Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de solidão

Pretérito perfeito ou mais que perfeito

É sempre em assaltos que ela se apresenta. Dirigindo na mesma estrada de sempre, sem mais nem menos, nos lembramos de um olhar amado que pedia para a gente ficar, e, simplesmente não ficamos. Sem explicação. Sem porquê. Anos depois, diante de nossa antiga recusa, olhando a mesma paisagem de sempre, a culpa nos golpeia, nos faz esquecer o destino, nos aperta contra o volante, sufoca, nos faz implorar para voltar àquele momento e mudar o que foi feito. Não dá. Não dá mais. A culpa não nos permite nenhuma mudança.

Às vezes ela insiste em nos acordar no meio do noite. Um sonho estranho, um susto, uma sede e lá está ela, sentada na poltrona em frente à cama, pernas cruzadas, cigarrilha na mão, discorrendo sobre o passado. “Por que mesmo você deixou de viajar com seus pais naquele inverno de 2001?”, ela pergunta. Você, então, ainda sonolento, pensa no pai, pensa na mãe, já idosos, desejosos da sua presença, e você, sei lá, pensava numa garota, pensava no trabalho, pensava em qualquer coisa. Agora os pais não podem mais viajar. Você acordado, quer ligar para a mãe, será que ela também está acordada? Talvez, ela também tem insônia, ela é como eu. E a culpa te observando, fumando seu longo cigarro enquanto você revira na cama, e nada muda, não dá para mudar.

Lendo um livro, um livro banal, ou quase banal, a culpa vem, senta do nosso lado, sussura algo que não compreendemos. Lemos mais um parágrafo, as palavras clareiam, e então percebemos a sua presença. O personagem mau humorado e rude do romance nos lembra quantas e quantas vezes tratamos mal aqueles que estavam do nosso lado. Por quanto tempo essas pessoas permaneceram por perto? Não lembramos. Um dia, simplesmente, elas se foram, e a gente fez que não percebeu. Dá para voltar? Dá para ser mais gentil agora? “Não, meu caro, não dá”, sussura mais uma vez a senhora sentada ao nosso lado. Não dá.

A culpa se apresenta sempre no passado, passado mais que perfeito, em que nada, nenhum um milímetro de nossa história pode ser modificado. Não dá mais para oferecer o beijo que recusamos, não dá mais para ser gentil quando deixamos de ser. Não dá para apagar as palavras rudes que ficaram no ar. Não dá para fazer de novo. E a culpa sabe disso, e ri, às gargalhadas, de nosso esforço infantil em prometer fazer tudo diferente. De manhã, quando acordamos, tudo não passa de um sonho ruim, esquecemos da senhora sentada na poltrona e tocamos a vida. O relógio já despertou atrasado, o jornal avisa que o dólar vai subir, é preciso pagar o colégio das crianças, não se esqueça da consulta hoje no meio da tarde etc, etc, etc.

Velhas, caducas e amantes

Sim, é preciso ser mais feliz. Não é de bom tom ficar triste demais por longo tempo. É preciso ser feliz. É preciso fazer algo, sair do lugar, tomar novos ares, espantar a tristeza. É preciso ir à praia, comprar uma câmera fotográfica, beber um licor bem colorido, ver o pôr do sol. É preciso ser feliz.

E para isso é preciso, talvez, fazer novos amigos, reencontrar os antigos, experimentar novos cafés, ler um livro com cheiro de novo, ser o último a sair da festa. É preciso esquecer os velhos problemas, que de tão velhos já ficaram caducos.

E no meio de tanta alegria a tristeza ainda espreita. Fica na esquina olhando o vento nos bater ao rosto e ri do cabelo em alvoroço. Sabe bem, a senhora tristeza, que os problemas continuam ali, velhos, caducos, mas companheiros. Sabe ainda que a festa não trouxe os velhos amigos de volta e o coração ainda soluça em meio à multidão.

