Pequena Flor de Laranjeira

Pequenas crônicas, pequenos contos. Textos semanais. Por Adriana Taets.

Arquivo de histórias

Não empreste seus ouvidos

Essa história que vou contar agora se passou com a minha vizinha. Bem que podia ser uma historinha da Mafalda, ou do Calvin, mas não, é uma história da minha vizinha. Pois a história é a seguinte: minha vizinha se encontrava na igreja e ouviu um bonito sermão do padre (ou seria pastor? Não me lembro…) em que ele dizia que devemos prestar mais atenção ao próximo, que só assim poderíamos contribuir para a construção de um mundo mais amoroso. O que chamou a atenção da minha vizinha foi que, em detrimento do que geralmente se ouve por aí, ou seja, é preciso amar o próximo e ponto, o padre, ou pastor, deu continuidade ao sermão e ofereceu algumas dicas de como prestar mais atenção ao próximo. A principal delas era emprestar o seu ouvido ao próximo, ou seja, ouvi-lo, se interessar pelos seus problemas, procurar saber se está bem, se está feliz, se enfrenta alguma dificuldade e por aí vai.

Minha vizinha, empolgada com as novas dicas de amor ao próximo procurou colocá-las em prática já na segunda feira. Assim que chegou ao trabalho não se limitou a dar bom dia à secretária do escritório, mas aproveitou a oportunidade para perguntar se estava tudo bem com ela, se ela havia conseguido fechar o financiamento na Caixa Econômica para comprar a casa própria (minha vizinha se lembrava de que na semana anterior a secretaria havia faltado ao trabalho para tentar resolver algumas pendências no banco). O rosto da secretária se abriu e ela contou à minha vizinha que ainda estava enfrentando sérias dificuldades, que achava que o gerente do banco estava de marcação com o marido dela, que ficou desempregado por apenas dois meses no ano anterior, mas já estava com carteira assinada e tudo mais. E tem mais, sabe que minha mãe está com um nódulo no seio? Ai, menina, estamos todos tão preocupados, e se for câncer, o que a gente faz? Eu sei, eu sei que agora o SUS oferece tratamento, mas a gente não sabe mais se dá continuidade no financiamento, se espera… minha vizinha olhou para o relógio, a reunião com o chefe começaria dali a pouco. Se foi e deixou a secretária ainda falando do provável câncer da mãe.

Apesar da notícia trista da secretária, minha vizinha ainda tentou emprestar o seu ouvido ao próximo. Perguntou à colega de trabalho como ela estava, se estava se adaptando ao novo tratamento que começara contra a gastrite. Também ali ouviu uma ladainha sem fim com nomes de remédios, endereços de consultórios e clínicas médicas, contra indicações de tudo quanto é tipo, a tristeza pela falta de apoio do namorado, que aliás, estava cada dia mais distante, acho que ele não gosta mais de mim, você acha que ele pode estar se interessando por outra pessoa? Minha vizinha não sabia, não sabia nada, na verdade.

Não era nem meio dia do começo da segunda feira, minha vizinha já se encontrava desanimada. Mas lembrava, de relance, das palavras do padre, ou pastor, e ficava mais convicta que emprestar seu ouvido ao próximo seria a melhor maneira de fazer desse mundo um lugar mais alegre, mais aconchegante. E continou. Até que no fim da semana ela já tinha ouvido sobre os problemas mais diversos, falta de dinheiro, dor de barriga, planos frustrados de viajar nas próximas férias, problemas que o filho tem trazido na escola, o irmão presidiário, o outro viciado, pais se separando, amores se desfazendo, carência, desejo, sonhos que se procura alcançar, pós graduação, demissão, até sobre dinheiro ganho na loteria e perdido no jogo minha vizinha ouviu.

Já na sexta feira, exausta de tanto ouvir, minha vizinha se deu conta de que durante toda a semana ninguém perguntou a ela como se sentia, ninguém se lembrou do seu problema com a avó, internada há tempos e quase se indo, ninguém a convidou para um café nem telefonou perguntando se gostaria de ir ao cinema. Ninguém se ofereceu para ir com ela na audiência de conciliação com a antiga faxineira.

