Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de resenha

Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa

 

Pascal Mercier, Trem noturno para Lisboa. Rio de Janeiro, Editora Record, 2009, 460 páginas.

Em qualquer resenha sobre o livro Trem noturno para Lisboa é possível saber que se trata da história de Gregorius, um professor de filologia de Berna que se apaixona pela sonoridade da palavra “português” e parte, então, para uma viagem rumo a Lisboa onde procura aprender essa nova língua.

Há dias terminei a leitura deste livro e desde então fico me rebatendo, tentando encontrar o que dizer sobre ele. O básico já foi dito em todos os lugares: se trata da história de um homem que abandona sua vida regrada num liceu de Berna e parte para o improvável em sua busca por uma nova língua.

O que mais, então, pode ser dito? Certa vez, um amigo antigo me falou, em voz baixa, que não se deve contar o seu poema favorito a ninguém. Seu poema favorito é o seu maior segredo. O que dizer então do livro que te tirou o conforto diário, te jogou na tempestade, arrancou as raízes calmas do cotidiano?

Não, eu não teria muito a dizer sobre Trem Noturno para Lisboa. A não ser que se é fisgado pelo livro no momento exato em que Gregorius se apaixona pela sonoridade da palavra “português” cantado pela voz de uma estrangeira desconhecido numa ponte de Berna. E isso acontece nas primeiras dez páginas. Da estrangeira que entregou essa bela palavra a Gregorius não sabemos mais nada, só a devastação que ela causou na vida dele. Depois deste encontro, Gregorius decide aprender português, vai até uma livraria e o livreiro lhe apresenta um livro nesta língua, de um médico de um livro só, Amadeu Prado. Gregorius, já apaixonado pela palavra português, se apaixona uma segunda vez por tudo aquilo que é dito no livro daquele autor desconhecido. Num impulso, ele abadona sua vida e parte para Lisboa, numa tentativa de conhecer esse médico que diz coisas sublimes num idioma sublime.

O livro nos leva, então, a conhecer diversos personagens. Adriana, Mariana, Mélodie, João Eça, Silveira, Jorge, Cecília, Maria João, Estefânia, todos eles acompanham, de algum modo, Gregorius em sua tentativa de conhecer a história de Amadeu.  Há uma semana terminei o livro e ainda me espanto com a vivacidade de cada um desses personagens na minha memória. Ainda me assusto com eles, com a profundidade com que são desenhados, é como se estivessem do outro lado da sala, me observando enquanto vou desvendando aquilo que eles sabem sobre Amadeu.

De todos os personagens, no entanto, é Amadeu, o médico das palavras de ouro, quem conduz toda a trama do livro. É por Amadeu que Gregorius modifica sua vida, avança, tropeça, muda, por fim. O livro possuiu três tramas narrativas: o livro de Amadeu, a língua portuguesa e o xadrez. Eles estão presentes em quase todas as páginas. Os personagens transitam por esses lugares, as conversas versam sobre os três temas. As escolhas são feitas a partir deles. As partidas de xadrez aparecem como um descanso na trama pesada, um alívio para a fumaça que é levantada em cada página. A língua portuguesa traz a beleza e a sonoridade da história, as últimas letras comidas, o chiado no final das palavras. E o livro de Amadeu, com seus questionamentos intermináveis, lança Gregorius e a nós, leitores, num redemoinho de perguntas e sensações e descobertas que nos levam quase ao torpor.

Entre um e outro tema encontramos ainda resquícios da ditadura de Salazar, mãos trêmulas após anos de tortura, desaparecidos, doentes, velhos moribundos, estratégias de combate, resistência entremeados na memória de agora e na memória de antes. Nenhuma página é escrita com ares de espetáculos, antes, cada evento – o de agora e o de antes – é narrado por palavras exatas, tranquilas de estarem no lugar exato onde deveriam, sem exagero nem excesso.

É tudo que posso falar sobre Trem Noturno para Lisboa. Todo o resto ainda está preso em mim, ou eu nele. Esse livro que deveria trazer na capa um aviso: “CUIDADO, PRECIPÍCIO!”.

Fico à espera, de Davide Cali

CALI, Davide. Fico à espera. Ilus. Serge Bloch. Tradução Marcos Siscar. São Paulo, Cosac Naify, 2007. 56 páginas. Colorido.

Na Livraria Cultura é bem capaz que você só encontre este livro na seção de infantis. Se você é daqueles que passa ao largo desta seção, sinto dizer, vai perder a chance de conhecer um dos livros mais delicados que já li em toda minha vida. “Fico à espera” fala sobre o tempo e a vida – sobre o fio da vida. O novelo de lã sendo desenrolado é a metáfora presente em todas as páginas do livro e é a partir dela que o autor trabalha cada uma das fases da vida: desde a infância, passando pela adolescência e juventude até a velhice.

