Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de choro

Antes da primavera

Eu ainda trazia os restos de uma conversa difícil quando entrei na garagem. E foi enquanto opiniões severas sobre meus últimos escritos ainda ressoavam em minha cabeça que percebi os rastros de meu pai em minha casa: as flores do jardim foram todas podadas, e só restaram restos de tocos de caules sem nenhuma beleza, sem nenhuma novidade. A desolação dentro do peito parecia refletida em meu jardim.

Desolação que logo virou revolta: passo a mão no telefone e disco depressa o número de meu pai. Ele não tinha o direito de podar todas as flores de uma só vez, deixando meu jardim deserto. E ainda me restava a dúvida se ele havia feito correto, se não tinha passado do ponto, cortando muito mais do que deveria, comprometendo assim toda a vida das minhas plantas.

O telefone chamou, chamou. Não atendeu. Volto para o jardim, me sento ao lado dos caules carecas e choro com eles nosso espaço desolado. Meu pai com o tesourão. Meus textos rabiscados de vermelho por um especialista. O jardim quase deserto. Meu coração quase vazio. A revolta se desfazendo em choro, os rasbiscos em meus textos se desfazendo no jardim, o choro se desfazendo no vento.

De súbito me levanto, busco o velho regador e me coloco a aguar todas as plantas, saciando a sede que era delas, que era minha. Nada se altera, apesar da água. As flores não estão mais ali, tudo é deserto, tudo é ausência de esperança.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito perto de mim. Enquanto me quedo esquecida de meu pai, esquecida dos rabiscos vermelhos, esquecida dos meus escritos, algo acontece no jardim. Dias depois percebo uma haste – tenra, pequenina – se arriscando para além do caule que ficou seco. Em todas as plantas que foram violentamente podadas era possível perceber um anúnico de vida. Vida que renascia, apesar da insegurança, apesar da fragilidade, apesar da incerteza.

O mistério do universo se realiza, no entanto, muito dentro de mim. Enquanto me quedo esquecida no meu jardim, esquecida em meio a tantas novidades e hastes novas e folhas hesitantes e perfumes ainda frágeis, percebo uma fisga de esperança. Não penso mais em brigar com meu pai. Não julgo mais aqueles que rabiscaram meus escritos. A primavera se aproxima, as flores começam a brotar mais uma vez. Meu coração, imagem refletida do jardim, começa a palpitar forte novamente. É hora de voltar a escrever.

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Choro de criança

Estava escuro dentro da sala, mas percebi que a moça ao meu lado enxugava discretamente as lágrimas enquanto um menino chorava  na tela do cinema. Seus movimentos eram delicados: o seu choro não era propaganda: talvez apenas emoção retida que escapou aqui e ali, melhor que ninguém percebesse o que acontecia, melhor que ninguém perguntasse.

Ainda me lembro da última vez que chorei de dor: a perna latejava já manchada de sangue depois de um tombo de patins em cimento grosso. Com olhos de menina, eu olhava o machucado, ardente, e lágrimas caíam desobedientes pelo meu rosto.

Depois disso, menina crescida, dor de choro era dor de coração. Certa vez ganhei um travesseiro cheiroso – de presente – mas me tomaram ele de volta. Outra, fui dada como responsável pelo sumiço de alguma coisa, e eu, sem nenhuma culpa, chorava sem respostas também.

Dor de machucado é fácil de explicar. Por que chora, filha? A menina aponta o joelho ralado, abraça a mãe e está tudo entendido. Dor de coração é diferente, enche de vergonha e recato quem a sente. Choro vira cisco no olho, coceira, vergonha de ser pego de surpresa.

Certa vez, um namorado que tive terminou comigo num banco de praça. A sua estratégia era buscar um lugar tranquilo, longe de olhares curiosos. Mas eu, que fui pega de surpresa, precisei tomar um ônibus, aos prantos, enfrentando o cobrador que me inquiria com os olhos o motivo de tanta angústia. Eu corria para casa, em busca de um travesseiro que escondesse a minha dor. Poder esconder a dor deveria de ser direito adquirido de todo aquele que chora, sem importar o motivo.

A moça no cinema chorava baixinho, e ainda suspeito que o filme não tenha lhe trazido lembranças de algum irmão ou parente falecido, como havia acontecido com o menino que chorava dentro da tela. Ela chorava porque o garoto lhe despertava emoções, e são raros os momentos em que podemos chorar livremente, sem motivos, sem explicações. E ela escondia o choro certamente porque como menina crescida aprendeu que só se chora no escuro, por trás dos óculos, sem ninguém por perto.

Eu, companhia silenciosa, me emocionava não pelo choro do menino, mas pela possibilidade e pela singeleza do choro da moça ao meu lado, choro que não pedia explicações.