Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de timidez

Pedras que a gente encontra no caminho

Aconteceu com a minha vizinha. Ao voltar da praia, após uma semana de férias, ela passou aqui em casa, para um café. Assim que entrou me espantei com o hematoma que trazia perto do olho, desses bem roxo. Na hora pensei no velho filme batido: minha vizinha e seu marido na praia, ele bebendo o dia inteiro, ela, bonitona, estirada ao sol, passa um mais abusadinho, mexe com a vizinha e logo vem o marido, já alcoolizado, arrumar briga. A praia vira um fuço, aparecem os amigos do aproveitador, o marido precisa se conter mas ao chegar em casa, é a mulher que leva uns safanões. Ninguém mandou desfilar de fio dental por aí.

O problema é que a vizinha e o seu marido se davam bem, bem demais até. Ia ser preciso, então, acreditar na versão dela. E a versão era essa: ela e o marido caminhavam no calçadão quando aparece, vindo na direção dela, uma mocinha sorridente com panfletos na mão. Assim que minha vizinha percebe o movimento da mocinha, larga instantaneamente a mão do marido e inicia um movimento contrário à mocinha de panfletos na mão. Simpática que é, não tenho dúvidas de que a vizinha continua a caminhada – em direção contrária – também sorrindo para a mocinha sorridente, bem assim, como quem agradece com os olhos e rejeita com o sorriso. Enquanto sorri para a mocinha sorridente com os panfletos, paf! Eis que um orelhão se coloca no trajeto da minha vizinha, que dá de bochecha no telefone. Desatordoada com o barulho e com a pancada, ela dá um passo atrás e se vê envolvida examente nos braços da mocinha sorridente etc. O marido vem em socorro da vizinha que, ainda sem entender o orelhão e a pancada, percebe apenas o abraço caloroso da mocinha, e ouve dela que era preciso tomar mais cuidado, andar mais atenta, e ah, inclusive, fique com um panfleto, estaremos hoje fazendo a inauguração do residencial Beira Mar, lá você encontra apartamentos de dois ou três dormitórios com preços a partir de não sei quantos reais o metro quadrado.

Ainda perplexa, minha vizinha vê a mocinha sorridente com um panfleto a menos na mão se afastar. Corre as mãos pelo rosto e percebe um calombo perto do olhos. O marido lhe abraça e sussurra em seu ouvido que poderia ter sido pior, que ela podia ter encontrado um carro no meio da rua em sua fuga desenfreada da mocinha sorridente com panfletos na mão.

Aconteceu com minha vizinha. Mas poderia ter acontecido com qualquer um. Quem nunca abraçou um orelhão? Quem nunca quis se desvencilhar de um vendedor insolente que prometia o paraíso caminhando exatamente na direção do inferno? Quem nunca se afastou tanto que acabou agarrado nas asas do inimigo? Quem nunca vivenciou uma história tão absurda que ninguém acreditaria se lhe fosse contada? Aconteceu com ela, mas poderia ter acontecido com qualquer um.

Antônio de Ferraz

Para Natália Corazza

Prefiro corredores. Mesmo que ande desajeitada, mesmo que olhe para o chão. Melhor ter um espaço por onde caminhar, um caminho por onde fugir que ficar parada, perdida, sendo ninguém no meio de uma multidão. O problema é que a multidão sorri, a multidão conversa, troca telefones, inventa ideias. A multidão se conhece, e eu sou ninguém. Continuo sendo ninguém.

Contorno a multidão que se aglomera no saguão. Antes de chegar a novos corredores leio cartazes, anúncios. Vende-se, aluga-se, procura-se, compra-se, inaugura-se. Vende-se de novo, compra-se. Procura-se. Procuro. Procuro sempre. Procuro um corredor. Procuro um vendedor. Procuro um banheiro, um bebedouro. E a multidão ainda falante, ainda sorridente.

Como todos se conhecem? Como é possível conhecer tanta gente? Onde eu estava quando todas estas pessoas passaram a se conhecer e a se telefonar e a se procurar? Como elas sabem tanto de si e eu não sei nada?

