Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de meio fio

Esquecido no meio fio

Não consigo me lembrar de quantas vezes montei naquele leão. Foram muitas, muitas mesmo. Ele não era grande, mas para mim, uma criança de no máximo dez anos, era o suficiente para parecer um leão enorme, cheio de garras que apontavam para a rua. A estátua era a alegria daquele jardim. Foi dia desses que descobri que há muito tempo algumas crianças da rua conseguiram a proeza de dominar o bicho, derrubando a estátua e escondendo seu corpo nalgum canto na frente da casa. Depois disso o leão restou bem preso, com cimento e brita na base, a salvo da molecada da rua.

Enquanto girava a colher na xícara com chá, com as pernas buscando o restinho do sol que entrava na varanda, a velha senhora me contava como o marido encontrou o tal leão, há mais de cinquenta anos. Descendo a rua, quase ali na esquina do quarteirão, existia um depósito com restos de entulhos, restos de construção, restos de casas. Foi ali que o seu Gêro avistou de longe o velho animal, encostado num canto, imponente ainda. Perguntou logo quanto valia o bicho e o vendedor disse que aquilo era lixo, que não valia nada não. Se não vale nada, eu levo de graça! Chegou em casa com o leão e outras quinquilharias catadas às pressas, sem saber o que fazer com tudo aquilo. A senhora se lembrava ainda da sua cara de espanto ao ver a estátua, ao ver os olhos enormes do marido enquanto contava como tinha conseguido o bicho real sem gastar um tostão.

Os tais olhos enormes eu também conheço. Dia desses minha mãe chegou esbaforida: “Me empresta a caminhonete?”. Eu ainda com um pedaço de pão na boca, dei uma golada de café com leite para ver se conseguia digerir aquilo e perguntar alguma coisa antes de indicar onde estavam as chaves do carro e vê-la sair correndo. Claro, mãe, mas por que a pressa? A pressa era uma treliça, avistada no meio de uma caçamba de lixo em uma rua qualquer da cidade. Era preciso usar a caminhonete para trazer aquele pedaço precioso de madeira que algum desconhecido havia recusado. Mal terminei o café, minha mãe e meu pai já tinham saído para fazer o resgate.

Assim como o leão, recebido como uma realeza na casa do seu Gêro, a treliça chegou em casa e ganhou logo lugar próprio. O dia mal clareou e uma trepadeira já tinha sido plantada aos pés do novo móvel, que em poucos dias já seria abraçado pela planta.

Certa vez, na faculdade, me ensinaram o que significa bricolagem: uma espécie de tarefa daquele que tenta criar coisas novas a partir de objetos velhos, me disseram ainda que era isso que eu deveria ser capaz de fazer um dia. Não sei se entendi bem, mas acho que minha mãe e meu pai – e o seu Gêro também – dariam bons bricoleurs, ou no mínimo deveriam ser saudados por algum poeta, por trazerem no peito a capacidade de amar aquilo que foi rejeitado, oferecendo nova vida, nova família, nova existência para aqueles corações partidos esquecidos no meio fio.

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