O personagem principal não tem nome. E não tem porque poderia se chamar Adriana, Gustavo, Regina ou Carolina. Podia ser eu, podia ser você. E podia ser você porque desde pequeno você espera: espera para nascer, espera a chuva passar, espera o bolo assar no forno, espera as férias, espera crescer, espera encontrar a pessoa que você ama. Bom, e depois que encontra a pessoa que ama, meu amigo, a espera só piora. É hora então de esperar o outro pedir desculpas, voltar de viagem, crochetar a roupinha do bebê. Depois do bebê, aí sim,  a vida vira uma odisseia. E a espera continua: pelas férias, pelas conquistas dos filhos, pelos netos.

É então que se percebe que a vida passou de tanta espera, e já se está velho, e de tão velho resta pouco o que esperar: o fim da doença, a visita dos filhos, o funeral. E nesse momento, em que descrevo essa cena, me vejo de olhos marejados de novo. Nem estou lendo o livro, só estou me lembrando dele, e me emociono. Fico à espera é assim, de fazer chorar, chorar por nada, chorar de lembrar. Sem dúvida alguma é um livro essencial. Não se deixe enganar pelo catálogo, ele deve ser lido por qualquer um, indepedente da idade.

Memórias de um sobrevivente – Luiz Alberto Mendes

MENDES, Luiz Alberto. Memórias de um sobrevivente. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, 417 páginas.

Memórias de um sobrevivente é uma autobiografia de Luiz Alberto Mendes. Digo autobiografia num duplo sentido: porque foi escrita pelo próprio autor e também porque se difere das biografias baseadas em documentos e registros. Como o próprio título diz, é uma biografia baseada em “memórias”. E as memórias de Luis Alberto voltam-se para uma experiência em que ele se considera um sobrevivente: sobrevivente de uma história permeada por dores extremas.

No momento em que escreve suas memórias, Luiz Alberto se encontra preso já há 20 anos. A narrativa se mostra, assim, como uma visitação do autor aos momentos críticos de sua vida, não num desejo de argumentar os motivos que o levaram a trilhar aquela vida que ele trilhou até ser preso, mas sim, num esforço de compreender, ele mesmo, o que o levou até ali.

O livro tem início na infância de Luizinho – antes até – ele conta como nasceu sem ter sido muito desejado pelos seus pais e avós. Mesmo assim, Luis demonstra uma relação de afeto e carinho profundo pela mãe, ao contrário do pai, sempre bêbado e sempre violento. Suas primeiras experiências com a violência começam ali, dentro de casa, na relação tensa que tem com o pai e as nas disputas pelo carinho, cuidado e atenção da mãe.

A história de Luiz não parece ser assim tão diferente dos demais que um dia conviveram com ele em quadrilhas de assalto a banco ou rodas de maconha pelo centro de São Paulo. O que diferencia a história de Luis é a própria narrativa, seu desejo de visitar os lugares da memórias e contá-las a um leitor – por mais impossível que esse leitor lhe pareça.

O autor narra de forma detalhada a experiência que teve em instituições de controle quando adolescente, os diversos desentendimentos com a polícia, a tortura corporal sofrida, o desejo de vingança, o sadismo presente nas celas escuras das delegacias às vesperas do golpe militar. Narra suas experiências com drogas, a adrenalina do ronco do motor na saída de um assalto, as conquistas sexuais, as saudades sempre eternas da mãe, o desejo de se reconciliar com o pai.

A crueldade sempre presente na vida desses adolescentes – dele e de seus amigos – permeia o texto: em certos momentos, a crueldade dos policiais é criticada de forma radical, por vezes, no entanto, o narrador parece se esquecer desta mesma crueldade e parte ele próprio para a violência. Violência sempre presente, a todo momento presente, no corpo, no texto, na história.

A maior violência, no entanto, parece ser a solidão. E não num sentido romântico – ficar por seis meses numa cela-forte sem luz nem companhia não tem nada de romântico. O frio, a fome e a ausência de qualquer cuidado se sobrepõe aos maltratos físicos extremos que o narrador sofreu em outros momentos de sua vida.

É ali, então, quando se encontrava sozinho e bem perto da loucura, que o narrador se encontra com o universo dos livros. Sem muito conhecimento, Luiz se debruça sobre eles e faz deles a sua liberdade. Torna-se um autodidata e é assim, na companhia dos livros e dos amigos que também os amavam, que o autor consegue “pagar” seus anos de pena.

Memórias de um sobrevivente é um livro escrito a partir da prisão e traz consigo todos os desafios que esse tipo de literatura carrega ao colocar o leitor no lugar desconfortável de ter que escolher entre confiar naquilo que está sendo dito por um autor que implora por qualquer migalha de confiança.