É a tristeza quem nos aguarda em casa, sozinhos à noite, e nos faz companhia. Paciente, ela espera o fim da festa, o fim dos brindes, e nos acolhe no silêncio que resta depois do último gole. E quando nos enganamos, acreditando mesmo que estamos sendo felizes, ela se cala, nos deixa acreditar na felicidade por uns instantes, uns instantes apenas.

E só quando paramos de buscar a alegria a todo custo é que a senhora tristeza nos sussura ao ouvido que é ela quem dá a mão para a felicidade, e que só saberemos ser felizes se aprendermos a conviver com essas duas senhoras, velhas, caducas e amantes.

Despedida

Amanhã quando eu acordar você não estará mais conosco. Nos últimos dias já era possível pressentir a sua partida: seus olhos baixos, seu silêncio, sua fraqueza. Os dias estavam quentes, os pernilongos voltaram as nos perturbar o sono. O céu já não reluzia do azul frio e brilhante dos seus melhores dias. Mas amanhã, definitivamente amanhã, você não estará mais conosco.

E antes de sua partida já pressentimos a chegada de uma senhora gloriosa. Senhora que de tão velha não envelhece nunca. Senhora perfumada de perfume da terra e colorida de cores inomináveis. Senhora que não se esconde, que não aceita tristezas, que fala da vida e cobra da vida que lhe sirva de espelho. E na presença desta senhora tão garbosa nos esqueceremos completamente de você.

Nesta nova presença tudo é fala, é dança, é diálogo. O que era cinza se torna chumbo, chão, terra, flor, fruta, vitamina, alegria. O que era silêncio na sua presença se transforma em nada, nem mesmo em lembrança. Tão logo você se vai e nos esquecemos de você.

Mas hoje, ainda, você está aqui. Trazendo chuva, trazendo umidade, refrescando meus olhos secos, me saciando de melancolia, me aquecendo com o crepitar da madeira no fogo. E é só nesses dias que me alimento de silêncio, que relembro que também sou terra, que me transformo a cada estação e que me reencontro contigo sempre a cada ano, no mesmo silêncio, na mesma reconstrução, no mesmo esconderijo da terra quando fujo do frio e me protejo, silenciosamente, no calor da solidão. Vá, meu amigo. Estarei te esperando no próximo ano, na próxima temporada, com um cobertor nos ombros, uma taça de vinho na mão, e um nó apertado no coração.

Partilha

Tento dizer mas, como eu mesma, as palavras também ficam pela metade.

Dias a fio

De todos os seus talentos, era a sua capacidade mágica de fazer chover nos dias secos o que mais me acalmava o coração. Sereno que vinha do céu e de seus olhos cansados, cansados de velar, dias a fio, a terra seca e o meu amor sem direção.

Entardecer

São cinco da tarde e ainda sinto sua presença. Não me importa que em meia hora tudo desapareça, que você suma, que o céu se torne escuro, que apenas o silêncio me seja companhia. Importa a sua presença, amarelando o final da tarde, me abrançando e tornando o mundo à minha volta amarelo, todo amarelo.

São cinco e meia da tarde e ainda sinto a sua presença. Mesmo que a luz vá enfraquecendo, ainda sinto sua presença. Tudo em minha volta é banhado de toda paz que tenho quando você ainda está por perto, me aquecendo, me envolvendo, me trazendo o silêncio e o desejo de que você fique um pouco, só um pouco mais, um pouquinho mais.

São seis da tarde e quase não percebo mais sua companhia. É no final do horizonte que vejo seu rastro, sua despedida. Você acena, cantarola, faz charme. Diz que volta amanhã e eu duvido. No escuro eu sempre duvido. No escuro eu sinto frio, sinto medo. Peço que você fique, mas você não fica. Você vai embora todos os dias. Você me deixa. Você me deixa mesmo sabendo que me desespero na sua ausência, que perco o sono, que perco o rumo. Você acena e diz que volta.

