqueceu-se da sua fome. De dentro da bolsa seu telefone vibra: é o marido querendo notícias. Percebendo a voz exausta da mulher, promete a ela que fará uma surpresa para o jantar, só para ela, só para os dois.

Ela desliga o telefone, olha fixamente a filha que brinca com aquelas pecinhas frágeis e pensa no sabor do sashimi de salmão se alastrando pela sua boca. Frente ao cansaço extremo não há nada mais sublime que o prazer – qualquer prazer – que faça lembrar a alegria de sermos seres humanos e estarmos vivos, prazer que vence a vontade de morte e de descanço eterno. A mãe sorri, sabe que finalmente vai descansar e encontrar alívio de tantas obrigações. A filha brinca e se esquece da luta travada com seu pequeno corpo. As duas agora envoltas numa atmosfera de alegria e prazer frente à vida.

Um livro de receitas

Há dias em que se deve prestar bastante atenção aos sinais que nos avisam de é que perigoso se aproximar da cozinha. Certamente esses são os dias em que é mais difícil abrir a alma, se doar para alguma coisa. E cozinhar sem entrega é errar a receita, sempre. Para cozinhar é preciso desejar alimentar a si e a alguém. É preciso, antes de mais nada, desejar servir.

Às vezes, no entanto, é tempo de sentar à mesa à espera de que nos sirvam, como moça mimada, que em seus paparicos ainda assim reclama do detalhe que não saiu bem ao gosto. Nesses dias não adianta tentar. A mesma panela de sempre sobre o mesmo fogão de sempre vai, sem dúvida, queimar o arroz cotidiano. E depois do arroz vem o omelete grudado no fundo da frigideira – o omelete de sempre, no fogão de sempre. É tempo de sentar e apenas esperar. Esperar o amor do outro. Esperar a entrega do outro.

E talvez o olhar do outro possa, de alguma maneira, nos salvar dessa sede de receber, no lugar de oferecer algo. Há dias em que nossa alma resiste a entregar qualquer amor, qualquer que seja. E a cozinha escancara essa recusa, revela esse cenário que amanheceu árido, seco, duvidoso: ela tem alma feminina, pressente ao longe o interesse vil, a vontade feroz de apenas matar a fome no lugar de um desejo singelo de entrega e serviço.

Não adianta continuar tentando. Todos os utensílios parecem se voltar contra este que se tornou um intruso em lugar sagrado. Nem mesmo o livro de receitas com capa de couro vai ser capaz de desfazer o feitiço. É preciso saber perder. É preciso saber esperar.

E se ninguém aparecer, e se o outro não vier, se uma outra entrega não acontecer, não é de bom tom viver à mingua e passar fome. Mas é preciso olhar para si e reconhecer que este não é dia de entrega, que existe antes uma carência, uma ausência, e é grave o sentimento daquele que respeita, em silêncio, este vazio. Talvez amanhã o dia amanheça mais claro, e os sinais sugiram que é dia de entrega, e que não apenas a cozinha, mas um pedaço maior do universo espera com doçura todas as suas gentilezas.