Voltou no final de semana à igreja e lá procurou o padre, ou pastor. Disse que precisava de um ouvido emprestado. Ele então pediu a ela que marcasse um encontro para durante a semana, momento em que exercia a dura tarefa de ouvir os fiéis. Se virou e foi realizar suas tarefas urgentes, sabe como é, irmã, uma igreja inteira para cuidar não é coisa simples.

Sem nem ouvir o sermão, minha vizinha voltou para casa, percebeu a minha luz acesa, tocou a campanhia e me perguntou se poderia conversar. Ouvi dela as histórias da secretária, da colega, da mãe, do eletricista, ouvi ainda as histórias sobre sua avó, ela me contou como foi a audiência de conciliação com a ex-faxineira. Disse ainda que se sentia sozinha e que estava feliz por estar ali, conversando comigo, vizinhas e amigas de tanto tempo. Quando eu ia me levantando em busca de uma garrafa de vinho, para tomarmos juntas e assim eu lhe contaria da promoção que recebi no trabalho, minha vizinha se lembrou que aquele dia precisaria passar no hospital para a troca de plantão, chegaria uma nova acompanhante para a avó e ela precisaria lhe explicar tanta coisa… pediu desculpas por ter de sair às pressas e se foi.

E eu fiquei sozinha, eu e a garrafa de vinho. Sem ouvidos, sem carinho. Quem sabe na volta minha vizinha ainda percebe a luz acesa e entra para um resto de conversa, um resto de amizade, um resto de desejo de compartilhar momentos de silêncio, de olhar para o vinho e perceber as lágrimas que escorrem da taça e da alma da gente.

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Antônio de Ferraz

Para Natália Corazza

Prefiro corredores. Mesmo que ande desajeitada, mesmo que olhe para o chão. Melhor ter um espaço por onde caminhar, um caminho por onde fugir que ficar parada, perdida, sendo ninguém no meio de uma multidão. O problema é que a multidão sorri, a multidão conversa, troca telefones, inventa ideias. A multidão se conhece, e eu sou ninguém. Continuo sendo ninguém.

Contorno a multidão que se aglomera no saguão. Antes de chegar a novos corredores leio cartazes, anúncios. Vende-se, aluga-se, procura-se, compra-se, inaugura-se. Vende-se de novo, compra-se. Procura-se. Procuro. Procuro sempre. Procuro um corredor. Procuro um vendedor. Procuro um banheiro, um bebedouro. E a multidão ainda falante, ainda sorridente.

Como todos se conhecem? Como é possível conhecer tanta gente? Onde eu estava quando todas estas pessoas passaram a se conhecer e a se telefonar e a se procurar? Como elas sabem tanto de si e eu não sei nada?

Um graçom passa e oferece bebida. Pergunto a ele se sabe onde está sendo o lançamento do livro do Antônio de Ferraz. Ele pede desculpas, diz que não sabe informar mas aponta uma senhora que talvez possa me ajudar. Vou até ela, senhorinha já, pergunto pelo autor, ela responde que não o conhece, como ele se chama mesmo? Antônio de Ferraz. Sabe que meu filho também se chama Antônio? Eu queria muito que ele fosse escritor, assim como meu pai. Seria tão fácil, a editora ali, com tudo prontinho para publicar. No começo era mais dificil, mas aos poucos a editora foi crescendo, agora tudo é mais fácil. Mas ele cismou de ser pintor. Pintor? É, pintor. Agora está no estrangeiro. Meu neto nasceu dia desses, mas ainda não o conheci, acredita? Acredito.

A conversa foi longe. Me esqueci dos corredores, dos anúncios, dos livros, dos bebedouros, da multidão. Me esqueci do meu pânico de congressos e lançamentos e feiras. Não me importava mais como as pessoas se conheciam. As pessoas não me importavam mais. Nem me importava mais Antônio de Ferraz.

Quando me despedi da senhorinha foi que percebi que ela estava sentada na última mesa do saguão, no início de um corredor. Como eu, ela também era ninguém.