E amanhã você volta, para de novo às cinco da tarde eu sentir um soluço no coração. De novo, cinco e meia, a hora mais sublime em sua companhia. Cinco e meia e você ali, segurando minha mão, me convidando para seu banho – banho amarelo, cheio de luz. Cinco e meia e eu já pressentindo sua partida, sua despedida, seu aceno, seu espetáculo. Às seis e você já se foi. Às seis e não tenho mais nada de sua companhia. E de novo sinto medo, e de novo sinto frio.

E desejo com desejo ardente que chegue logo o verão, e você atrase seu relógio, e me abandone só as oito da noite. Hora do jantar, hora em que o mundo noturno precisa ser organizado, as visitas daqui a pouco estão chegando e eu nem mesmo percebi que você me abandonou. E eu nem preciso implorar por mais cinco minutos, cinco minutinhos da sua companhia. E é quando eu acredito mesmo que é você quem gosta de mim, e fica mais um pouco, fica mais um pouquinho. E sou eu quem te aqueço, quem te revelo toda a beleza do mundo escondida por traz do amarelo que trago dentro de mim.

Para escrever um texto pessoal

Se eu escrevo “eu odeio beterraba”, você, que também odeia, lê a frase e se identifica. Ao lê-la, você afirma “eu odeio beterraba”. Neste momento acontece algo mágico: eu e você somos um, somos apenas eu, numa identificação completa.

E quando eu escrevo “eu amo São Paulo” você, que não ama, que detesta São Paulo, que escapa da cidade assim que tem oportunidade, ao ler a frase “eu amo São Paulo” não se reconhece, mas imagina, é capaz de se colocar no meu lugar, pensa na possibilidade de você mesmo dizer “eu amo São Paulo”, e revê, então, cada faísca de amor: uma caminhada à tarde nos morros da Vila Madalena, um passeio pelo Jardim da Luz e a visita à Pinacoteca, a estreia de uma turnê derradeira da Fernanda Montenegro, a vista ao longe da cidade no alto da Pedra Grande. É bem possível que você também comece a amar São Paulo, do jeito que dá, mas pode bem ser amor. E assim, mais uma vez, temos a possibilidade de sermos um, eu e você, sendo apenas eu.

As possibilidades são muitas. Quantas vezes posso tocar no fundo da sua alma ao dizer exatamente o que sinto? Inúmeras, inúmeras vezes. E a cada vez compartilhamos um pouco mais da alegria das palavras, que comunicam, que expressam, que nos aproximam.

O problema é que quando escrevo na primeira pessoa do singular eu me coloco perto de você, mas dificilmente você estará perto de mim. Se eu digo “eu me sinto só”, o que você pode fazer? Como me curar dessa solidão? O que você me dá em troca por essas palavras tão tristes? Melhor não escrever.

Talvez seja esse o mal que aflige os escritores: a ânsia em dizer o que os outros querem ouvir, em contraponto, o silêncio dolorido, vazio de qualquer resposta. O que você tem a me dizer? O que você sente e eu posso sentir junto a você? Por que você não diz nada? Me diga, por favor, me diga.

Me escreva um texto bem pessoal, cheio de eus em que eu também possa ser um com você. Me diga que você odeia beterraba, que você sonha com a Europa, me diga que você está prestes a desistir do seu grande sonho, me diga que está exausto, me diga que tem medo de trovão, de perereca, de fantasma em noite de lua cheia. Me diga tudo isso e ainda me diga mais. Me diga que se apaixonou, me diga que sofre por um amor perdido, me diga que tem calafrios toda vez que seu superior se aproxima, me diga que você tem vergonha de suas pernas finas, que não consegue terminar o mês sem estar no vermelho. Me diga que tem uma família louca, que tem ciúmes da sua melhor amiga. Me diga qualquer coisa, por favor, me diga.

Espero o seu texto, e espero que ele seja bem pessoal. Pode mandar por e-mail, por carta, por publicação no jornal. Pode jogar debaixo da porta, pode pixar no muro, imprimir em pequenos folhetos e espalhar pela cidade. O que importa é que o texto seja seu, e que eu possa me reconhecer nele, e assim eu possa estar próximo a você. Obrigada.