Um graçom passa e oferece bebida. Pergunto a ele se sabe onde está sendo o lançamento do livro do Antônio de Ferraz. Ele pede desculpas, diz que não sabe informar mas aponta uma senhora que talvez possa me ajudar. Vou até ela, senhorinha já, pergunto pelo autor, ela responde que não o conhece, como ele se chama mesmo? Antônio de Ferraz. Sabe que meu filho também se chama Antônio? Eu queria muito que ele fosse escritor, assim como meu pai. Seria tão fácil, a editora ali, com tudo prontinho para publicar. No começo era mais dificil, mas aos poucos a editora foi crescendo, agora tudo é mais fácil. Mas ele cismou de ser pintor. Pintor? É, pintor. Agora está no estrangeiro. Meu neto nasceu dia desses, mas ainda não o conheci, acredita? Acredito.

A conversa foi longe. Me esqueci dos corredores, dos anúncios, dos livros, dos bebedouros, da multidão. Me esqueci do meu pânico de congressos e lançamentos e feiras. Não me importava mais como as pessoas se conheciam. As pessoas não me importavam mais. Nem me importava mais Antônio de Ferraz.

Quando me despedi da senhorinha foi que percebi que ela estava sentada na última mesa do saguão, no início de um corredor. Como eu, ela também era ninguém.

O sorriso de Maria

“Ontem eu saí com a Maria!”, me conta, alegre, minha colega de trabalho. Quem? Eu pergunto. Ela explica que é a Maria, aquela menina calada da seção ao lado. “Você nunca reparou nela? É uma menina magrinha, cabelo liso, quietinha, ela trabalha na coleta de dados”. Não, nunca notei. E quando tento entender porque raios minha amiga resolveu sair com a tal menina, ela me conta, feliz, que a Maria é uma menina excelente, doce, mora com a avó, cuida dela, inclusive. Se formou alguns anos depois da nossa turma, adora estórias infantis e até escreve poemas. Ela lhe mostrou alguns. A Maria precisou de alguns dados da nossa seção e foi então que começou a conversar com a minha amiga. Agora, é amiga dela também.

Passei, então, a reparar em Maria. Mas não havia jeito, nada nela me despertava o mínimo interesse. Ela era lenta, apagada, calada, trazia o corpo retraído, uma roupa sem nenhum apelo visual. O cabelo sempre preso no meio da cabeça, não usava brincos, olhava para o chão. Como alguém como ela poderia escrever poemas? No que ela prestaria atenção?

Diferente de mim, Maria não se incomodava em ser anônima. Em seis meses na empresa, trabalhando na seção ao lado, eu nem a percebera. Pedi à minha amiga para me mostrar alguns dos seus poemas. De forma forma silenciosa, os poemas chegaram à minha mão. Eles falavam da alegria da vida divida com a avó, da esperança trazida pela companhia daqueles que ela amava, do poder da amizade, dos detalhes da rua onde ela morava, das flores que ela cultivava em seu pequeno apartamento, dos olhos da pessoa amada.

Seus poemas me golpearam. Ela dizia muito do que eu mesma queria ser capaz de dizer, ao perceber o mundo de maneira doce, e ainda, silenciosa. Como uma pessoa como ela podia passar de forma tão despercebida neste mundo? Por que ela se escondia quando na verdade deveria entregar aos outros esse dom que carregava em si?

Munida de seus poemas me dirigi à seção ao lado, procurei por Maria, e só pude perceber sua silhueta escondida atrás do computador onde trabalhava. Chamei por ela, disse que gostaria de conversar um pouco, podemos tomar um café? Claro, e num instante ela estava ao meu lado, preparando duas xícaras de café, com açúcar? Disse a ela que não precisava de açúcar, ela sorriu e contou que também não adoça o café, fica melhor para sentir o sabor.

Naquele momento olhei para Maria, e enquanto ela me entregava o café já preparado, eu procurava nela algum traço de toda genialidade contida nos poemas. Ela olhou para mim, tímida, perguntou o que eu gostaria de conversar com ela. Eu hesitei. Então seus olhos encontraram os meus. Ela sorriu. Baixou novamente a cabeça, e eu, desconcertada, perguntei a ela se os dados que ela precisava estavam todos corretos. Ela sorriu de novo, disse que sim, agradeceu a atenção, e se foi.

O sorriso de Maria ao olhar os meus olhos foi o mais poético que já encontrei. Um sorriso e um olhar para uma estranha. Essa era a sua poesia. Essa era a sua ferramenta. Maria não precisava ser conhecida para distribuir sorrisos, nem precisava ser notada para escrever poemas. Para ela lhe bastava a existência, desde que essa existência fosse repleta de sorrisos, tímidos, mas sorrisos.