Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de união

À porta do céu

Geraldo nasceu numa família humilde, era mais um no meio de um tanto de irmãos. Os pais lavradores, a mãe insistiu para que todos frequentassem escola. Geraldo foi o único que se formou no ensino superior. Lutou muito, mostrou valentia frente aos tapas que levava na vida. Conseguiu bom emprego, aprendeu a lidar com o dinheiro que ganhava, poupava, investia, crescia. Comprou casa, comprou carro, trocou de carro, casou, teve filhos, viajou pro estrangeiro.

Os filhos de Geraldo não viveram a mesma sina do pai. Nasceram em lar com fartura. Frequentavam restaurantes todos os finais de semana. Tomavam sorvete. Iam à praia duas vezes por ano. Estudaram em colégios caros, receberam ótima educação. Ganharam carro, ganharam casa.

De Geraldo dizem que foi batalhador, que tudo o que tinha foi construído pelo suor de seu rosto. De seus filhos não dizem o mesmo. Com desdém, ouve-se à boca miúda que tudo o que têm foi o pai que deu. Se não fosse o pai não teriam casa, não teriam carro, não teriam estudo. Os mais maldosos afirmam que se estes, os filhos, tivessem vivido a sorte do pai, certamente não teriam construído nada, e seriam como seus tios, um bando de zé ninguém.

O que não se sabe, no entanto, é que todas noites Geraldo faz suas orações ao seu Deus, e pede a Ele que abençõe seus filhos, que esse Deus conceda a eles tudo o que concedeu a ele próprio, que retribua a fidelidade que ele, Geraldo, tem lhe devotado, garantindo aos filhos fartura e saúde. Pede ainda que Deus tenha paciência com o espírito fraco dos filhos, que os ajude a serem mais firmes na bondade e no amor. E o Deus de Geraldo, que não olha para as pessoas como nós olhamos, responde a ele, dá aos filhos o dobro do que Geraldo lhe pede, e abençoa toda a família, já que a espera, de braços abertos, num céu em que São Pedro não cobra carteira de identidade nem certidão de débito na entrada do Paraíso. É a família de Geraldo, inteirinha, que será recebida com gozo e festa num céu marcado por um espírito coletivo. Enquanto isso aqueles que diziam coisas pequenas à boca pequena, lutam sozinhos por dinheiro, felicidade e salvação.

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